Carro a álcool, para driblar o pedágio urbano

30% dos moradores de Estocolmo vão para o trabalho andando ou pedalando; 61% usam transporte público

BRUNO PAES MANSO, O Estadao de S.Paulo

19 Outubro 2008 | 01h00

Na prefeitura de Estocolmo, Eva Sunnerstedt atua como gerente de projetos para veículos limpos ou verdes: os carros e ônibus eficientes, cujos motores emitem quantidade reduzida de gases tóxicos ou são movidos pelo etanol da cana-de-açúcar brasileira. Eva defende o transporte a álcool com uma convicção que nem mesmo o governo brasileiro seria capaz. No PowerPoint, mostra um mapa do Brasil. Explica aos ouvintes que as terras na Amazônia não são usadas para a plantação de cana-de-açúcar, cultura que, ela mostra no mapa, se concentra na Região Sudeste. "O etanol e a cana-de-açúcar não contribuem para o desmatamento da floresta tropical. Os compradores de carro a álcool podem ficar tranqüilos", explica. Em Estocolmo, como parte da política municipal para incentivar a compra de carros "ambientalmente corretos", a prefeitura transforma os proprietários verdes em privilegiados. O governo contribui com cerca de 1,1 mil para compradores de carros a álcool. Eles também ficam livres de pagar o pedágio urbano, no valor de 1 a 2, criado no ano passado para desestimular a entrada de carros em Estocolmo, e o estacionamento nas regiões centrais, que custa até 10. Os táxis verdes, da mesma maneira, ganham preferência quando usados pela administração municipal. "Claro que o ideal é que o cidadão não tenha carro", diz Eva. "Mas caso queira, compre um carro pequeno e movido a álcool." Assim como acontece com os demais debates em Estocolmo, o incentivo aos carros verdes se parece mais com um pós-problema. Afinal, os enormes congestionamentos estão longe da realidade local. Existem aproximadamente 280 mil carros privados na cidade, o que significa que 37 em cada 100 habitantes são donos de um carro. Em São Paulo, são cerca de 6 milhões de carros - cerca de 60 proprietários para cada 100 habitantes. Mas, em Estocollmo, mesmo os donos de automóveis não dirigem seus carros no dia-a-dia: cerca de 30% dos moradores da cidade vão para o trabalho andando ou pedalando suas bicicletas, enquanto outros 61% deles circulam usando o transporte público local. Além da eficiência e da qualidade do transporte público, a prefeitura apela para a consciência verde dos moradores com estatísticas que parecem mais apropriadas aos guias de dados curiosos e que de alguma maneira moldam o comportamento do morador local. Pelos dados do município, por exemplo, sabe-se que um ciclista que mora a cinco quilômetros do trabalho emite anualmente 0,7 tonelada a menos de CO2 do que alguém que usa o carro no mesmo trajeto. Outro dado peculiar fornecido pela prefeitura mostra que se todos os pneus de carros fossem calibrados com a pressão correta, cerca de 20 milhões de litros de combustível poderiam ser economizados anualmente, o que significa que a quantidade de CO2 na atmosfera diminuiria em 47 mil toneladas por ano. Como resultado de tamanha campanha e incentivos, o mercado de veículos a álcool tem crescido na cidade, que conta atualmente com cerca de 25 mil carros verdes. Mas o crescimento do mercado é exponencial. Os 3% de carros ambientalmente corretos vendidos pela indústria local já saltaram para 40% do mercado. A prefeitura contribui ativamente com a iniciativa. Da frota de 1,2 mil carros oficiais do município, 626 são verdes. Os quase 200 ônibus verdes da cidade, produzidos pela Scania e que rodam com etanol misturado ao diesel, já deixaram de emitir 120 mil toneladas de CO2 na atmosfera desde 1990.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.