Tiago Queiroz / Estadão
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‘Cena de terror’, conta professora que viu ataque na creche em MG

Maria Nicélia Pereira presenciou vigia entrar na creche em Janaúba e incendiá-la. ‘Que é isso, seu Damião?!’, foi a única frase que conseguiu dizer

Felipe Resk, ENVIADO ESPECIAL A JANAÚBA (MG)

09 Outubro 2017 | 03h00

JANAÚBA - "Tá boa, Dona Célia?", perguntou o vigia Damião Soares dos Santos, de 50 anos, ao cruzar com a professora no pátio da creche, onde as crianças do maternal, os meninos de short e as meninas de calcinha, tomavam banho de mangueira. Brincando com seus alunos, entre 3 e 4 anos, Maria Nicélia Pereira, de 44, assentiu. "Eu estou muito doente", emendou o segurança, carregando a mochila preta de sempre nas costas, antes de entrar no salão da unidade de ensino. Lá dentro, outra turma, mais velha, assistia a um filme. Em questão de segundos, o homem retirou um balde e começou a espalhar um líquido nas crianças. "Que é que isso, Seu Damião?!", foi a única coisa que Célia conseguiu dizer. Tudo que viu, então, foi fogo.

"Foi uma explosão, acho que porque o balde caiu no chão, e só veio aquela bola de fogo em cima de mim", relata Célia, que, à frente de salas de aula desde os 26, trabalha há 10 anos na Gente Inocente. Com a blusa em chamas, a professora começou a correr e gritar por socorro. "Não dei conta das crianças", lembra, com tristeza. Desesperada, arrancou a camisa, nem sabe como, e, só de sutiã, parou cerca de 500 metros após a creche, onde pedreiros realizavam uma obra às 9h30 da manhã daquela quinta-feira, 4.

Em disparada, os homens correram para o local e, com baldes de água, tentaram conter o fogo que atingiu três salas de aula (para crianças de 3 a 5 anos) e o salão principal da creche, derretendo materiais escolares, ventiladores, alimentos e até o teto, feito de PVC. O berçário, para até 2 anos, não foi atingido.

Muitos vizinhos, alarmados com a gritaria e a fumaça que tomou conta da rua, saíram de casa e tentaram ajudar no resgate das cerca de 75 crianças que estavam na unidade de ensino, além de funcionários e professores. Na creche, não havia extintores ou qualquer sistema anti-incêndio.

Presente no salão, a diretora da unidade conseguiu se esconder no único banheiro, junto com algumas crianças. Na esperança de escapar da fumaça, quebrou o vitrô para aumentar a circulação de ar. As janelas da creche tinham grade.

"Foi uma cena de terror, um trem inexplicável", diz Célia, que sofreu queimaduras nos dois braços, no rosto e nos pés, que ficaram com as marcas da sandália que ela usava no momento da tragédia. Sem saber o que fazer, a professora tentava organizar as crianças que, tossindo, gritando e chorando, saíam de lá. Muitas delas, feridas. "Me ajuda, Célia! Me ajuda!", repetia a sua auxiliar, Geni Oliveira Lopes Martins, de 63 anos, a mais velha das vítimas. "É muito difícil enxergar tudo aquilo e não poder fazer nada."

Pouco antes do atentado, Célia pediu para a auxiliar entrar na creche para buscar as mochilas em que haviam guardado as roupas das crianças, que já se preparavam para se enxugar. Com várias bolsas nas mãos, Geni foi surpreendida pelas labaredas, que lhe queimaram 60% do corpo. Em estado gravíssimo, ela foi transferida na tarde deste domingo para o Hospital João 23, em Belo Horizonte. "Eu só queria que o povo não julgassem a atitude dos outros, eu só pensei em reunir as crianças, com medo de uma explosão maior."

Segundo a professora, uma viatura da polícia militar foi a primeira a acessar o local e ajudar no resgate. "Os bombeiros foram os últimos a chegar", diz. Outros carros começaram a apanhar as vítimas e levar aos hospitais da região que, precários, sofrem com a falta de insumos básicos, como agulhas e curativos.

Com uma criança no colo, a professora foi levada de viatura até o Hospital Regional de Janaúba, onde as vítimas recebiam banhos de soro para aliviar a dor das queimaduras. "Na mesma hora, dá uma sensação de alívio", conta. "Mas o soro do hospital acabou e continuou chegando mais gente... Os médicos começaram a jogar água nas pessoas." Com 40% do corpo queimado, a professora Marley Simone, de 42 anos, que ainda estava consciente, pediu: "Me coloquem embaixo de um chuveiro." Mais tarde, ela passaria mal e também está em estado gravíssimo.

Atentado. A tragédia na Gente Inocente aconteceu em meio a uma semana especialmente programada para o dia das crianças. Na véspera, os alunos autorizados pelos pais participaram de uma passeio a um clube da cidade, onde brincaram no parquinho. "Até a comida que a gente estava oferecendo era diferente, com pão de sal e bolo de chocolate", diz. Também aconteceram oficinas para confecções de brinquedos que, depois, foram usados pelas crianças.

Segundo investigações da Polícia Civil, o vigia Damião entrou na creche dizendo que iria entregar um atestado médico para a diretora da unidade. Após férias de três meses, ele deveria ter voltado naquela semana, mas faltou. Como só trabalhava à noite, não tinha contato com as crianças, mas participava das reunião semanais com a equipe pedagógica da creche - por isso, era conhecido por todos.

"Ele bateu no portão, perguntaram quem é, e deixaram entrar, até porque ninguém esperava, né?", diz Célia. "Foi um atentado contra as crianças. A gente imagina que isso aconteça em São Paulo ou nos Estados Unidos, mas em uma cidadezinha pequena dessa ninguém imagina nunca, nunca, nunca."

A professora passou dois dias internada e recebeu alta no sábado, 7. Em choque, a sua filha única, a estudante Ana Cláudia Pereira, de 17 anos, dormiu agarrada na cama com a mãe. "Quando eu soube da tragédia, perdi tudo na hora. A notícia chegou como se ninguém tivesse sobrevivido."

Proprietário de um pedaço de terra na cidade vizinha de Jaíba, o marido Cláudio Pereira, de 48 anos, estava incomunicável na hora do incêndio. "Um lugar tão longe, vendo uns gados, que nem sinal de celular tinha", diz. "Só cheguei umas 13h30, uma multidão na frente da escola e, no hospital, aquele corre-corre danado", diz o comerciante, que, por causa das queimaduras, não pôde abraçar a esposa quando se encontraram.

Em casa, Célia precisa tomar antibiótico e remédio para dor, além de trocar os curativos nos braços várias vezes por dia. Na cabeceira da cama, onde a irmã a ajuda, fica a imagem de Nossa Senhora de Aparecida. A professora faz aniversário em 11 de outubro, véspera do dia da santa. "Eu renasci naquele dia."

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‘Ele não quer ir para escola, porque diz que lá tem fogo’, conta mãe de sobrevivente

Pedro Dias, de 2 anos, foi socorrido após o incêndio e teve alta. Agora, não quer voltar para a creche, conta a mãe

Felipe Resk, ENVIADO ESPECIAL A JANAÚBA (MG)

09 Outubro 2017 | 03h00

JANAÚBA - Com apenas 2 anos e 5 meses, o pequeno Pedro Lucas Dias ainda está aprendendo a falar e, por isso, conhece poucas palavras. Desde que recebeu alta do hospital em Janaúba, no sábado, 7, no entanto, ele não para de repetir a seguinte frase: "Escola não, mamãe, lá tem fogo. Não fui eu, não."

Quem conta é a mãe da criança, Amanda Carolina Dias, que, muito jovem  (ela tem 16 anos), estava no colégio na hora do incêndio na creche Gente Inocente. "Minhas colegas falaram que a creche pegou fogo, eu pensei que tinha sido na cozinha do lado da sala dele. Fiquei com medo."

Ao chegar no local, Amanda não encontrou o filho, que já havia sido socorrido. A cena, descreve, era de tragédia: com muita correria, crianças e adultos machucados, policias bloqueando a passagem e equipes de resgate transportando as vítimas.

"Alguém conseguiu tirar meu filho de lá de dentro, Graças a Deus", diz a estudante. Segundo a mãe, o menino viu uma das coleguinhas da creche com os braços em chamas e, desde então, não consegue esquecer a cena. "Ele fica falando que não quer ir para a escola, porque lá tem fogo."

Com quadro estável, Pedro Lucas não precisou ser transferido para hospitais maiores e permaneceu internado na cidade. "Já rezei muito, agradecendo. Se o fogo se espalha mais rápido, não sei o que ia ser..."

No dia da tragédia, quinta-feira, 4, a pequena Ingrid Ribeiro completou 1 ano e 4 meses. Mesmo no berçário, que não foi atingido pelo fogo, a menininha inalou fumaça e ficou internada. "Uma criancinha dessa, que nem fala e nem anda... Ela viveu de novo", diz o pai, o atendente Wilson Ribeiro, de 27 anos.

"Eu imaginei um fogo simples. Quando eu vi o tamanho do estrago, cê tá doido", conta o pai, que estava trabalhando no supermercado quando recebeu a notícia. "O maior susto foi não ter encontrado ela quando cheguei na creche. Pensei que tinha falecido."

O desespero de Ribeiro só passou depois que a família conseguiu localizar a menina no Hospital Regional de Janaúba. "Foi um alívio quando o médico falou que ela não tinha queimadura."

Filha única, Ingrid agora não desgruda do pai, que a levou para passear de bicicleta na cidade. "Eu já era apegado. Agora, depois desse susto, cê tá doido."

Alívio. Apesar do luto pela tragédia, a dona de casa Elizete Fernandes Vasconcelos, de 41 anos, estava aliviada. Mãe dos gêmeos Raíssa e Raí, de 4 anos, ela mudou os filhos de creche no início deste ano. 

"Eles estudavam na Gente Inocente, mas choravam muito", diz a dona de casa. "Eram da sala dos outros menininhos que morreram. Só tenho rezado, agradecendo muito, por ter trocado de escola."

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Sentimos a dor das famílias, diz irmã de vigia que incendiou creche

De acordo com Simone Soares dos Santos, seu irmão, Damião Soares do Santos passou por problemas pessoais após deixar a casa da família

Felipe Resk, ENVIADO ESPECIAL A JANAÚBA (MG)

09 Outubro 2017 | 03h00

JANAÚBA - "Eu só queria pedir que a sociedade entenda que nós sofremos muito e também somos vítimas. É uma dor geral." É com essas palavras que a professora Simone Soares dos Santos resume o sofrimento que a família tem passado desde que o irmão, o vigia noturno Damião Soares dos Santos, de 50 anos, ateou fogo na creche Gente Inocente, em Janaúba, matando, além dele próprio, oito crianças e uma professora. Outras 25 pessoas ainda estão hospitalizadas.

Apesar do clima de revolta diante da maior tragédia da história da cidade e dos burburinhos de ameaças, Simone afirma que tem recebido a solidariedade de muitas pessoas. "Até o momento, ninguém fez nada contra a gente", diz. "Nesses dias, recebi muitas visitas de amigos que compreendem a situação pela qual estamos passando. Nós não temos culpa pelo que ele fez, também estamos sentindo a dor dessas famílias."

Segundo a irmã, o vigia noturno morava sozinho há mais de três anos, antes mesmo da morte do pai, Patrocino Soares dos Santos, de 81 anos, apontado como o motivo da desavença entre ele e a família. Nos últimos dias, porém, ele havia se reaproximado da mãe, de 85 anos, que tem a saúde debilitada, e até dormiu na casa dela na véspera do ataque. "Ele tinha uma vida normal, ninguém nunca imaginava que ele fosse fazer isso."

Segundo Simone, Damião também passou por problemas pessoais após deixar a casa da família. Uma namorada do vigia ficou grávida, mas de outra pessoa. O vigia nunca casou ou teve filhos.

A mãe, Joaquina Maria dos Santos, teve 11 filhos: quatro meninos e sete meninas. Boa parte da família foi criada na zona rural de Porteirinha, vizinha de Janaúba. Damião tinha um irmão gêmeo, chamado Cosme - que não mora mais na cidade. Os nomes foram dados em homenagem aos santos, cujo dia é tradicionalmente comemorado com distribuição de doces para crianças.

Investigações apontam que, depois de entrar na creche, Damião teria dito que daria picolé para as crianças, atraindo a atenção das vítimas. Na casa onde morava sozinho, ele mantinha uma pequena fábrica de sorvete, que vendia a R$ 1 nas ruas de Janaúba. A polícia de Minas suspeita que o vigia aproveitou o etanol, usado para manter os picolés refrigerados, para incendiar a creche.

Para a polícia, o crime foi premeditado, uma vez que ocorreu na data de aniversário de três anos da morte do pai de Damião. Segundo depoimentos coletados, antes do crime, o vigia disse aos familiares que daria "um presente" e que também iria morrer.

Vigilante da Gente Inocente há oito anos, onde cumpria expediente de 12 por 36 horas, Damião completou os estudos tarde, fazendo supletivo. Entre moradores da região, ele é descrito como uma pessoa "reservada" e de pouca conversa. Já vizinhos afirmam que ele era trabalhador, educado e prestativo.

Há três meses, no entanto, ele não comparecia na creche, porque estava com férias acumuladas. Na semana da tragédia, deveria voltar ao serviço, mas faltou. A entrega de um atestado médico foi a justificativa que Damião usou para entrar na unidade no dia do crime.

Após a morte do pai, Damião chegou a denunciar ao Ministério Público, em 2014, que a mãe estaria envenenando sua comida e recebeu orientação para comparecer a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPs). Para a Polícia Civil, Damião tinha transtorno metal e imaginava ser perseguido. Depois do incêndio, a promotoria abriu inquérito para apurar por que o vigia trabalhava em uma unidade infantil. 

Já a prefeitura de Janaúba alega que o vigia nunca compareceu a uma unidade de atendimento psiquiátrico e que não sabia de nenhum transtorno relacionado a Damião. "Nós não tínhamos problema com ele: cumpria os horários e nunca desrespeitou ninguém", disse a secretária de Educação da cidade, Luzia Angélica Santos.

O velório dele aconteceu às pressas e o corpo foi enterrado sem a presença de familiares, na mesma cova do pai."Por questão de segurança e por respeito às vítimas, a família decidiu não ir", conta Simone, que minimiza os riscos de alguma agressão no cemitério. "Foi uma decisão nossa, até porque foi oferecido proteção policial, se a gente quisesse enterrar o corpo." 

"Posso imaginar o sofrimento, mas não consigo expressar o que ele causou a todas essas famílias", afirma Simone. "Não tem nada que a gente pode dizer para amenizar a dor."

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