Carteira intacta, sem os cartões

Viúva de empresário recebeu pertences do marido pelo correio

Christiane Samarco, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2005 | 00h00

Rolf Guthjar, morto aos 50 anos no acidente da Gol, foi o segundo passageiro do vôo 1907 localizado pelos militares do Para-Sar e identificado logo em seguida, apesar de ter o rosto e o crânio esfacelados pela asa do próprio avião. No bolso de sua camisa, os soldados encontraram um telefone celular feminino. Bastou contatar a operadora para descobrir que a dona do aparelho era Rosane Guthjar, mulher de Rolf.Como de costume, o empresário viajava levando consigo uma maleta preta da marca Samsonite, devidamente trancada à chave porque continha seus pertences mais valiosos, de documentos pessoais e da empresa a dinheiro em espécie. Naquele 29 de setembro, a última chamada registrada no celular foi para comunicar à mulher que estava levando o pró-labore dela, tal como havia prometido. Exatos R$ 5 mil.A maior surpresa de Rosane Guthjar foi receber um molho de chaves e o passaporte do marido pelo correio, na residência do casal, em Curitiba. ''''Tanto o passaporte quanto as chaves estavam dentro da maleta. Disso não tenho dúvida'''', afirmou ela, para fazer, em tom de revolta, uma dedução óbvia: ''''Se o passaporte é de papel e estava em perfeito estado, como se tivesse saído da gaveta, só posso concluir que a maleta foi aberta na marra, depois da queda do avião.''''Afinal, acrescentou, se a tranca tivesse se rompido no ar, o passaporte estaria perdido ou, no mínimo, danificado pela umidade da selva. ''''Meu celular estava sujo e com mau cheiro'''', compara.SEM UM ARRANHÃOA carteira de dinheiro e documentos Rolf guardava ora no bolso da calça, ora na maleta. Qualquer que fosse o local escolhido por ele em sua última viagem, o fato é que a carteira também chegou à viúva sem estar amassada. ''''Sem um único arranhão.'''' O que a impressiona ainda mais é que a carteira chegou à sua casa pelo correio, guardando uma cartela de comprimidos de uso contínuo que o marido tomava para controlar o coração, igualmente intacta. Mas nela não estava nenhum documento pessoal do empresário, tampouco seus cartões de crédito.''''Nem falo da pulseira de ouro com brilhantes que não tirava do pulso, do relógio Bulova ou das canetas Mont Blanc, que ele carregava onde quer que fosse. Mas onde estão os cartões de crédito, a carteira de identidade e as fotografias que ele guardava na carteira?'''', pergunta Rosane. ''''Esses objetos tinham valor afetivo para mim.''''Revoltada com a pilhagem às vítimas, ela afirma que há queixas generalizadas contra a Aeronáutica, depois das sucessivas reclamações e cobranças levadas ao brigadeiro Jorge Kersul, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). ''''Muitos familiares têm relatos sobre objetos pessoais de nossos afetos que estão nas mãos de terceiros. A Aeronáutica garantiu às famílias que cuidaria dos pertences e terá de responder por isso.''''

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