JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO
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Fernando Reinach
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Cena de caça de 40 mil anos

Hoje o ato de caçar um animal não passa de covardia. O ser humano tem uma vantagem tecnológica insuperável: binóculos, armas de fogo e meios de transporte. O mais perigoso dos animais é presa fácil

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2019 | 05h00

Hoje o ato de caçar um animal não passa de covardia. O ser humano tem uma vantagem tecnológica insuperável: binóculos, armas de fogo e meios de transporte. O mais perigoso dos animais é presa fácil. Fotos dos covardes posando de rifle em punho com o pé sobre um leão ou um rinoceronte morto são vergonhosas. É por isso que temos uma dificuldade enorme de imaginar como se sentiam nossos ancestrais a pé nas savanas com uma simples lança. 

Eles eram ao mesmo tempo caçadores e caça, tentando escapar dos grandes predadores que deveriam adorar matar aqueles bípedes lentos e desajeitados, ao mesmo tempo em que tentavam abater algum animal para complementar a dieta de raízes, sementes e frutas. É por esse motivo que a descoberta de uma cena de caça pintada em uma caverna na Indonésia 40 mil anos atrás é tão importante. Ela é uma janela que nos permite enxergar um pouco da mente e sentimentos dos ancestrais.

No ano passado, em uma região de Sulawesi (Indonésia) rica em pinturas pré-históricas, um pesquisador observou um buraco no alto de um paredão dentro de uma caverna. Subiu pelas raízes de uma árvore, entrou pelo buraco, e se deparou com uma segunda caverna de 4 metros de largura, 5 metros de altura e quase 6 metros da profundidade. No fundo da caverna, a 3,5 metros de altura, encontrou uma enorme coleção de pinturas. Mas o mais impressionante é a cena encontrada do lado direito do paredão. 

Pequenos fragmentos de rocha que haviam se formado sobre a pintura (e, portanto, são mais recentes que a pintura propriamente dita) foram removidos e analisados para determinar sua idade. Ao se formar, esse material contém uma quantidade mínima de urânio. Esse urânio vai os poucos decaindo e se transformando em tório. Medindo a quantidade de tório e urânio presentes na amostra é possível determinar a idade do sedimento.

Foi assim que os cientistas descobriram que essas pinturas foram feitas pelo menos 40 mil anos atrás. Nessa época, a Terra estava no meio do último período glacial, o gelo cobria toda a Inglaterra e parte da região onde hoje se localiza a Alemanha. Essas pinturas foram feitas mais de 20 mil anos antes das famosas pinturas das cavernas de Lascaux na França e de Altamira na Espanha. Ainda demoraria 25 mil anos para o ser humano domesticar as primeiras plantas e os animais. Essas são as mais antigas cenas de caça pintadas por seres humanos já encontradas.

A cena principal é simples. Do lado direito da parede está representado um búfalo anão (Bubalus sp), de 90 centímetros de altura, muito agressivo, que ainda existe na Indonésia. A principal diferença é que, além de pequeno, o animal tem chifres retos voltados para trás. De frente para o búfalo, do lado esquerdo da cena, organizados em um semicírculo, estão seis figuras humanas. Pelo menos quatro linhas ligam as mãos dessas figuras humanas ao búfalo e em alguns casos parecem se alongar sobre as costas do búfalo. Os cientistas acreditam que essas linhas representem lanças ou cordas. Pelo comprimento e pelo fato de chegarem até o búfalo, me parece mais provável representarem cordas. 

Os seres humanos estão representados de maneira mais simples que o búfalo e aparentam estar deitados pois seu eixo maior está na mesma direção que o eixo mais longo do búfalo. Mas o mais interessante é que esses seres humanos possuem cabeças alongadas, como se fossem cabeças de aves ou de carnívoros de focinho alongado como raposas ou hienas. Essas figuras híbridas foram encontradas em diversos locais e são chamadas de theriathropic (parte humana, parte animal). 

Essa é a pintura. Mas o que podemos inferir? Os cientistas fazem poucas especulações, se limitando a descrever a cena, mas algumas interpretações, feitas por especialistas em arte pré-histórica foram divulgadas. Aqui vai um breve resumo, pois muito ainda vai se falar sobre essa cena. A primeira conclusão é de que essas pessoas já se organizavam para caçar em grupo. No caso de as linhas representarem cordas, pode ser que os caçadores tentassem capturar o búfalo para matar ou então para tentar domesticar. Nunca vamos saber a não ser que novas pinturas sejam descobertas. 

A segunda conclusão é de que já nessa época os humanos conseguiam imaginar seres que não existiam na realidade, híbrido de pessoas e animais. Essa capacidade, muitos acreditam, é necessária para o surgimento dos mitos e religiões. A terceira conclusão é de que provavelmente as pessoas se representavam como parte animais por se sentirem verdadeiros predadores ao conseguir caçar da mesma maneira como outros animais carnívoros caçavam. Podemos imaginar que eles se sentiam mais poderosos do que realmente eram, pois é provável que nessa época eram mais presas que predadores. 

Finalmente podemos imaginar que essa cena representa uma celebração do orgulho da vitória dos caçadores sobre um animal mais forte e perigoso. Tudo isso é muito mais do que podemos inferir a partir dos esqueletos que encontramos de nossos ancestrais, e é uma primeira incursão na mente desses humanos que viveram 40 mil anos atrás.

MAIS INFORMAÇÕES:EARLIEST HUNTING SCENE IN PREHISTORIC ART. 

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