Ascom/Ministério da Defesa
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Cenário: Brasileiros resgatados de Wuhan deverão ter rotina barulhenta em base de Anápolis

Esquadrão Jaguar, baseado no local, defende o centro do poder, em Brasília, contra ameaças vindas pelo ar. O tempo todo, o ano inteiro, caças supersônicos F-5M ficam em um hangar na cabeceira da pista

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2020 | 20h49

A Base Aérea de Anápolis (GO), a Ala 2 da aviação militar brasileira, é grande, reservada e está sempre em alerta de combate. O complexo é estratégico. Abriga unidades sensíveis como o 1.º Grupo de Defesa Aérea (GDA), o 6.º Grupo de Aviação e o Esquadrão Carcará. Os novos cargueiros e abastecedores em voo KC-390 estão sendo recebidos na BAAN. As instalações passam agora por grandes reformas, estão sendo preparadas para receber a partir de 2021 os super caças F-39 Gripen NG. Na base, o trabalho de cada dia é pesado. O tempo todo, o ano inteiro, um ou dois caças supersônicos F-5M, a versão modernizada pela Embraer do Tiger II americano, ficam em um hangar na cabeceira da pista de 3.3 mil metros - abastecidos e armados com dois mísseis mais um canhão de 20mm, prontos decolar em cinco, talvez dez minutos. 

O homem na cabine do jato tem, em média, de 25 a 37 anos. Durante o turno de prontidão, permanece bem próximo do F-5M, vestindo o macacão de voo, o capacete ali, ao alcance da mão. Seu treinamento é caro, bate nos US$ 3 milhões. O grau de exigência da missão principal é alto: o Esquadrão Jaguar deve defender o centro do poder, Brasília, distante 150 km, contra ameaças vindas pelo ar; aviões intrusos, sem identificação, voando em atitude suspeita. 

Em tempo de guerra, essa vigilância pode se estender por 1,5 milhão de km², até zonas industriais de São Paulo. Não é um evento raro. O controle dispara os interceptadores até oito vezes a cada 24 horas. A maioria das saídas é para o treinamento do efetivo do GDA. Entretanto, eventualmente um "bandido" de verdade surge nas telas da rede de radares tridimensionais - uma aeronave clandestina transportando drogas e mercadorias contrabandeadas ou as duas coisas ao mesmo tempo. Mais comum, pode ser apenas de um pequeno avião em voo irregular, desorientado, com os sistemas eletrônicos de bordo inativos. Ou "um ilícito", sem documentos, tentando escapar da fiscalização.  

A base, planejada para receber os Mirage IIIE/Br, primeiros supersônicos da FAB, começou a ser construída em 1970 e foi entregue apenas dois anos depois, em 1972. Em 2005 recebeu 12 Mirage 2000C/D, mais avançados que os modelos anteriores. Foram usados até 2013. Com o alongamento do cronograma de entrega  dos novos Gripen, passou a operar provisoriamente o F-5M. 

A Ala 2 abriga ainda os oito grandes jatos de inteligência, controle, alerta antecipado e sensoriamento remoto do Esquadrão Guardião e os LearJet R-35A de reconhecimento avançado do Esquadrão Carcará. Há pavilhões destinados ao apoio à pesquisa e ao desenvolvimento de tecnologia aeronáutica. O acesso às instalações é limitado, fortemente controlado. As turbinas dessa frota variada trovejam dia e noite pelas duas largas pistas cercadas pela vegetação do cerrado goiano.

Um ex-piloto dos antigos Mirage, que escolheu para morar "um terreno rural alinhado com o eixo da pista", acredita que os cerca de 30 pessoas transferidas de Wuhan, epicentro do coronavírus na China, e submetidas à quarentena, "terão certa dificuldade em conviver com a rotina barulhenta da Ala". Os hotéis de trânsito, integrados ao conjunto da Base, já foram adaptados aos procedimentos de controle sanitário. O grupo repatriado não poderá circular pelo restante da unidade.

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