Casa do Zezinho chega ao Complexo do Alemão

Entidade vai recriar em morro carioca o ambiente do projeto que apoia crianças do Capão Redondo; ?as dificuldades são as mesmas?, diz educadora

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

28 de janeiro de 2009 | 00h00

Sílvia tem 12 anos. O pai é catador de papel e a mãe trabalha como auxiliar de limpeza. A renda familiar às vezes alcança um salário mínimo. Sílvia tem sete irmãos menores, é a responsável por cozinhar, lavar, passar e dar banho nas crianças. Sem amigos e sem ir à escola, ainda enfrenta o alcoolismo do pai e a violência nos arredores do seu barraco no Capão Redondo, extremo sul de São Paulo. Há dois anos, porém, Sílvia frequenta a Casa do Zezinho, entidade que oferece cursos e atividades para crianças e adolescentes no bairro. Ela continua cuidando dos irmãos e fora da escola. Mas agora tem um punhado de uma coisa chamada esperança. É esse sentimento que os idealizadores da entidade querem levar a outra comunidade abandonada, o Complexo do Alemão, no Rio.A partir do dia 9, a entidade começa a implementar um projeto pioneiro na escola estadual do Morro da Grota, uma das doze favelas do complexo. O convite partiu da Secretaria Estadual da Educação do Rio e poderá ser estendido a outras escolas em áreas de risco. A intenção é reproduzir o ambiente da Casa do Zezinho, com suas salas coloridas, onde há aulas de informática, arte, música, inglês, capoeira, dança, teatro, reciclagem de papel e capacitação profissional. "Em São Paulo ou no Rio, os jovens são os mesmos. As dificuldades são as mesmas", diz a educadora Dagmar Garroux, a Tia Dag, criadora da entidade e responsável pelo projeto no Alemão. "Não queremos levar assistencialismo, mas desenvolvimento humano."Nos fins de semana, como no Capão Redondo, a escola da Grota poderá ficar aberta à comunidade, com shows, peças, cinema no telão e outras atividades. "Vamos fazer capacitação de 40 professores de lá", diz Tia Dag, empolgada com a ideia de criar filiais da Casa do Zezinho pelo País. "Nessa escola eles têm turmas das 7 às 11 horas, depois das 11 às 15, das 15 às 19 e das 19 às 23 horas. Como você acha que dá para envolver as crianças? Estamos no século 21 com escolas do século 19."A história da Casa do Zezinho se confunde com a da própria Tia Dag. Há 15 anos, ela encontrou com o marido um lugar "perfeito" para morar, não tão longe do centro e com aspecto de campo. A região logo foi tomada por famílias pobres que não encontravam espaço na cidade e, aos poucos, começou a ter os contornos do Capão Redondo como é conhecido hoje. Mas Dagmar ficou e transformou sua casa em um lar para tantas outras famílias. Com 3 mil m², o local atende hoje 1,2 mil crianças e jovens entre 6 e 21 anos. Outros 2 mil esperam por uma vaga. "É gratificante acompanhar os primeiros progressos da família, em busca de uma vida melhor ou, pelo menos, mais digna."

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