Carro principal estraga desfile da Porto da Pedra

A Porto da Pedra abriu o desfile de segunda-feira com um enredo empolgante, uma bela homenagem às mulheres, alegorias luxuosas, uma comissão de frente impressionante e muita garra dos 3.270 componentes, que tinham o samba na ponta da língua. Tudo para fazer um carnaval campeão. Mas o sonho virou pesadelo quando o carro mais importante - o Mães do Brasil, com mulheres que perderam seus filhos, vítimas da violência - quebrou ainda na concentração. O resultado foi um desfile muito lento na sua primeira hora, numa tentativa de evitar buracos entre as alas, e corrido nos últimos 20 minutos. A escola completou o desfile em 1h21 - um minuto além do tempo regulamentar. Tudo impressionava na apresentação do enredo "Bendita és tu entre as mulheres". A começar pela comissão de frente que representava o "surgimento do universo a partir da essência feminina", nas palavras da coreógrafa Renata Monnier. Onze bailarinas e quatro bailarinos evoluíam sobre uma estrutura chamada "a coisa", que custou R$ 160 mil. "A coisa" tinha seis tentáculos que fazia com que os bailarinos levitassem - até ela falhou e parou de se movimentar da metade do desfile em diante. O carnavalesco Cahê Rodrigues abusou do balé. Havia bailarinos na comissão de frente, no carro abre-alas, que tinha como tema a água, e no carro dos anjos, onde crianças do corpo de balé do Liceu de Copacabana representavam fetos. Carolina Chalita, grávida de cinco meses de Pedro, representava a fertilidade. A escola também homenageou as mulheres que deram origem ao povo brasileiro - negras, índias e damas da corte portuguesa. Mostrou as mulheres nas artes, nos esportes, na política - a ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, a deputada federal Laura Carneiro (PFL-RJ), a senadora Ideli Salvati (PT-SC) vinham no quarto carro. Depois daí, a escola se perdeu. O carro Mães do Brasil, que levava mães das chacinas de Acari, Vigário Geral, Maracanã e tantas outras violências, teve o eixo quebrado e havia risco de incêndio. As destaques tiveram de sair no chão. Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, estava emocionada. "É mais emocionante sair no chão", disse. "O que importa é que alguém nos deu voz", disse Euristéia de Azevedo, que perdeu um filho na chacina do Maracanã. Glória Perez, que autorizou o uso de sua imagem e de sua filha Daniella Perez, mas teve medo da altura do carro, disse que se sentiu homenageada. "A homenagem foi feita", resumiu. A escola passou a correr para evitar a perda de pontos. A ala que falava de temas importantes como aborto, o fim da violência contra a mulher, passou batida. "Fiz um carnaval para ganhar título. Espero que os jurados se comovam com nosso esforço", disse Cahê. No fim do desfile, ele ficou em frente ao carro que traziam as mulheres que fizeram diferença no carnaval, como a carnavalesca Rosa Magalhães, da Imperatriz Leopoldinense, e Sônia Capeta, lendária passista da Beija-Flor. Pediu garra e animação. O carro que apresentou problemas demorou a deixar a concentração e atrasou o desfile da Mangueira. Quando finalmente atravessou a avenida, foi aplaudido de ponta a ponta.

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