Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Caso João de Deus: 'Não queria estragar essa fé, decidi que seria meu eterno segredo'

'Vergonha, medo, como eu iria denunciar uma pessoa que tem uma legião que o acompanha e que tem uma enorme força em todos os sentidos?', conta uma estudante de 24 anos

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2018 | 12h10

Em meio aos depoimentos de mulheres que contam ter sido abusadas pelo médium João de Deus está o da Flávia (nome fictício), de 24 anos. Ao Estado, ela afirma que deixou a violência sofrida guardada por anos por sentir culpa, medo e vergonha. A seguir, o relato:

“O abuso aconteceu quando eu tinha 20 anos. Mas, antes disso, eu já frequentava a CDI (Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia) por anos, desde meus 13. Eu tinha um carinho muito grande pelo médium João (de Deus), sempre fazia questão de cumprimentá-lo. Em uma viagem, se não me engano em janeiro de 2015, fui na sala dele após os atendimentos da manhã, provavelmente eu fui pelo fato da entidade me pedir para ir falar com ele, pois nessa época eu pedia ajuda pelo vestibular.

Nessa parte, eu não lembro muito bem o que conversamos, mas o abuso foi quando ele me levou para um corredor na sala, e me pediu para ficar de costas, nisso me falou que iria passar energia. Muito rápido ele levou a minha mão para o pênis dele e pediu para que eu mexesse o quadril. E eu fui fazendo, mas sem entender nada, apenas pensando o que está acontecendo?

Após isso, ele me levou para o banheiro, onde tem uma cadeira, e essa cena é forte na minha cabeça: eu estava praticamente masturbando ele, ele sentado e eu de joelhos, chorando, não entendendo nada. Não lembro se ele pediu para fazer sexo oral. Quando acabou o ato, essa outra cena também ficou marcada: eu lavando a mão na pia e chorando muito mesmo, e ele do lado falando que eu não precisava chorar.

Foi apenas essa vez que aconteceu, porque em nenhuma outra vez eu estava sozinha com ele ou, quando entrava, era conversa muito rápida, pois havia mais pessoas para conversar com ele. Eu decidi não contar para ninguém, pois foi tempo até relacionar isso como um abuso.

Eu guardei isso por anos. Primeiro porque você se sente culpada, se questiona porque deixou que isso acontecesse. Vergonha, medo, como eu iria denunciar uma pessoa que tem uma legião que o acompanha e que tem uma enorme força em todos os sentidos?

Minha família frequentava a CDI também, houve curas em nossa família. Eu não queria estragar essa fé deles também, sabe? Então decidi que esse seria meu eterno segredo. Eu coloquei esse abuso como uma coisa para meus subconsciente esquecer, para evitar pensamentos, traumas e paranoias.

Estou chocada pelo fato disso ter acontecido com centenas de outras mulheres. Eu voltei algumas vezes na CDI após ter acontecido o abuso, mas pelo fato de ter fé nos trabalhos das entidades, evitava ele e o meu carinho por ele deixou de existir.”

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