Ceará registra mais duas mortes devido às fortes chuvas

Com mais essas duas mortes, subiu para 23 o total de mortes do Norte e Nordeste causadas pelas fortes chuvas

Carmen Pompeu, da Agência Estado,

06 de maio de 2009 | 19h01

Além da Região Norte, as enchentes castigam agora outras regiões do Ceará. Mais duas mortes foram registradas, ambas em Russas, no Vale do Rio Jaguaribe, elevando para o nove o número de vítimas fatais no Estado. Salvador também teve aumento no registro de mortes, passaram a seis. Em um dia, o número de cidades atingidas subiu de 55 para 65 segundo balanço divulgado nesta quarta-feira, 6, à tarde pela Coordenação Estadual da Defesa Civil. Os feridos chegam a 134. Os desalojados - que estão em casas de amigos ou parentes - somam 24.364 e os desabrigados - que dependem de abrigos públicos - são 16.363.

 

Com mais essas duas mortes, subiu para 23 o total de mortes do Norte e Nordeste causadas pelas fortes chuvas. Os Estados mais atingidos são Bahia, Ceará, Maranhão, Piauí, Pará e Amazonas. No Maranhão, a Defesa Civil conta 8 mortos pelas chuvas. No Ceará, o número de vítimas é de 9; na Bahia, o número de mortos subiu para 6. Ao todo, nesses três Estados e no Piauí, Pará e Amazonas, 266 municípios foram mais gravemente atingidos.

 

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Em São Gonçalo do Amarante, no Vale do Curu, o rio subiu destruindo casas e deixando comunidades ilhadas. "Nunca vi uma cena tão terrível como essa", disse a costureira Alice Pereira em entrevista a uma emissora local de televisão. Quinze pessoas tiveram de ser resgatadas na cidade, nesta quarta-feira, 6, de manhã, por técnicos da Defesa Civil.

 

De acordo com o vice-prefeito de São Gonçalo, Francisco Braga, existe um projeto na Prefeitura para a retirada da população que mora às margens do rio, mas ele só deve ser posto em prática dentro de seis a oito meses. Enquanto isso, a população ribeirinha está sendo levada para abrigos públicos instalados em escolas, cujas aulas foram suspensas.

 

Em Pentecoste, município vizinho a São Gonçalo, toda a população ficou isolada. Uma ponte foi destruída pela cheia do rio. E a estrada que poderia ser usada como acesso alternativo tornou-se intransitável. Técnicos d o Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER) estiveram, nesta quarta-feira, 6, vistoriando a ponte. Segundo eles, os reparos só poderão ser feitos quando o nível do rio baixar. Operários da prefeitura trabalhavam no sentido de desobstruir a estrada.

 

Em Jijoca de Jericoacora, no Litoral Oeste, onde fica a turística Praia de Jericoacoara, a água da chuva se misturou às fossas. Moradores da Rua das Dunas perderam móveis, eletrodomésticos. Muitos tiveram de abandonar suas casas. Um abaixoassinado elaborado pelo Conselho Comunitário pede que a Prefeitura mande um trator para abrir uma vala e, assim, a água possa escoar. Eles também querem que seja feita uma inspeção sanitária nos locais atingidos.

 

Segundo o coordenador executivo da Defesa Civil do Ceará, coronel Henrique Jorge da Silva Santos, a comunicação com as equipes de socorro também foi prejudicada pelas chuvas. Até a tarde desta quarta-feira, 6, ele ainda não havia sido informado sobre a situação em Jericoacoara.

 

A maior dificuldade, no entanto, é a falta de água potável. Segundo Santos, a Companhia de Água do Ceará (Cagece) disponibilizou dois mananciais de onde está sendo retirada água para distribuir com os atingidos. A Secretaria da Fazenda (Sefaz), também cedeu um caminhão-tanque. "A triagem das doações de roupas e alimentos está sendo feita por 300 homens do curso de formação de soldados", informou Santos.

 

De ontem (05) para esta quarta-feira, 6, segundo a Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme), a maior chuva foi registrada em Pereiro (156 milímetros), cidade serrana localizada no Vale do Rio Jaguaribe, a 358 quilômetros de Fortaleza. A região do Maciço de Baturité também foi afetada por fortes chuvas. Palmácia e Guaramiranga tiveram chuvas acima de 100 milímetros. Em Arneiroz, no Sertão Central, 104,8 milímetros.

 

Em Fortaleza, apesar do acúmulo de chuva este ano chegar a 1.400 milímetros, quase duas vezes mais que o registrado em períodos normais, o número de desabrigados é de apenas 15 pessoas. A população da capital cearense ainda não sofre com as inundações, mas as chuvas destruíram boa parte do asfalto da cidade e também fizeram com que as caminhadas pelas trilhas do Parque do Cocó fossem interrompidas. Por questão de segurança, a área de lazer do parque permanecerá fechada por dois meses.

 

Bahia

 

O mecânico Edivaldo Cassiano da Silva, de 51 anos, amanheceu ao lado dos escombros das três casas destruídas por um deslizamento de terra na última terça-feira, no bairro periférico de Pirajá, em Salvador. Não havia conseguido dormir. Queria retomar logo as buscas pelo corpo do filho, Rodrigo Cassiano da Silva, de 20 anos. Ele estava com dois amigos, Leandro Vinícius Rocha da Silva, também de 20 anos, e Walter Antônio Moura Júnior, de 22, em um dos imóveis derrubados pela força da terra molhada que desceu pelo barranco. Os corpos dos dois foram localizados ainda na tarde de ontem.

 

"Só saio daqui com meu filho", dizia Edivaldo, ansioso pelo reinício dos trabalhos - que ocorreu às 8 horas, quando equipes do Corpo de Bombeiros chegaram ao local. O mecânico não parecia triste. Mostrava-se apenas determinado a encontrar logo o corpo do filho. Quando os trabalhos precisavam ser interrompidos, porém, ele não disfarçava o cansaço e o olhar perdido, com o corpo escorado sobre a pá que carregava para todo lado. A mulher dele, mãe de Rodrigo, em desespero, teve de passar o dia medicada. "Essas coisas que acontecem, só Deus, mesmo, para explicar", consolava-se.

 

Durante o dia, a chuva forte que caiu na terça-feira sobre a região metropolitana de Salvador deu uma trégua. Vez por outra, porém, uma garoa atingia a área de trabalho - forçando a paralisação do esforço de resgate, pelo risco de a terra nua do barranco próximo causar uma tragédia ainda maior.

 

Um cão farejador apontou que o corpo do jovem estaria sob uma placa de concreto e blocos, de cerca de sete metros de largura por quatro de altura, que ajudava a dar sustentação à casa e desabou inteira. O fim da manhã foi de esforços de 50 homens, entre bombeiros, funcionários da Defesa Civil e vizinhos, tentando levantar o pesado bloco, ainda coberto por lama. Em vão.

 

Durante a tarde, os homens passaram tentando quebrar, a golpes de marreta e enxada, a parede. Pedaço a pedaço, o bloco foi se desmanchando, mas não na velocidade que o mecânico desejava. Por vezes, ele cobrava mais rapidez nos golpes dos homens que ajudavam. Às 16 horas, a três quilômetros dali, os dois outros jovens foram enterrados, no cemitério do bairro. Meia hora depois, o corpo de Rodrigo foi enfim localizado, no ponto indicado. Só então Edivaldo se permitiu chorar. "Agora é enterrar."

 

PRÉDIO - Do outro lado da cidade, no bairro de Pernambués, outro resgate mobilizou vizinhos de um prédio de oito andares, que havia acabado de ser finalizado e esperava os primeiros moradores já na próxima semana. A construção, apoiada em um barranco, ruiu às 3 horas. Dentro, em um apartamento do segundo andar, estavam o proprietário do imóvel, Aloísio Almeida, de 64 anos, a cunhada, Lindinalva da Hora Assis, de 43, e a sobrinha, Tamires Assis Conceição, de 19. Os dois primeiros sofreram traumatismo craniano, mas estão fora de perigo.

 

"A gente ouviu um estrondo e, quando saiu, só tinha a poeira", diz o motorista André Souza Santos, de 30 anos. "A menina (Tamires) nem precisou de ajuda. Logo a gente viu ela de pé, no meio do entulho, um milagre. Mas os outros dois a gente teve de ajudar, tirar os pedaços de material de cima. Eles não iam aguentar até os bombeiros chegarem."

 

Os três foram levados ao Hospital Geral do Estado. Durante a tarde, Lindinalva foi transferida para um hospital particular.

 

No fim da manhã, o corpo de uma das desaparecidas durante o temporal de terça-feira foi localizado pelo Corpo de Bombeiros. Fernanda Bispo dos Santos, de 27 anos, havia acabado de pegar a filha, Beatriz, de 6, na escola, no início da tarde de ontem, quando foi tragada por um bueiro destampado instalado sobre um córrego, nas imediações da Avenida San Martin, no bairro de Santa Mônica. A correnteza levou as duas para o canal da avenida.

 

O corpo foi localizado a pouco mais de dois quilômetros dali, preso na vegetação do Rio Camurujipe, onde deságua o canal, perto da Rótula do Abacaxi, importante entroncamento viário da capital baiana. O corpo de uma menina foi localizado às 18 horas, por populares, a mais de quatro quilômetros do local do acidente em um canal da Avenida Antonio Carlos Magalhães. Uma equipe do Corpo de Bombeiros - que já havia paralisado as buscas - agentes do Departamento de Polícia Técnica (DPT) foram ao local. Acredita-se que o corpo seja o de Beatriz.

 

Ocorrências

 

O desmoronamento do prédio, chamado Vila Romana, em Pernambués, foi a ocorrência mais grave registrada pela Coordenação da Defesa Civil de Salvador (Codesal) durante a quarta-feira. Apesar de o clima ter ficado mais firme na cidade, o solo encharcado, resultado dos 168,8 mm de chuva registrados desde o início de maio - quase metade do esperado para todo o mês, 349,5 mm -, continuou causando problemas.

 

Até as 18 horas, o órgão havia registrado 412 ocorrências, a maioria (281) relativa a deslizamentos de terra. Foram contabilizados, também, 17 desabamentos de imóveis, entre eles dois casarões do bairro histórico do Comércio. Ninguém ficou ferido.

 

A própria sede da Prefeitura foi interditada, pela Codesal, por causa de um alagamento derivado da ruptura de uma calha, que não resistiu à pressão da água da chuva. E o prefeito João Henrique Carneiro, obrigado a despachar na sede da Secretaria da Educação, fez um apelo para que empresários que tenham maquinário capaz de fazer limpeza de canais e de remover terra - como escavadeiras e retroescavadeiras - cedam os equipamentos, sem custos, à prefeitura. "O pedido também foi feito ao governo, mas ele não tem condições de atender a toda a demanda."

 

De acordo com a Codesal, Salvador registrou, desde o início da temporada chuvosa, em meados de abril, seis mortes, oito feridos e 195 desabrigados. Além deles, há 158 famílias morando em imóveis sob iminente risco de desabamento. O plano da prefeitura é tirá-los de casa e oferecer a eles R$ 300 mensais como auxílio para aluguel.

 

O valor foi acertado hoje, em encontro entre João Henrique e o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, que sobrevoou a cidade. O ministro garantiu também que serão enviadas à cidade 1.200 cestas básicas e que as famílias desalojadas terão prioridade no programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal.

 

Além de Salvador, outras seis cidades baianas - Lauro de Freitas, Simões Filho e Vera Cruz, na região metropolitana, além de Camacã, Guaratinga e Mascote, no sul do Estado - estão com situação de emergência decretada. Na região metropolitana, estima-se que haja 300 famílias desabrigadas. No sul, a situação é mais grave em Camacã, onde há 126 famílias desabrigadas desde a semana passada.

 

A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) é de clima mais firme entre amanhã e sexta-feira, apesar de pancadas de chuva poderem ocorrer a qualquer momento. No sábado, porém, a Bahia deve receber uma nova frente fria, que deve causar mais chuva no Estado.

 

(Com Tiago Décimo, de O Estado de S. Paulo)

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