Carta contra salário de consulados do Brasil é enviada a Hillary Clinton

Para constranger Dilma em ida à ONU, servidores se dizem submetidos a salários que configuram 'nível de pobreza nos EUA'

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

Aproveitando a viagem da presidente Dilma Rousseff a Nova York para a Assembleia-Geral da ONU, os funcionários locais de consulados e embaixadas do Brasil ao redor do mundo enviaram uma carta à secretária de Estado americana, Hillary Clinton, reclamando das condições de trabalho nas missões brasileiras, classificadas por eles como "desumanas".

"Há décadas não conseguimos reajuste salarial. Aos nossos salários, que já configuram nível de pobreza nos EUA, tampouco incorrem reajustes anuais", diz a carta, que teve uma cópia enviada ao Estado. O piso desses funcionários é de US$ 2.200, apenas 10% acima do valor de 1996. Se fosse levado em conta o aumento do salário mínimo no período, eles deveriam receber cerca do triplo desse valor.

Um dos principais problemas refere-se à previdência social. Por lei, os funcionários brasileiros não podem contribuir nos EUA. A saída é se aposentar pelo Brasil, com ganhos inferiores aos existentes entre os americanos. "Mesmo assim, o ministério não regulariza a sua contribuição junto à previdência brasileira. Recentemente, e somente depois de inúmeros apelos dos funcionários locais e interferências da mídia brasileira, o MRE regularizou a situação de alguns cidadãos brasileiros que há anos requeriam aposentadoria", diz o documento.

Ao todo, mais de mil funcionários de cerca de 40 consulados, embaixadas e missões diplomáticas ao redor do mundo assinaram o documento do que eles chamam de Operação Despertar, iniciada em maio, quando enviaram uma carta à presidente Dilma Rousseff. Em julho, em uma segunda etapa da iniciativa, depois de mais uma vez ficarem sem resposta, vestiram-se de preto e realizaram uma operação-tartaruga nos serviços consulares. Segundo o Estado apurou, não está descartada uma paralisação no futuro próximo.

Na avaliação deles, o problema está em Brasília, e não nos consulados e embaixadas, que nada podem fazer a não ser respeitar as determinações do governo.

Categoria à parte

Os funcionários locais não são diplomatas nem concursados, como os oficiais de chancelaria. Realizam desde serviços consulares, como emissão de visto, a trabalhos de limpeza e manutenção.

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