José Patrício/AE
José Patrício/AE

Carros antigos são os novos alvos dos ladrões

Como as peças desses carros não tinham número de série, podem ser revendidas para colecionadores sem que eles conheçam sua real procedência

Diego Ortiz, do Jornal do Tarde

14 de julho de 2012 | 10h59

"Não dá para descrever a saudade que sinto desde que ela foi embora." Essa frase, que poderia muito bem estar escrita em uma carta de amor, saiu da boca do dono de uma picape Ford F1000 modelo Super Série ano 1985, roubada no Tremembé, bairro da Zona Norte da capital, em meados de abril. Guilherme Avverame é mais uma das vítimas da recente onde de roubos e furtos de carros antigos no Brasil.

De acordo com o diretor da Divisão de Investigações sobre Furto e Roubo de Veículos e Cargas (Divecar), Norberto Moraes, não há estatísticas sobre esse tipo de crime, pois as ocorrências não são registradas de forma clara - não há indicação que se trata de um carro clássico.

Mas basta visitar fóruns de discussão e sites sobre antigos para perceber que esse número vem crescendo. O principal destino, segundo Moraes, são os desmanches. Como as peças desses carros não tinham número de série, podem ser revendidas para colecionadores sem que eles conheçam sua real procedência.

Um Fusca laranja 1973 é outra vítima e até hoje não sai da cabeça de Marcos Siqueira. O assalto foi à mão armada em um estacionamento na Rua da Consolação, região central, em dezembro do ano passado. Desde então não houve mais sinais do "besouro".

Dez dias após ser certificado pela Federação Brasileira de Veículos Antigos, o Fusca nem teve tempo ganhar as placas pretas, que estavam encomendadas.

Além da tristeza pelo roubo, Siqueira ainda se viu às voltas com problemas com a seguradora do estacionamento, que ofereceu R$ 7.500 de indenização, valor abaixo do mercado para um VW no estado do seu, que é de cerca de R$ 20 mil. "Não tenho mais esperança de achar meu Fusca. A polícia tem muitos carros roubados para procurar..."

Há até casos de veículos vindos do exterior que desapareceram no Brasil. O uruguaio Leonardo Sarobá foi à Argentina pegar, com um tio, um Fiat 600 feito em 1970.

Ele veio rodando, feliz, até chegar a São Caetano do Sul (SP), onde mora. Duas semanas depois, deixou a namorada em casa, subiu para se despedir e, quando desceu, o 600 havia sumido. "Eu amava essa carro e acho que não vou vê-lo mais."

O lindo Ford Mustang 1966 de Diego Inzaurraga também está nessa lista. Foi furtado em abril.

É difícil evitar prejuízos decorrentes desse tipo de roubo, pois são quase nulas as opções de seguro para antigos. Toda a atenção com esses carros é pouca.

Colaborou Marcelo Godoy

Entre os crimes, até sequestro. Outro tipo de crime que vai além do desmanche e parece ainda mais grave é o sequestro de veículos. Rodrigo Boss, dono de um estacionamento no Rio Grande do Sul, sofre diariamente desde que seu Chevrolet Impala 1968 foi levado por uma quadrilha no dia 16 de junho.

"Tinha vários carros caros lá, muitos de luxo, mas eles nem ligaram." Os bandidos simularam interesse em uma vaga e levaram até documentos falsos. "Foram direto no meu Impala."

Os bandidos pedem R$ 30 mil para devolverem o carro e Rodrigo não sabe o que fazer. "A Justiça até hoje não liberou o rastreamento do celular deles e eu estou perdendo as esperanças de reencontrar meu xodó."

O mesmo sentimento de desesperança assombra Francisco Orosco Sanchez, dono de um Volkswagen TL 1973 furtado em São Bernardo do Campo (SP) há um ano. O carro estava com sua família desde novo e seria dado ao filho em alguns meses, quando ele completasse 18 anos. Mas os ladrões agiram mais rápido. "Meu filho já cuidava do carro, que em 1973 foi dado de presente de formatura à madrinha dele. Até hoje o carro é o ‘papel de parede’ do computador do garoto, que morre de saudade."

Depois de várias tentativas de recuperar o TL por meio de anúncios na internet, Sanchez recebeu um telefonema do Ceará. O homem do outro lado da linha pedia R$ 1.500 de resgate pelo carro. Mas era um golpe.

Algumas empresas, como a DNA Securty, oferecem sistemas de segurança para antigos. Mais de 7 mil micropontos com códigos seriados são instalados em cerca de 40 peças. O serviço permite identificar as partes se o veículo for desmanchado, mas a recuperação nem sempre é fácil.

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