CDHU tenta apagar as marcas de um crime

Vizinhos retomam a rotina, mas já há quem diga que quer se mudar

William Glauber, O Estadao de S.Paulo

19 Outubro 2008 | 01h00

Moradores do Bloco 24 do Conjunto Habitacional do Jardim Santo André, em Santo André, retomaram a vida ontem por volta de 9 horas da manhã, quando, com vassouras, escovões e rodos nas mãos, lavavam o rastro de sangue deixado por Nayara e Eloá, ambas de 15 anos, reféns de Lindembergue Alves, de 22. Água com sabão escorria pela escadaria para apagar as mais de 100 horas de tensão às quais os vizinhos de longa data foram submetidos. Ainda perplexos com o desfecho do seqüestro mais longo de São Paulo, crianças, jovens, mulheres e homens queriam também voltar a reescrever ali, em folha limpa, novos capítulos. Muitos, porém, já manifestam o desejo de deixar para trás aquele prédio da CDHU.A partir do batente do apartamento 24, onde as garotas eram mantidas reféns, a limpeza foi liberada. Na porta ainda restam marcas de sangue. "A polícia estava fazendo perícia ontem aí e disse que poderíamos lavar a escada. Vamos tentar voltar a viver", disse uma dona de casa, que não quis se identificar, enquanto puxava a água com um rodo. "Vou ser sincera: o pensamento é ir embora", acrescentou outra vizinha, que também resistiu a se identificar, mas é moradora do apartamento 34, acima do cativeiro. "Estou até com medo de dormir com a luz apagada. Tive uma crise de choro nesta noite."Vários vizinhos disseram que vão colocar os apartamentos à venda. "Meu pai quer ir embora também", disse Caroline, de 13 anos, do apartamento 23. "O seu Aldo (pai de Eloá) é um dos melhores vizinhos. Vai ser muito triste ficar aqui." O dia-a-dia da adolescente foi alterado com a presença constante dos policiais do Gate que negociavam a rendição de Alves. "Foi tudo muito ruim. Às vezes eram cinco policiais aqui, às vezes dois. A gente dormia e, quando acordava, via outros." No apartamento, Eloá era agredida, contam os moradores. "Ela pedia socorro, chorando. Dava para ouvir", disse uma amiga da família, que colaborava com a limpeza.No apartamento 14, abaixo de onde estavam os reféns, Maria Lúcia, de 62 anos, acompanhava ontem pela TV informações sobre o estado de saúde de Eloá, enquanto as vizinhas continuavam a limpeza. Por dias, ela aguardou sozinha o desfecho do seqüestro. Hipertensa, conseguiu recuperar o sono apenas na madrugada de ontem. "Só descansei porque sei que já resolveu. Qualquer barulho, eu saltava aflita. Está sendo tudo muito difícil." Por quatro dias, não abriu a porta por nada. Ontem, o marido, que dormiu todos os dias na casa de uma filha, voltou ao apartamento com um outro filho.A atendente Andréia Rangel, de 34 anos, vizinha de frente ao apartamento de Eloá, disse que o clima agora é de tristeza, mas também de revolta. Grávida de seis meses, ficou isolada no apartamento com a família por toda a semana. "Não agüentava mais. Qualquer movimentação, a gente correria da sala para os quartos com medo de que houvesse alguma bala perdida. O pior é que isso tudo ainda não acabou", disse Andréia, ao apostar - acertadamente - com as vizinhas que os moradores terão de prestar depoimento à polícia para ajudar a reconstituir a história. Nas rodas de conversa no pequeno comércio da região, com padaria, lava-rápido, bar, loja de roupas, bazar, que voltaram a abrir ontem, o assunto principal foi o fim dramático do seqüestro. O lojista Paulo de Souza, de 34 anos, criticou o comportamento de Alves. "Ninguém espera uma atitude dessas do cara. A intenção dele não era assustar, era matar. Se a Eloá morrer, vamos fechar o comércio em luto."Bruna de 15 anos, amiga de Eloá, pouco soube dizer sobre Alves. "Ela me falava bem dele. Quando terminaram (o namoro), ela ficou bem triste", contou a adolescente, que todos os dias ia para a escola, de ônibus, com Eloá.

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