Caso Battisti leva escritor a boicotar Flip

Apontado como principal nome de nova literatura italiana, Tabucchi alega decisão do STF de não extraditar ativista para cancelar vinda ao País

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2011 | 00h00

O escritor italiano Antonio Tabucchi anunciou ontem sua desistência de vir ao Brasil, onde participaria, na próxima semana, da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. No ano passado, ele também cancelou a vinda, mas por conta de problemas lombares. Agora o motivo é político: Tabucchi alegou, como razão da desistência, a decisão da Justiça brasileira de não extraditar o ex-ativista Cesare Battisti, acusado de participar de quatro assassinatos durante a luta armada que marcou a Itália nos anos de 1970.

Apontado pela crítica europeia como o principal representante de uma nova literatura italiana, Antonio Tabucchi, de 67 anos, já vinha criticando tanto a posição brasileira como a da França, que abrigou Battisti baseada na Doutrina Mitterrand, que concede o direito de asilo.

Em janeiro, por exemplo, o Le Monde divulgou um texto intitulado Cesare Battisti, um Culpado, em que Tabucchi acusava o caso do ex-ativista de "perturbar as leis vigentes do Ocidente".

Segundo ele, a decisão da França de transformar "ataques armados em "expropriação proletária"" e de considerar Battisti "um refugiado político" e não autor de quatro crimes justifica a repetida censura sofrida pelo governo francês do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. No fim do artigo, Tabucchi afirma considerar ofensivo que pessoas, sem terem experimentado o que se passou com os italianos, decidam colocar um véu sobre o caso.

Depois de ficar preso por mais de quatro anos no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, por falsificação de documentos, Battisti foi posto em liberdade este mês depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu manter determinação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que negava pedido de extradição feito pelo governo italiano.

Para a mesa da qual participaria Tabucchi, a organização da Flip convidou Contardo Calligaris - a mediação continua com Ignácio de Loyola Brandão, colunista do Estado. Os ingressos continuam válidos, mas quem preferir restituição poderá fazê-lo na bilheteria do evento em Paraty. Mais informações pelo e-mail flip@ticketsforfun.com.br.

PARA LEMBRAR

Até vôlei foi alvo de protestos

A libertação de Cesare Battisti já havia provocado protestos também na seara esportiva. Durante o Campeonato Mundial de Vôlei de Praia em Roma, há duas semanas, torcedores atiraram laranjas em direção à quadra no intervalo de um jogo da dupla brasileira Emanuel e Alison. "Ao menos foi um manifesto sem violência. Nunca vi isso nas quadras", disse Emanuel. "Não miraram na gente, porque, pela distância, se quisessem, teriam nos acertado. A intenção era chamar a atenção", afirmou Alison.

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