Casos de dengue estão subnotificados no RJ

A epidemia de dengue no Rio de Janeiro atinge muito mais do que as 18 mil pessoas da última estatística oficial, divulgada no dia 6 pelo Estado. Cerca de 9 mil resultados de exames feitos no Laboratório Noel Nutels, onde é feito o maior número de testes para detectar a doença no País, não entram nos índices oficiais porque não são reclamados por quem os enviou. Hoje o Noel Nutels confirmou a oitava morte por dengue no território fluminense. A epidemia atinge 7.684 pessoas só na capital fluminense. O Estado divulgou que houve um crescimento de 40% no número de atendimentos na rede pública estadual durante o carnaval em relação ao mesmo período do ano passado.A Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e a prefeitura do Rio informaram que o trabalho de distribuição de biolarvicidas para combater a larva do Aedes aegypti só parou no domingo, quando os agentes tiram folga. Desde o início do ano, o Noel Nutels recebeu 31 mil amostras de sangue - só hoje foram 2.500. Nos últimos dois anos, 40 mil exames foram deixados lá e acabaram incinerados. Pela lei os hospitais que levam as amostras têm obrigação de buscar os resultados, mas muitos não o fazem. A Secretaria Estadual de Saúde estuda um meio de encaminhar os resultados aos seus locais de origem, para diminuir o índice de subnotificação. "Isso é um desperdício de dinheiro público. Vamos criar um sistema que repasse os exames para os hospitais. A subnotificação atrapalha muito as estratégias de combate à doença", disse o superintendente estadual de saúde, Oscar Berro. Para o epidemiologista Roberto Medronho, diretor do Núcleo de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), somente os médicos da rede pública notificam os casos de dengue - embora, pela Lei 6.932, de 1974, todos os profissionais da área de saúde devam informar às autoridades sobre doenças epidemiológicas. "Não há qualquer punição para quem não notifica, mesmo se tratando de um dever social. Os hospitais e médicos particulares apenas tratam os pacientes, ninguém fica sabendo", disse. Na epidemia que o Rio viveu em 1986, segundo Medronho, o número de notificações foi de 90 mil, enquanto houve mais de um milhão de infectados, conforme revelou um estudo feito anos depois pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz). "O governo só fica sabendo se o doente vai ao médico se o médico diagnostica corretamente e se, depois, faz a notificação. Daí a discrepância entre o número oficial e o real", explicou. MorteA morte da advogada Flávia Maria Salazar Guerra, de 32 anos, que teve dengue hemorrágica e sofreu um choque séptico há uma semana, elevou para oito o número de vítimas fatais no Estado e para sete na capital fluminense (a outra vítima morava na Baixada Fluminense). Moradora do Grajaú, bairro da zona norte do Rio, Flávia começou a apresentar sintomas de dengue nove dias antes de morrer. A causa mortis foi confirmada hoje pelo Noel Nutels. Revoltada, a administradora Ana Cláudia Guerra Cabral, irmã de Flávia, pensa em processar os governos municipal, estadual e federal. "Eles deveriam ter dengue para saber como é." Ana Cláudia acredita que as autoridades se limitam a informar à população sobre os métodos de evitar a proliferação do mosquito, mas não explicam se há outros meios de se prevenir da doença.

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