Cassino da Urca vai ser restaurado e virar museu

A prefeitura do Rio vai construir o Museu do Desenvolvimento Urbano nos dois prédios interligados onde funcionaram o antigo Cassino da Urca e, mais tarde, os estúdios da extinta TV Tupi. O imóvel, construído nos anos 20 para ser o Hotel Balneário, terá suas características originais restauradas e abrigará a história do desenvolvimento urbano dos bairros da cidade. "Vamos reformar os dois imóveis da Praia da Urca para reunir todo o material que existe sobre a história arquitetônica da cidade, promover palestras e cursos e ainda ter uma biblioteca à disposição do público leigo e dos especialistas", promete a diretora do Centro de Arquitetura e Urbanismo (CAU), Ana Borelli. "O prédio da década de 1920 sofreu intervenções que o desfiguraram. Vamos voltar à face inicial, adaptada ao conforto e à tecnologia de hoje." Quem passa pela Urca, uma península na entrada da Baía de Guanabara, vê o prédio decadente de arquitetura bizarra, que começa na praia, atravessa a rua e se espalha aos pés do Pão de Açúcar. No projeto, a exposição permanente ocupa o prédio da praia, com uma grande maquete da cidade sob o chão de vidro. Permuta"Ao pisar num ponto, o visitante aciona um dispositivo que lhe mostra a história do local e as transformações urbanísticas pelas quais passou", conta Ana. "Do outro lado da rua, ficarão a administração, biblioteca, o auditório e exposições temporárias. Para isso, fizemos contato com escolas e escritórios de arquitetura que nos cederão seus arquivos mediante permuta." O projeto está orçado em R$ 14 milhões, R$ 2 milhões para comprar o imóvel do Condomínio Diários Associados (proprietário do imóvel desde os anos 50, quando instalou ali a TV Tupi). O restante vai para a restauração. A verba para instalação do museu virá das leis de incentivo à cultura, a estadual ou a Rouanet, pois a lei municipal se restringe a projetos audiovisuais. Os R$ 12 milhões são uma das maiores cifras já pedidas nesse tipo de patrocínio, mas Ana está confiante. "São 5.500 mil metros quadrados e já há muitos interessados", garante. O secretário municipal de Urbanismo, Alfredo Sirkis, marido de Ana, também está animado. "Se a iniciativa privada não cobrir tudo, a prefeitura completa." Mesmo em ruínas, o prédio é um dos mais queridos do carioca. Foi construído nos anos 20 para ser o Hotel Balneário, no mesmo estilo dos Hotéis Copacabana Palace e Glória, só que mais exclusivo, com apenas 36 quartos e entrada pela areia da praia. Em 1933, foi adquirido pelo empresário Joaquim Rolla, que o transformou no Cassino da Urca. Astros e estrelasO Cassino da Urca fez história. Foi o palco onde Carmem Miranda virou estrela nacional (antes de se projetar mundialmente) e Grande Otelo tornou-se um comediante popular. As irmãs Linda e Dircinha Batista tinham entre seus fãs aristocratas e políticos. Também foi no luxuoso cassino que a cantora Emilinha Borba, ainda muito jovem, conquistou o cineasta Orson Welles, que filmava no Brasil. A futura Rainha do Rádio chegou lá levada por Carmen Miranda. "Minha mãe era camareira e pediu um emprego para mim. Eu disse à Carmem que gostava de imitá-la e, quando Joaquim Rolla me viu cantar, contratou logo", conta Emilinha. "Mas eu era menor de idade e não ficava no salão, só aparecia nos shows." No apogeu do Cassino da Urca, eram superproduções, com orquestra e dezenas de cantores e bailarinos. Ninguém virava estrela se não se apresentasse no local. O público pagava só para entrar, pois o jogo sustentava tudo. Com a proibição do jogo , em 1946, terminou a era dos grandes cassinos, como o Urca, o Quitandinha e Icaraí (já demolido). Em 1952, a TV Tupi no Rio trouxe de volta a animação, com programas de auditório que lançavam ou acabavam com carreiras. Flávio Cavalcanti, com Um Instante Maestro e A Grande Chance, J. Silvestre, com O Céu é o Limite, e os shows de variedades, como Espetáculos Tonelux, levavam multidões ao prédio, que teve sua arquitetura desfigurada para abrigar os estúdios. A TV Tupi saiu do ar em 1980. Desde então, houve tentativas de reativar o prédio por parte de algumas empresas, mas elas sempre enfrentaram resistências no bairro, principalmente, da poderosa Associação de Moradores da Urca (AMU). "Agora eles estão a favor, porque querem a revitalização do prédio, com uma freqüência tranqüila e selecionada", diz Sirkis. "Queremos unir forças com instituições do bairro, desde o Instituto Ricardo Cravo Albim, que funciona em frente, ao Roberto Carlos, que vive na Urca há muitos anos."

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