Funcionários de médium são suspeitos de conivência

Relatos apontam que pelo menos 4 deles teriam acobertado os abusos em Abadiânia

Lígia Formenti - Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2018 | 17h07

As mulheres ouvidas pelo Ministério Público de Goiás afirmaram que alguns funcionários do médium João de Deus eram coniventes com os abusos sexuais cometidos durante as sessões espirituais em Abadiânia (GO). Segundo as promotoras responsáveis, as vítimas apontaram quatro funcionários, cujos nomes se repetem nos depoimentos. O fato será apurado.

Uma das denunciantes ouvidas pelo Estado relatou que seus avós faziam parte da linha de frente dos trabalhos espirituais. O médium a deixava por último na fila de espera para atendimento. “A hora que eu entrava, tirava minha blusa e muitas vezes meu sutiã e pegava nos meus seios. Eu chorava, mas ele nunca teve piedade”, relatou. E disse que os abusos são conhecidos em Abadiânia. “As pessoas que trabalham há muitos anos lá sabem o que ele faz.”

A força-tarefa instituída pelo MP de Goiás recebeu desde o dia 10, quando foi criado o e-mail para recebimento de denúncias, um total de 330 mensagens e contatos. O e-mail específico para essa finalidade é o denuncias@mpgo.mp.br. Os atendimentos são de denunciantes de Goiás, Distrito Federal, Minas, São Paulo, Paraná, Rio, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Pará e também Santa Catarina.

O coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal do MP, Luciano Miranda Meireles, disse estar impressionado com o relato das vítimas, sobretudo pelas semelhanças e riquezas de detalhes, e afirmou não ter dúvida de que, uma vez formalizadas as denúncias, o caso João de Deus tem potencial para superar o do ex-médico Roger Abdelmassih, condenado por abusar de suas pacientes. 

‘Nós não vamos fechar. Aqui é uma casa religiosa’ 

A notícia da decretação da prisão preventiva de João de Deus abalou a cidade de Abadiânia, a 113 quilômetros de Brasília. Na Casa Dom Inácio de Loyola, onde João de Deus faz os atendimentos a cerca de 3 mil fiéis por semana, o maior receio era de que o local fechasse as portas.

Um dos funcionários mais próximos de João de Deus, Francisco Lobo, afirmou ter recebido ligações de fiéis com dúvidas sobre como será o funcionamento do centro. “Nós não vamos fechar. Aqui é uma casa religiosa.” 

Nesta semana, a primeira depois que vieram a público as denúncias de abuso sexual contra João de Deus, o movimento da Dom Inácio caiu de forma expressiva. Lobo atribuiu parte da redução do movimento à proximidade das festas de fim de ano. “Claro, quem nunca veio até aqui pode ter adiado. Mas quem conhece a casa não se abalou.”

O movimento das pousadas também diminuiu. Uma gerente, que não quis ter seu nome publicado, afirmou que o prejuízo nos últimos três dias foi de R$ 10 mil. O turismo religioso exerce papel importante na economia de Abadiânia, de 17 mil habitantes. A estimativa é de que a casa Dom Inácio de Loyola gere 1,3 mil empregos diretos e indiretos. 

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