Casos de gravidez na infância crescem com abusos sexuais

Taxa de gestação registrada entre meninas de 10 a 14 anos aumentou 3,2% em São Paulo

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

27 de maio de 2009 | 00h00

A taxa de gravidez em meninas entre 10 e 14 anos de idade aumentou 3,2% em São Paulo, saindo de 3.278 gestações em 2006 para 3.386 em 2007, conforme os dados mais recentes da Fundação Seade. Esse crescimento ocorre em contraponto às adolescentes de 15 a 19 anos, que cada vez menos têm aparecido nas estatísticas das maternidades paulistas. Para os especialistas, a constância das gestações na infância tem relação com a violência sexual, crime também em ascensão no Estado - com avanço de 33,2% no primeiro trimestre de 2009.Todo ano, há 3,5 mil garotas que entram nas estatísticas de gestação precoce, uma média de três por dia. O índice não cede em São Paulo. Desde 1995, elas respondem por 0,6% de todos os partos feitos no Estado - porcentual inabalável na série histórica. Já as mães entre 15 e 19 anos, que há 14 anos respondiam por 18,4% das paulistas, hoje são 15,7%. Mesma tendência de queda no período foi registrada na parcela entre 20 e 24 anos (de 30,3% para 26,5%).Os dados da Secretaria de Segurança Pública endossam que os menores de idade são as vítimas preferenciais dos criminosos. Durante o ano passado, apenas nas delegacias da mulher do Estado, foram registrados 3.194 estupros e atentados violentos ao pudor. Do total, 2.413 foram contra crianças e adolescentes, o que representa 75% dos crimes. "Nós não temos tido sucesso em reduzir a gestação nas idades mais baixas e isso é um problema mundial", afirma o médico Jefferson Drezett, especialista em abuso sexual. "Ainda que tenhamos exemplos de meninas de 12 anos que engravidaram do namoradinho de 13, não dá para fechar os olhos para a parte dos casos que reflete estupros, na maioria domésticos." A relação entre crime sexual e gravidez na primeira faixa etária fértil será debatida em dois eventos nesta semana. Um deles acontece hoje e é realizado pela Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR). O outro ocorre a partir de sexta-feira, no seminário da Fundação Abrinq. "Queremos trazer o olhar da saúde, da educação e da Justiça e criar ferramentas para combater um problema que persiste há anos", afirma a gerente da Fundação Abrinq, Denise Cesário.Foi no banho que Ana (nome fictício), aos 11 anos, chamou a mãe para tentar entender o que acontecia. O leite que saía dos seios, ainda em formação, revelou a gravidez fora de hora. O padrasto da menina era o culpado. Os abusos começaram numa época em que a pouca idade prevenia a gravidez. Com quase 4 meses de gestação, ela conseguiu fazer o aborto legal (amparado pela Justiça), no Hospital Pérola Byington, unidade que oferece mais evidências sobre a ligação entre estupro e gravidez infantil."A vinculação entre abuso e gravidez fica evidente nos serviços de aborto legal. São as menores que figuram entre a maioria das pacientes", afirma Margareth Arilha, diretora executiva da CCR, que acredita ser necessária atuação mais efetiva no pré-natal das meninas para avaliar a situação em que a gestação ocorreu. No Pérola, dos 705 abortos realizados desde 1995 até 2008, 27% foram em meninas de 12 a 17 anos. A rotina do ambulatório é mais reveladora: dos 2.330 acolhimentos feitos no ano passado, 47% eram em menores de 12 anos. Um dado da entidade é que em 16% dos casos o abuso só é revelado com a gestação. "Pensar em prevenir a gravidez em meninas é primeiro pensar em prevenir o abuso sexual", orienta a psicóloga do hospital, Daniela Pedroso. "Não há como falar em camisinha quando o abusador é o pai. O assunto precisa estar na escola, em casa." FRASESJefferson DrezettMédico "Ainda que tenhamos exemplos de meninas de 12 anos que engravidaram do namoradinho de 13, não dá para fechar os olhos para casos que refletem estupro"Margareth ArilhaDiretora da CCR"A vinculação entre abuso e gravidez fica evidente nos serviços de aborto legal"

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