Caso faz ex-reféns reviverem drama

Três mulheres mantidas em cárcere privado, como Eloá, reagiram de formas diferentes ao episódio

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

19 Outubro 2008 | 01h00

Ao longo da semana, o Brasil acompanhou de perto o caso da adolescente Eloá, de 15 anos, mantida refém pelo ex-namorado Lindembergue Alves, de 22, em seu próprio apartamento, num predinho da CDHU, em Santo André. Mostrado passo-a-passo em jornais e programas de TV, ao menos três pessoas acompanharam o drama de forma diferente, como se fosse delas próprias - na verdade, de certa forma, realmente eram. A frentista de um posto de gasolina em Osasco, a atendente de um supermercado em Campinas, uma auxiliar de cozinha de Cidade Tiradentes, zona leste da capital: todas também mantidas em cárcere privado por mais de 30 horas, relembraram durante a semana seus momentos de angústia. Mais de um ano após o desfecho dos casos, cada vítima reage à sua maneira. Carla Joelma, frentista presa por 37 horas em sua própria casa pelo ex-marido presidiário, não voltou mais à rua onde morava. Mara Sílvia, atendente encarcerada em casa com os filhos por 56 horas, sob a mira do revólver de um ladrão desconhecido, se julgou vítima corriqueira de violência urbana e continua vivendo no mesmo local. E a auxiliar de cozinha Gilvanete, vítima de trágico seqüestro que terminou com o suicídio do seqüestrador - seu marido - e com o assassinato da outra refém - a amante dele -, sobreviveu sozinha, para tentar esquecer a história. Gilvanete da Silva Lima, de 38 anos, mantida presa pelo marido Gilberto Gomes de Lima junto com sua amante, Andréia Pereira dos Santos, na loja de móveis da família, entre 28 e 29 de outubro de 2006, até hoje não fala no assunto. Nunca concedeu entrevistas. Mesmo os familiares, à simples menção do caso, tremem as mãos, enchem os olhos de lágrima. Rilma, irmã mais próxima de Gilberto, adquiriu trauma típico dos que vivem tragédias que envolvam polícia e cobertura da mídia - ao primeiro som de helicópteros ou sirenes policiais, corre para dentro de casa. Entre os 10 irmãos de Gilberto e os dois filhos do casal, ninguém superou totalmente. A própria Rua Arroio Pirajuí, de sobrados humildes no bairro Inácio Monteiro, em Cidade Tiradentes, ainda não superou. "Ninguém esquece cem policiais na rua", diz Francisca Cazé, moradora do local há 22 anos. "Evitamos o assunto mas, com as comparações, volta tudo", conta a dona de casa Marlene Gomes, irmã de Gilberto. E Gilvanete, que nunca tivera problemas emocionais, passou a tomar antidepressivos. "Ela é tratada como uma filha pela família", diz Marlene. "Mas aparece cada vez menos." FAMÍLIA Às 3h55 de uma quarta-feira, 4 de janeiro de 2007, a frentista Carla Joelma Alencar Viana, de 35 anos, deu o maior salto de sua vida. Com a ajuda da polícia, pulou a janela do sobrado em que era mantida refém pelo ex-marido, o presidiário Edson Felix dos Santos, e correu para a ambulância dos bombeiros - não sem antes abraçar a filha, Karen, de 16 anos. A menina, aliás, permaneceu na frente da casa durante as 37 horas em que a mãe esteve presa. "Do início ao fim, a família foi fundamental", afirma Carla, moradora do bairro Quitaúna, em Osasco, a cinco quadras do local onde foi mantida refém. À fatídica casa, porém, não voltou mais. Na memória, fatos impossíveis de apagar - como o momento em que puxou a descarga do banheiro antes de fugir, para ter certeza de que o ex-marido dormia. Com a tensão vivida no cárcere, a frentista, que já tinha problemas psicológicos, teve uma recaída. "Estava melhor e depois voltei ao que era." Hoje, ela toma cinco tipos de antidepressivos e vai a consultas bimestrais com um psiquiatra. "Mas estou melhorando. Graças à Karen e ao Cléber (seu outro filho), que me dão força", afirma Carla, aposentada por invalidez ainda antes do seqüestro. Sobre o caso, restaram dúvidas que Carla faz questão de esclarecer. Após sua fuga, policiais afirmaram que a mulher ficou ao lado do ex-marido espontaneamente e que havia mantido relações sexuais com ele durante o cárcere. Ela nega. Chegou a entrar na Justiça contra o SBT e o apresentador Carlos Massa, o Ratinho - durante um programa, ele se referiu ao relacionamento do casal como "amor bandido" e disse que eles davam "um tapa na barata" enquanto todos se preocupavam. E foi no mês passado, quase dois anos após o ocorrido, que Carla vislumbrou a primeira "recompensa" - foi quando a juíza Ana Bonchristiano, da 6ª Vara Cível do Fórum de Osasco, condenou o SBT a pagar à ex-frentista uma indenização no valor de R$ 41.500 por danos morais. "É o primeiro passo para que tudo volte aos eixos." O SBT, porém, diz que vai recorrer da decisão judicial. VIDA NORMAL Ao assistir ao noticiário, fica impossível para a atendente Mara Sílvia de Souza, de 30 anos, não lembrar a sensação de ficar refém por 56 horas - até então, o maior caso de cárcere privado registrado do Estado. "Aqui foi o acaso, não era algo premeditado", disse. "Mas difícil não lembrar." Mara e os filhos Vitor, Thiago e Murilo, hoje com 11, 8 e 6 anos, ficaram sob a mira do revólver de Gleison Salles, em abril de 2007, após um assalto no Jardim Novo Campos Elísios, na periferia de Campinas. Era 12h30 e ela almoçava com os filhos, quando ouviram troca de tiros entre Salles e um policial. Quando viu, o homem já tinha a arma apontada para Thiago e Murilo. Vitor havia corrido para debaixo da cama. Murilo, o mais novo, foi liberado no fim da tarde do primeiro dia, em troca de um colete à prova de balas. A angústia, porém, durou ao menos mais 50 horas. Na quinta-feira da semana passada, quase um ano e meio após o ocorrido, com a mesma calma que demonstrou nas horas de seqüestro, Mara disse que a vida voltou ao normal. "Três dias depois de libertados voltei a trabalhar, meu marido também, e as crianças voltaram à escola", disse. "Os meninos se recuperaram rápido, são espelho dos pais. Mostrei calma o tempo todo."

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