Carro que era ''xodó'' foi para o piscinão

Astra foi um dos três automóveis arrastados em córrego da zona sul

Maria Rehder, O Estadao de S.Paulo

23 de dezembro de 2008 | 00h00

A cada puxada do guindaste, uma lágrima de desespero. Nem cheiro ruim nem o sol forte no rosto fizeram o mecânico Luiz Claudio Brasil, de 36 anos, perder a esperança de ver o seu Astra 95 sair inteiro do fundo do piscinão da Água Espraiada na manhã de ontem. Esse é um dos três veículos - que não tinham seguro - arrastados para o piscinão pela enchente da tarde de segunda-feira . E, para desespero dos proprietários, estavam totalmente destruídos.Da mesma angústia compartilham o autônomo Hélio Araújo, de 41 anos, dono de uma Kombi 82, e o técnico em desentupimento Olavo Geraldo, de 34, primo de João Inácio, que sobreviveu ao escapar pelo porta-malas do Uno minutos antes de o carro afundar. "Não sei o que fazer; minha Kombi está toda destruída. Trabalho com sucata, tinha reformado (o veículo) fazia dois meses", disse, chorando ao ver a lataria do automóvel destruída.Anteontem à tarde, os três veículos estavam estacionados na Rua João de Lery, na zona sul, que termina no Córrego Água Espraiada. Por volta das 15 horas, começou a chuva de granizo. "A minha preocupação era que o granizo ia riscar o meu Astra, mas a chuva estava tão forte que não deu para tirar o carro dali. Quando me dei conta, estava sendo arrastado pela água", disse Brasil.As férias de fim de ano para a Praia Grande com a família foram canceladas e, segundo a mulher de Brasil, Alexandra, o prazer de ter conseguido pagar o carro após três anos de financiamento foi por água abaixo. "Esse carro era o nosso xodó; meu marido trabalhou muito para comprar o Astra. Tínhamos alugado casa na praia, mas agora vamos ficar aqui. Nem sei como vamos conseguir comprar um carro de novo." Luiz Claudio lamenta não ter feito seguro do carro. "Esse Astra é daquele modelo americano, o seguro é muito caro. Foi uma luta para pagar o financiamento e agora ele está destruído."Na mesma situação, por ter perdido seu Uno branco, Olavo entretanto comemorava o fato de seu primo João Inácio ter sobrevivido. "Quando a gente viu que ele estava dentro do carro arrastado começamos a correr. Foi um milagre ele sobreviver." PROMESSA NÃO CUMPRIDA Os moradores da Rua João Lery afirmaram que o problema com enchentes não é recente. "A Prefeitura prometeu colocar uma proteção na cratera, mas não fez nada até agora. Perdemos a esperança", disse Hélio, o dono da Kombi arrastada pela enchente.A Rua João Lery termina no Córrego Água Espraiada, cuja margem não tem proteção, o que dá a impressão de ser uma cratera, conforme descreveram os moradores. "A água arrastou os carros para o córrego que, com a correnteza, foram para o piscinão. Se tivesse uma grade nada teria acontecido. Até criança já caiu ali", contou o auxiliar de manutenção Claudio Dias, de 35 anos, que mora na rua há 20 anos.Por meio da Assessoria de Imprensa, a Prefeitura explicou que a cratera citada pelos moradores se trata de uma erosão. Para evitar deslizamentos, hoje serão colocados terra e restos de entulho. Posteriormente, será construído um muro de proteção, embora a Subprefeitura de Santo Amaro tenha informado que não recebeu solicitação dos moradores para isso.O final da Rua João Lery, às margens do Córrego Água Espraiada, segundo a Prefeitura, era uma área invadida. Recentemente, as famílias foram retiradas do local e, por essa razão, o problema da erosão ainda não foi solucionado. Sobre os prejuízos dos proprietários dos automóveis, a orientação é que entrem com requerimento na Secretaria Municipal de Negócios Jurídicos.

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