EFE/EPA/GIUSEPPE LAMI
EFE/EPA/GIUSEPPE LAMI

Carta de 2006 reforça acusação de encobrimento do Vaticano sobre abusos

Há duas semanas, o ex-embaixador do Vaticano nos Estados Unidos, Carlos Maria Viganò, acusou o Papa Francisco de acobertar casos de crimes sexuais na Igreja Católica; resgate de carta corrobora com denúncia

O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2018 | 11h31

Uma carta escrita por um representante do alto escalão do Vaticano, em 2006, confirma que a Santa Sé recebeu seis anos antes informações sobre o desvio de conduta do cardeal norte-americano Theodore McCarrick. O documento dá ainda mais credibilidade às explosivas acusações de acobertamento de denúncias de abuso sexual envolvendo representantes do mais alto escalão da Igreja Católica. McCarrick, membro do Colégio de Cardeais, renunciou em julho após uma série de acusações.

Na sexta-feira, a agência de notícias da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos publicou uma carta do então arcebispo Leonardo Sandri endereçada ao reverendo Boniface Ramsay, padre de Nova York que fez as acusações iniciais.

Em novembro de 2000, Ramsay escreveu ao Vaticano relatando denúncias sobre a má conduta sexual do então cardeal Theodore McCarrick contra seminaristas do Seminário Imaculada Conceição da Universidade Seton Hall. Ramsay, que em 2000 estava na faculdade do seminário, disse que havia enviado a carta a pedido do então embaixador do Vaticano para relatar que havia ouvido muitas reclamações dos seminaristas afirmando que McCarrick os teria convidado para sua casa de praia e para sua cama.

Sandri, que na ocasião era o número três no secretariado do Vaticano, havia escrito para Ramsay em 11 de outubro de 2006 em busca de recomendações para um cargo no Vaticano. Nessa troca de correspondências, ele se referiu à carta de Ramsay enviada em 2000, dizendo: "Com particular referência aos sérios assuntos envolvendo alguns dos estudantes do Seminário Imaculada Conceição, que em novembro de 2000 você foi bom o suficiente para trazer confidencialmente a atenção do núncio papal nos Estados Unidos, o falecido arcebispo Gabriel Montalvo".

O arcebispo Carlo Maria Viganò, que está no centro da crise enfrentada pelo Papa Francisco, citou a carta de Ramsay em sua própria exposição, há quase duas semanas, do acobertamento sobre o caso McCarrick. Ele incluiu Sandri em uma longa lista de membros do Vaticano que sabiam sobre o comportamento de McCarrick. Viganò também acusou o Papa Francisco de saber já em 2013 da má conduta de McCarrick e de tê-lo reabilitado das sanções impostas pelo Papa Bento XVI.

A carta de Sandri é significativa por confirmar a história de Ramsay e as acusações de Viganò. O relato mostra que o Vaticano sabia sobre as acusações contra McCarrick em 2000, um ano antes do Papa João Paulo II nomeá-lo cardeal. E, além disso, envolve o Papa Bento XVI, por não ter atuado para impedir McCarrick.

Viganò diz que Bento XVI eventualmente impôs algumas sanções contra McCarrick em 2009 e 2010, quase uma década depois da carta de Ramsay. Mas o fato de Sandri tê-la citado sugere que a carta não foi perdida em uma pilha de correspondência em algum lugar e que foi relevante mesmo para uma simples solicitação de referência para um cargo. / AP

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