Catedral da Sé é reaberta em São Paulo após 3 anos de restauração

Fechada por quase três anos, a Catedral Metropolitana - a igreja-mãe de todas as outras de São Paulo - vai ser devolvida neste domingo à cidade, nova em folha, com uma missa festiva, às 10 horas, celebrada pelo cardeal-arcebispo d. Cláudio Hummes e aberta à população. Mas cabem apenas 1.900 pessoas e, só de convidados, entre autoridades e religiosos, são cerca de 300. Quem encontrar a igreja lotada poderá assistir à missa de um telão instalado na Praça da Sé.A Polícia Militar montou esquema especial de segurança para a Sé e imediações. Os 61 sinos holandeses, feitos de bronze, que não eram tocados há mais de quatro anos, voltarão a ser ouvidos todos os dias. Eles são acionados eletronicamente, por um teclado. O concerto deste domingo é especial e vai ser executado pelo carrilhador holandês Gerard de Waardt, um dos poucos no mundo que sabem tocar o instrumento. Ele chegou a São Paulo na quinta-feira.O governador Geraldo Alckmin, a prefeita Marta Suplicy, o senador Eduardo Suplicy, o ministro da Cultura, Francisco Weffort, e alguns patrocinadores da restauração da catedral, como os empresários Antônio Ermírio de Moraes e Moisés Safra, vão participar da celebração. Também foram convidados todos os cardeais do Brasil e os bispos de São Paulo, além dos responsáveis pelas paróquias da cidade. ChuvaA Catedral da Sé começou a ser construída em 1913 e foi inaugurada em 1954, no aniversário de 400 anos da cidade. A chuva - que penetrava pelos vãos das torres inacabadas infiltrava-se nas paredes e inundava a cripta -, a poluição e sobretudo a trepidação das obras do Metrô e do tráfego pesado da região foram implacáveis com a catedral. Em julho de 1999, bastante deteriorada e com um desgaste que ameaçava a estrutura, foi fechada. "O alto risco exigia intervenção imediata", lembra d. Cláudio.Havia muito a fazer. Trocar as telhas de barro e a madeira do teto; recuperar as 34 portas de jacarandá e os 52 vitrais que estavam sujos e quebrados; restaurar as obras de arte, muitas do século 18; reparar as estruturas elétrica e hidráulica e a cripta onde estão sepultados bispos, o cacique Tibiriçá e o padre Antônio Feijó, além de "muitos outros problemas", como diz o cardeal.O templo foi inteiramente lavado e pintado. Mas pouco tempo depois as paredes voltavam a ficar amareladas, porque as infiltrações persistiam. Para resolver isso foi preciso concluir o projeto original, que previa a construção de 14 torreões secundários. Essa obra exigiu intensa pesquisa porque o aço e o granito, usados nas torres antigas, são pesados demais e poderiam comprometer a estrutura do prédio.Carga simbólicaDepois de testar vários materiais, o arquiteto Paulo Bastos decidiu usar um revestimento de argamassa com fibra de vidro em vez do granito. "Não é todo dia nem todo ano que se é chamado para restaurar uma catedral", diz Bastos, responsável pelo projeto. "As catedrais têm uma carga simbólica e foi emocionante fazer esse trabalho, porque a gente sente em cada pedra, cada escultura, cada vitral a mão humana guiada pelo sentimento."Além disso, havia o desafio técnico. "Projetamos uma obra no século 21, que começou a ser concebida no começo do 20 com estilos dos séculos 14 e 15." A igreja, diz, é neogótica com elementos renascentistas. "Há uma antropofagia oswaldiana nessa arquitetura já que os capitéis - as cabeças das colunas - são esculpidos com elementos da flora e da fauna brasileiras." Quando vem de casa, no bairro de Pedreira, zona sul, e avista de longe as torres da Catedral da Sé, onde estava trabalhando até a semana passada, o ajudante-geral Antônio Carlos da Silva Rocha, de 20 anos, se infla de orgulho. "Eu cortei as pedras das fundações das torres, sofri bastante", afirma. Edson José da Silva, de 25, diz que cavou um buraco onde passa a fiação que liga o quadro geral de força da igreja. "Cavei o poço do elevador e trabalhei na caixa d´água subterrânea, do início ao fim." Sentado com alguns companheiros, Silva contemplava a sua obra. "Agora conheço cada pedacinho da igreja. Se me perguntam onde fica o coro, eu levo lá. Se querem saber do cemitério, eu sei onde fica."Francisco Antônio Silva, de 29, revelou que, ao chegar em São Paulo, do Piauí, foi muitas vezes lá rezar. "Nunca imaginei que um dia ia trabalhar aqui e fazer o que eu fiz", afirma Silva.A tradicional missa dos domingos à tarde vai ser realizada agora pela manhã, às 11 horas, e será celebrada por d. Cláudio Hummes sempre que ele estiver em São Paulo. O cardeal confessa ter ficado surpreso com o resultado da reforma. "Não esperava que a igreja ficasse tão bonita nem que fosse tão bonita!" Ainda faltam ser arrecadados R$ 2,8 milhões para o término da obra.

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