WILTON JUNIOR / ESTADÃO
Flordelis teve de ser amparada durante o sepultamento do pastor Anderson do Carmo, em São Gonçalo WILTON JUNIOR / ESTADÃO

Caso Flordelis: a compra da arma e a execução do pastor Anderson

Filho biológico de Flordelis, Flávio dos Santos Rodrigues é acusado de ter atirado contra o padrasto; irmão adotivo Lucas Cezar dos Santos de Souza intermediou a compra da pistola usada no crime

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 14h00

No dia 13 de junho de 2019, 0 motorista de aplicativo D. P. S., de 38 anos, decidiu dar uma pausa nas corridas e dirigiu o seu Ford Fiesta até a boca de fumo da Cocada, uma das favelas de Niterói. Viciado há uma década, precisava comprar cocaína.

Como sempre pegava a droga no mesmo lugar, o motorista logo reconheceu que o vendedor da vez era o Pirulito - um jovem negro e de cabelo raspado à máquina. Mas só ficaria sabendo depois que o traficante, na verdade, se chamava Lucas Cezar dos Santos de Souza, tinha 19 anos e fazia parte da última leva de jovens adotados pela deputada Flordelis e pelo pastor Anderson do Carmo, que seria executado a tiros naquela semana.

Em depoimentos, D. P. S. narra que Lucas aproveitou a ocasião para perguntar se ele não conseguiria uma arma de fogo para vender - de preferência uma .40 ou 9 mm, calibres normalmente usados por forças policiais. “Um amigo ‘Playboy’ que tá querendo. Só não comenta com ninguém na Cocada”, teria dito o jovem, que iria ganhar um dinheiro caso a transação fosse bem sucedida.

O motorista de aplicativo estranhou o fato de o pedido especificar até o calibre da arma, mas achou melhor não comentar. Morador da favela do Arrastão, em São Gonçalo, procurou na mesma noite um traficante do bairro - às vezes, chamado pelo codinome Colômbia; às vezes, por Bolívia - que, por sua vez, indicou o contato de outro criminoso, da favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio.

Pelo Whatsapp, o contato teria enviado a foto de uma pistola preta, da marca Bersa, 9 mm, que sairia por R$ 8,5 mil, mais R$ 500 pelas munições. Ao receber o retorno, o filho adotivo de Flordelis ficou de consultar o “Playboy”.

Suspeito de envolvimento com crime, Lucas era 'solução' para matar o pastor

Lucas perdera o pai para o tráfico e a mãe para o câncer. Criado em áreas dominadas pelo Comando Vermelho (CV), a maior facção criminosa do Rio, ele viveu até o início da adolescência com quatro irmãos biológicos no barraco de uma tia em Itaboraí, onde “ficavam largados” e “tinham uma vida muito pobre”.

Certo dia, há mais ou menos sete anos, o casal de pastores apareceu por lá, disse querer adotá-los e, para surpresa dos órfãos, na mesma hora os levou para Niterói. Embora até tenha cuidado da sonoplastia dos cultos por um tempo, o jovem nunca se adaptou à nova família.

Em casa, passou a protagonizar conflitos: abandonou a escola, saía escondido e foi acusado de furtar relógios de marca de irmãos adotivos. Segundo testemunhas, também se sentia discriminado e chegou a ser expulso por Anderson após uma das suas “fugas” para frequentar baile funk.

Em redes sociais, começaram a aparecer fotos do jovem portando pistolas ou fuzil. Pela família, também corria a notícia de que Lucas se envolvera em uma troca de tiros com policiais e, apesar de não ter sido baleado, acabou machucando a perna. Pouco antes de completar 18 anos, foi detido por suspeita de tráfico de droga, faltou à audiência na Justiça e passou a ter um mandado de apreensão aberto contra ele.

À polícia, Flordelis contou que alugou um kitnet para o filho adotivo, próximo à casa da família. De acordo com ela, Lucas seria uma “pessoa carinhosa, mas que o exemplo do pai biológico ainda o influenciava”.

Até então visto como um problema pelo histórico de criminalidade e suspeita de integrar o CV, Lucas passou a ser considerado uma “solução” para a célula que queria ver o pastor Anderson morto, aponta a investigação. Entre os denunciados pelo Ministério Público do Rio, ele é o único que não fazia parte da chamada “primeira geração” da família.

Em janeiro de 2019, Lucas teria recebido uma mensagem da irmã adotiva Marzy Teixeira da Sylva, de 36 anos, que é atribuída pela polícia a Flordelis, pedindo para simular um assalto contra Anderson. Pelo serviço, receberia R$ 5 mil e relógios do pastor, cuja coleção somava mais de 15 unidades de marcas sofisticadas.

No seu primeiro interrogatório, realizado menos de 10 horas após o assassinato, Lucas negou participação. No dia, afirmou que desconhecia “qualquer ameaça” contra o pai adotivo.

Com o transcorrer da investigação, a polícia concluiu que ele não estava na casa de Flordelis na hora do homicídio e, portanto, não poderia ter apertado o gatilho - como parte da família insinuou na delegacia. Contudo, também iria responder pelo crime. Para a investigação, ele foi o responsável por conseguir a arma usada na ação.

Acusado de executar pastor, enteado já tinha problema com a Justiça

O motorista de aplicativo é a principal testemunha para esclarecer como a pistola Bersa, modelo TPR9, foi parar com familiares de Flordelis. Segundo D. P. S. relata, horas após ter mostrado a imagem da arma para Lucas, recebeu uma mensagem de outro homem no Whatsapp.

O interlocutor dizia ser o “amigo” de Lucas e já teria conseguido fechar o negócio com o traficante do Complexo da Maré. Será que o motorista de aplicativo não poderia combinar algum ponto de encontro na região e, de lá, guiá-lo até uma praça na Nova Holanda, para pegar a arma encomendada?

D. P. S. fez os cálculos. A corrida custaria R$ 70 pelo aplicativo, mas só aceitaria R$ 100 - afinal, não se tratava de um “serviço convencional” e tinha de cobrir a tarifa do pedágio. “Dinheiro não é problema”, teria aceitado o interlocutor.

Pela foto do Whatsapp, a testemunha reconheceria, depois, que “Playboy” era Flávio dos Santos Rodrigues, de 39 anos. Filho biológico de Flordelis, a relação dele com Anderson nunca foi das melhores, descrevem familiares. Ainda na juventude saiu para morar com a avó materna, após o casal de pastores começar a receber muitas crianças.

Para testemunhas, Flávio tem perfil “reservado”, mas de “temperamento forte”. Relatos de supostos conflitos de convivência incluem um episódio em que, durante uma desavença, ele teria desferido uma tesourada nas costas de um irmão.

Após terminar um casamento, foi acusado de violência doméstica e ficou um tempo em Brasília, antes de voltar para a casa da mãe biológica meses antes do homicídio. Quando estava na capital federal, segundo um dos depoimentos, teria comentado que “Anderson roubava muito dinheiro de Flordelis e por isso ele acabaria com o sofrimento dela”.

O motorista de aplicativo conta que ele próprio foi dirigindo na frente, no Ford Fiesta, até o local combinado com o traficante. Na sua cola, Flávio conduzia um Fiat Uno. Passava das 19 horas do dia 15 de junho, quando o criminoso chegou em uma moto Honda PCX, de cor branca, segurando dois pacotes, ambos enrolados em papel filme.

Flávio teria feito o pagamento em espécie. Por não ter emprego formal, arcar com pensão de filho e declarar renda mensal de cerca de R$ 2 mil, os investigadores creditam o financiamento a Flordelis. Rapidamente, o traficante contou as notas, entregou os embrulhos e, com um aperto de mãos, selou a venda da pistola que seria usada menos de 48 horas depois para assassinar o pastor Anderson do Carmo.

Como tinham mandados judiciais em aberto por outros supostos crimes, Lucas e Flávio foram detidos ainda em junho de 2019, no dia seguinte à execução. O mais novo respondia por tráfico. O mais velho, pela Lei Maria da Penha.

Agora, também acumulam ordens de prisão por envolvimento na morte do pastor e estão em cadeias diferentes. Flávio teria confessado que atirou contra Anderson, mas depois a defesa contestou a legalidade do depoimento e acusou a polícia de tê-lo coagido. No fim do ano passado, a Justiça do Rio chegou a determinar que ele fosse levado à unidade de segurança máxima por suspeita de pressionar o irmão adotivo a mudar o depoimento e de usar celular no presídio para falar com Flordelis.

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Caso Flordelis: os bastidores de um crime que chocou o Brasil

Reportagem especial destrincha assassinato do pastor Anderson do Carmo; Flordelis foi acusada pelo Ministério Público de ser a mandante do crime que já soma dez presos, incluindo oito pessoas da família

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 14h00

Uma rajada de tiros no meio da madrugada acordou boa parte da casa da missionária, cantora gospel e deputada federal Flordelis dos Santos, de 59 anos, na Rua Cruzeiro, onde normalmente dormiam mais de 30 pessoas. Habituados a descansar sob o som de confrontos nas redondezas de Pendotiba, bairro de Niterói, outros moradores só foram despertar mesmo com a gritaria e o corre-corre que tomaram conta do local na sequência.

Estirado no chão da garagem e ferido à bala, estava o pastor Anderson do Carmo de Souza, de 42 anos, marido, administrador da casa e principal mentor das carreiras artística e política de Flordelis. De barriga para cima e com o braço direito sobre a cabeça, o corpo vestia cueca e mais nada. Eram 3h30 do dia 16 de junho de 2019.

O casal que ganhou notoriedade por ter criado 55 filhos, a maioria adotivos, havia chegado há poucos minutos de uma noite de diversão. Flordelis subira direto para o quarto, onde ficou conversando com um neto, enquanto Anderson ficou de trocar os carros na garagem. Só teve tempo de tirar a roupa no closet quando foi surpreendido pelo atirador.

Estranhamente, o casal de golden retriever, Lelis e Niel, não latiu naquela noite. Batizados com os apelidos de Flordelis e Anderson, os animais costumavam fazer barulho ao avistar pessoas desconhecidas. Na casa, ninguém diz ter visto qualquer movimentação estranha no terreno, embora tenham encontrado o portão dos fundos aberto.

Um dos moradores tentou chamar a ambulância mas, com a voz chorosa e nervoso, não conseguia passar informações sobre o estado clínico de Anderson. Filho biológico da missionária e enteado da vítima, Flávio dos Santos Rodrigues, de 39 anos, foi quem assumiu a ligação.

Do outro lado da linha, o médico regulador do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) fazia plantão extra naquele sábado para domingo. À polícia, ele relatou que Flávio estaria “muito calmo”, mas se recusou a verificar se Anderson ainda estava respirando: “Ele falou que não faria nenhum procedimento porque a vítima já estava em óbito”. 

A ambulância foi acionada com a classificação “despurg avançado”, que significa prioridade máxima. Em meio àquela situação, outros filhos adotivos não quiseram esperar o resgate. Flávio ajudou a pôr Anderson em um carro e um grupo seguiu para o Hospital Niterói D’Or, a dez minutos de distância. Ainda assim não deu tempo.

Uma das primeiras crianças pegas pelo casal e hoje também pastor, Luan Santos, de 43 anos, recebeu autorização e foi levado por uma enfermeira até a sala da unidade onde estava o corpo do pai. Viu que havia marcas no tórax, braço, perna, mas decidiu parar de contar quando chegou a 14 perfurações. Menos da metade das 30 lesões constatadas depois pelo laudo necroscópico.

A perícia aponta que, na têmpora e nas costas, Anderson apresentava zonas de tatuagem - feridas características de tiro à queima-roupa. Também foram desferidos disparos na região da genitália, um dos motivos que leva o Ministério Público do Rio (MPE-RJ) a concluir que, além de não possibilitada defesa, o assassino se valeu de meio cruel para executar a vítima.

Ao voltar para a casa dos pais adotivos, Luan comentou sobre a grande quantidade de tiros com os presentes. Entretanto, Flávio teria interrompido: “Impossível ser 14. Foram sete”.

Nem o argumento de que ele mesmo vira o corpo e que, curiosamente, as feridas eram afiladas - pareciam até feitas por golpes de faca - demoveu o irmão adotivo, conta Luan. “É assim mesmo, porque é 9 milímetros. A bala é fina mesmo, mas é potente. Ela entra e sai.”

Mais tarde, uma pistola do mesmo calibre mencionado, modelo TPR9 da marca Bersa, com a numeração raspada no ferrolho e na face direita da armação, seria encontrada pela polícia no armário de Flávio. Junto com a arma, havia um acessório de mira óptica.

Na casa, os investigadores também se depararam com objetos queimados no quintal e cobertores com mancha de sangue. Os celulares da vítima e de Flávio, no entanto, nunca foram encontrados. Acusado de ser o executor do assassinato, ele seria preso durante o velório do padrasto, no dia seguinte, e hoje é réu no processo por homicídio qualificado.

Polícia Civil e promotoria acreditam, ainda, que ao menos outros oito integrantes da família tiveram participação na morte do pastor Anderson, seja ajudando a orquestrar o plano ou a dificultar as investigações. Entre os acusados, só a pessoa apontada como a mandante da ação segue em liberdade: a própria Flordelis, beneficiada pela imunidade parlamentar. Ela alega inocência.

O Estadão teve acesso a relatório final da Polícia Civil, duas denúncias oferecidas pela promotoria, além de depoimentos juntados aos autos do processo e conta nesta reportagem especial o passo a passo da investigação e detalhes do crime.

A história narrada nos documentos contraria o histórico de boa pastora da deputada federal e sugere uma trama nada cristã, que envolve disputa por dinheiro, interesses políticos e até suspeitas de abuso sexual.

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Caso Flordelis: as polêmicas por trás da história da 'família modelo'

Evangélicos, Flordelis e Anderson se conheceram na igreja. Juntos, criavam 55 filhos entre biológicos e adotivos e construíram uma imagem de bondade. Mas dados da investigação mostram os conflitos e disputas de poder na família

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 14h00

Com oratória de causar inveja e o cabelo sempre penteado para trás, o pastor Anderson do Carmo conduzia seus cultos com bom humor. Durante a pregação, alternava leituras de versículos bíblicos com episódios da própria biografia. Para tentar prender a atenção dos fiéis, forçava uma voz gutural sempre que a narrativa sofria reviravoltas ou atingia o clímax.

Uma das passagens mais exploradas era sua história de amor com Flordelis, que ficou conhecida por acolher crianças em situação de vulnerabilidade e terminou eleita deputada federal em 2018. Segundo conta, os dois se conheceram em uma igreja na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio, em 1991, época em que ela já havia começado a recolher jovens abandonados.  

“Quando eu vi a Flor cantar pela primeira vez, fiquei tão emocionado que falei: ‘Vai ser aqui que eu vou membrar, Jesus’”, conta o pastor, em culto disponível no Youtube, para uma plateia lotada. “Comecei a me envolver com o trabalho de evangelismo para me aproximar dela, até que um dia fiz uma proposta: ‘Flor, desculpa, mas tem algo faltando no seu ministério. Está faltando um varão de Deus’. Ela olhou para mim e abriu um sorriso.”

No início do relacionamento, Anderson era um adolescente de 15 anos e começava a liderar um grupo de jovens da Assembleia de Deus. Por sua vez, Flordelis cantava e tocava guitarra nos cultos e declarava já ter feito pregação até na porta de baile funk. Na igreja mesmo, não pastoreava. A denominação não aceitava mulheres à frente dos cultos.

Recém-separada do primeiro marido, ela também tinha o dobro da idade do novo varão: 31 anos. Na época, a missionária já cuidava de ao menos cinco crianças recolhidas, além dos seus três filhos biológicos - são dois rapazes, Flávio e Adriano dos Santos Rodrigues, e uma moça, Simone, considerada seu xodó e braço direito.

Nessa época, o pai e mãe de Anderson eram vivos, mesmo assim ele preferiu ir morar com Flordelis. Em uma casa de dois quartos, sala e cozinha no Jacarezinho, espremiam-se bebê, crianças e adolescentes que ela alega ter resgatado do tráfico ou das calçadas do Rio. Pobre e numerosa, a família dependia de doações para sobreviver.

Anderson e Flordelis se casaram em 1998. Entre filhos biológicos da missionária, adotados e socioafetivos (aqueles que nunca tiveram a situação regularizada na Justiça), teriam criado um total de 55 jovens, muitos deles com histórias comoventes. Na casa, haveria desde recém-nascido abandonado no lixão, a ex-integrantes de facções criminosas e sobreviventes da Chacina da Central do Brasil.

Com o tempo, Flordelis também começou a colecionar aparições em jornais e problemas com a Vara da Infância e Juventude. Para fugir da Justiça, teria pulado de casa em casa e até dormido na rua. Entre a década de 1990 e início dos anos 2000, a família viveu nos bairros Irajá, Parada de Lucas, Rio Comprido e Gamboa, no Rio, além de Colubandê e Mutondo, em São Gonçalo.

Rejeitado por “pais espíritas”, o pastor Luan dos Santos tinha 15 anos na época que foi acolhido. Segundo relata, Flordelis levava a família para “evangelizar” à noite, peregrinando pela cidade e entregando mantimentos a desabrigados. Com o passar dos anos, a evangelização foi se transformando no Ministério Flordelis, a igreja da família, hoje com sede em Mutondo.

Nos tempos de carestia, todos tinham função na casa e os irmãos adolescentes precisavam cuidar dos mais novos. Parte deles, por exemplo, dava banho nos menores. Uns eram responsáveis por recolher doações nas ruas e em feiras. Outros organizavam a comida e procuravam vaga em escolas. Também havia filhos destacados para falar sobre a mãe a quem parasse para ouvir.

Embora fosse da mesma faixa etária de alguns filhos, Anderson foi se consolidando como o administrador da casa e da igreja. Inteligente e bem articulado, ele seria “a mente por trás” da transformação de Flordelis em uma espécie de “marca”.

O ano de 2009 é decisivo para o boom financeiro do casal. Em outubro, seria lançado o filme Flordelis: Basta Uma Palavra Para Mudar, recheado de atores globais que dispensaram cachê para retratar a vida da missionária. Nele, Anderson atuou como produtor.

Foi nessa época que Flordelis fechou contrato com a gravadora MK Music, uma das maiores do universo gospel, iniciando uma rotina de convites para shows e grandes eventos. Em alta, a igreja da família começou a abrir filiais, como em Jardim Catarina, Itaboraí, Itaipuaçú, Pendotiba e Piratininga.

No início da década, o casal conseguiu comprar uma casa espaçosa em um condomínio em Pendotiba, Niterói. São três pavimentos, sala de oração, garagem, quintal e empregada doméstica de segunda à sexta-feira. Foi lá que Anderson foi executado.

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A partir do momento que a situação financeira começou a melhorar, na mesma proporção começaram as brigas entre sua mãe e seu pai adotivos. A mãe acreditava que ela era a responsável pela melhoria da condição financeira da família, porque tudo girava em torno de seu nome, e não do nome do seu pai, apesar de ele ter sido o mentor dela
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Filha adotiva, em depoimento à Polícia Civil

Investigação revela privilégios para os primeiros filhos e suspeitas de abuso sexual

Com as suspeitas do crime recaindo sobre Flordelis, a igreja acabou rebatizada de Comunidade Evangélica Cidade do Fogo. Já com a denúncia do Ministério Público, oferecida no mês passado, a missionária perdeu o contrato com a MK Music.

Uma série de episódios que não haviam sido contados no filme ou nos cultos também foi trazida à tona pela investigação policial. Ao contrário da história conhecida, Anderson começou a frequentar a casa de Flordelis na década de 1990 porque namorava com Simone, a filha biológica da missionária, relação que depois foi trocada pela mãe.

“Com o fim do namoro com Simone, Flordelis foi na casa da mãe de Anderson e pediu autorização para levá-lo para orar nos montes”, descreve o advogado Ângelo Máximo, que representa a família do pastor no processo. “Ele nunca foi adotado por ela: eram um casal.”

Mãe do pastor, Maria Edna do Carmo morreu aos 65 anos, vítima de um de enfarte provocado por pico de glicose, dez meses após o filho ser assassinado. Uma das primeiras a acusar Flordelis de mandar matar o marido, a irmã Michele do Carmo de Souza, de 39, falecera de anemia pouco antes, em outubro. “Infelizmente, partiram sem ver Justiça”, diz Máximo.

São comuns depoimentos relatando que Flordelis e Anderson agiam para distanciar filhos adotivos das famílias biológicas. Considerado uma das principais testemunhas de acusação, Luan Santos, por exemplo, afirma ter sofrido uma “lavagem cerebral”. “Ao se casar em 2008, Anderson o proibiu de convidar os pais biológicos. A mãe também não gostava da noiva. No dia do casamento, foi a última a chegar e vestia uma roupa preta”, relata no processo.

Muitos discordam também que a casa era um ambiente de solidariedade e cooperação, como dizia o casal. Segundo testemunhas, Flordelis faria distinção entre os filhos e priorizava a chamada “primeira geração” - ou seja, os biológicos e primeiros a ser adotados.

O grupo tinha direito a despensa separada do restante da casa, enquanto os demais ficavam restritos à “geladeira pública”. Também ganhava melhores presentes e até mais dinheiro, de acordo com os relatos. “Nem todos gozavam das mesmas regalias. Isso causava constrangimento aos outros irmãos”, diz uma testemunha. “Os biológicos passeavam mais e ganhavam roupas. (...) Com a declarante, não tinha um tratamento de amor de mãe e filha.”

Anderson é descrito por testemunhas como “rígido” e “ambicioso”. Responsável por administrar as finanças, também é acusado de “centralizar o dinheiro” e provocar crises na família, como da vez que ordenou que filho assalariado deveria pagar o próprio plano de saúde. De acordo com a polícia, os mais incomodados eram os membros da “primeira geração”.

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Em viagens para shows, Anderson gastava dinheiro além do necessário, comprando coisas que não precisava, enquanto Flordelis o aguardava fora da loja. Ao reclamar, ouviu do pastor: 'Luan, cuida da sua vida. O dinheiro é meu e eu gasto do jeito que eu quiser'
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Luan dos Santos, filho adotivo do casal

No inquérito, também consta declaração de um ex-integrante do Ministério Flordelis, segundo a qual pessoas da igreja realizavam “rituais tenebrosos” e havia “práticas sexuais entre seus membros”. O depoimento teria sido confirmado por um ex-pregador, que disse nunca ter presenciado estudos teológicos no local. As reuniões, afirma, só serviam para discutir negócios: “É uma seita com aparência de congregação religiosa (...) em nada tem a ver com aquilo escrito na Bíblia”.

Um dos filhos adotivos afirmou ter sido submetido a uma espécie de “iniciação”, de acordo com os investigadores. No episódio, supostamente ficara trancado por dias em um quarto, recebendo visita apenas de Flordelis para ter relações. Também há relato de que uma filha tenha sido oferecida a pastores estrangeiros - a Polícia Civil, no entanto, considera não ter provas suficientes para concluir se houve prática de abuso sexual.

Ainda assim, informações sobre possíveis intimidades do casal foram parar no relatório da investigação. No documento, o delegado incluiu o seguinte trecho: “(A testemunha) narra episódio em que sua ex-supervisora, em meados de 2007, ao aceitar o convite feito pela declarante e visitar a igreja de Flordelis, reconheceu a pastora como sendo frequentadora da mesma casa de swing que ela frequentava”. “Complementando, inclusive, que a então pastora tinha um quarto exclusivo ali.”

Existe a suspeita de que Anderson e Flordelis tenham ido a uma casa de swing em Botafogo, bairro nobre da capital, na madrugada do crime. Ao ser questionada na delegacia, a deputada  declarou ter sido levada pelo marido a um restaurante em Copacabana, mas não soube informar nome ou endereço. A versão dela, entretanto, não bateria com dados de monitoramento de tráfego colhidos pela polícia.

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Caso Flordelis: ascensão política e os planos de matar o marido

Reportagem especial destrincha assassinato do pastor Anderson do Carmo; Flordelis foi acusada pelo Ministério Público de ser a mandante do crime que já soma dez presos, incluindo oito pessoas da família

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 14h00

Uma rajada de tiros no meio da madrugada acordou boa parte da casa da missionária, cantora gospel e deputada federal Flordelis dos Santos, de 59 anos, na Rua Cruzeiro, onde normalmente dormiam mais de 30 pessoas. Habituados a descansar sob o som de confrontos nas redondezas de Pendotiba, bairro de Niterói, outros moradores só foram despertar mesmo com a gritaria e o corre-corre que tomaram conta do local na sequência.

Estirado no chão da garagem e ferido à bala, estava o pastor Anderson do Carmo de Souza, de 42 anos, marido, administrador da casa e principal mentor das carreiras artística e política de Flordelis. De barriga para cima e com o braço direito sobre a cabeça, o corpo vestia cueca e mais nada. Eram 3h30 do dia 16 de junho de 2019.

O casal que ganhou notoriedade por ter criado 55 filhos, a maioria adotivos, havia chegado há poucos minutos de uma noite de diversão. Flordelis subira direto para o quarto, onde ficou conversando com um neto, enquanto Anderson ficou de trocar os carros na garagem. Só teve tempo de tirar a roupa no closet quando foi surpreendido pelo atirador.

Estranhamente, o casal de golden retriever, Lelis e Niel, não latiu naquela noite. Batizados com os apelidos de Flordelis e Anderson, os animais costumavam fazer barulho ao avistar pessoas desconhecidas. Na casa, ninguém diz ter visto qualquer movimentação estranha no terreno, embora tenham encontrado o portão dos fundos aberto.

Um dos moradores tentou chamar a ambulância mas, com a voz chorosa e nervoso, não conseguia passar informações sobre o estado clínico de Anderson. Filho biológico da missionária e enteado da vítima, Flávio dos Santos Rodrigues, de 39 anos, foi quem assumiu a ligação.

Do outro lado da linha, o médico regulador do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) fazia plantão extra naquele sábado para domingo. À polícia, ele relatou que Flávio estaria “muito calmo”, mas se recusou a verificar se Anderson ainda estava respirando: “Ele falou que não faria nenhum procedimento porque a vítima já estava em óbito”. 

A ambulância foi acionada com a classificação “despurg avançado”, que significa prioridade máxima. Em meio àquela situação, outros filhos adotivos não quiseram esperar o resgate. Flávio ajudou a pôr Anderson em um carro e um grupo seguiu para o Hospital Niterói D’Or, a dez minutos de distância. Ainda assim não deu tempo.

Uma das primeiras crianças pegas pelo casal e hoje também pastor, Luan Santos, de 43 anos, recebeu autorização e foi levado por uma enfermeira até a sala da unidade onde estava o corpo do pai. Viu que havia marcas no tórax, braço, perna, mas decidiu parar de contar quando chegou a 14 perfurações. Menos da metade das 30 lesões constatadas depois pelo laudo necroscópico.

A perícia aponta que, na têmpora e nas costas, Anderson apresentava zonas de tatuagem - feridas características de tiro à queima-roupa. Também foram desferidos disparos na região da genitália, um dos motivos que leva o Ministério Público do Rio (MPE-RJ) a concluir que, além de não possibilitada defesa, o assassino se valeu de meio cruel para executar a vítima.

Ao voltar para a casa dos pais adotivos, Luan comentou sobre a grande quantidade de tiros com os presentes. Entretanto, Flávio teria interrompido: “Impossível ser 14. Foram sete”.

Nem o argumento de que ele mesmo vira o corpo e que, curiosamente, as feridas eram afiladas - pareciam até feitas por golpes de faca - demoveu o irmão adotivo, conta Luan. “É assim mesmo, porque é 9 milímetros. A bala é fina mesmo, mas é potente. Ela entra e sai.”

Mais tarde, uma pistola do mesmo calibre mencionado, modelo TPR9 da marca Bersa, com a numeração raspada no ferrolho e na face direita da armação, seria encontrada pela polícia no armário de Flávio. Junto com a arma, havia um acessório de mira óptica.

Na casa, os investigadores também se depararam com objetos queimados no quintal e cobertores com mancha de sangue. Os celulares da vítima e de Flávio, no entanto, nunca foram encontrados. Acusado de ser o executor do assassinato, ele seria preso durante o velório do padrasto, no dia seguinte, e hoje é réu no processo por homicídio qualificado.

Polícia Civil e promotoria acreditam, ainda, que ao menos outros oito integrantes da família tiveram participação na morte do pastor Anderson, seja ajudando a orquestrar o plano ou a dificultar as investigações. Entre os acusados, só a pessoa apontada como a mandante da ação segue em liberdade: a própria Flordelis, beneficiada pela imunidade parlamentar. Ela alega inocência.

O Estadão teve acesso a relatório final da Polícia Civil, duas denúncias oferecidas pela promotoria, além de depoimentos juntados aos autos do processo e conta nesta reportagem especial o passo a passo da investigação e detalhes do crime.

A história narrada nos documentos contraria o histórico de boa pastora da deputada federal e sugere uma trama nada cristã, que envolve disputa por dinheiro, interesses políticos e até suspeitas de abuso sexual.

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