Polícia Federal
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Cenário: Grupo de Nápoles foi ultrapassado pela ’Ndrangheta

Scotti era um dos principais homens da chamada Nuova Camorra Organizada, organização comandada por Raffaele Cutolo que desafiou o poder dos Casalesi, retratado pelo escritor Roberto Saviano no livro 'Gomorra'

Marcelo Godoy, O Estado de São Paulo

27 Maio 2015 | 03h00

Quando Pasquale Scotti chegou ao Brasil, há cerca de 30 anos, seus adversários na Camorra napolitana, por meio de Umberto Ammaturo, ligado ao clã dos Casalesi, dominavam a rota de tráfico de drogas do Brasil para a Itália. Scotti era um dos principais homens da chamada Nuova Camorra Organizada (NCO), a organização comandada por Raffaele Cutolo que desafiou o poder dos Casalesi, retratado pelo escritor Roberto Saviano no livro Gomorra. É conhecido em sua organização como “Engenheiro” ou “Pasqualino ‘O Collier”, por ter dado um colar à mulher do chefão Cutolo.

No começo dos anos 1980, a guerra de máfia entre as duas organizações rivais ensanguentou a região de Nápoles, deixando cerca de mil mortos. Em um desses crimes, Scotti teria feito concretar uma bailarina que havia denunciado a suposta ligação de sua organização com a morte, em 1982, do banqueiro Roberto Salvi. Salvi era presidente do Banco Ambrosiano, investigado no escândalo financeiro que envolveu o Banco do Vaticano e a loja maçônica P2. O banqueiro foi encontrado enforcado em uma ponte em Londres.

A guerra entre os grupos camorristas e os arrependidos aos poucos foram levando seus principais líderes para a cadeia, a exemplo do que acontecera com a Máfia, na Sicília. Dos oito foragidos mais importantes da Itália, segundo lista da Direção Central de Polícia Criminal do Ministério do Interior italiano, apenas dois eram camorristas - Scotti e Marco Di Lauro. A lista é um indicador da força atual dos principais grupos criminosos da Itália. A tradicional Cosa Nostra siciliana tem dois nomes entre os principais procurados: o capo Matteo Messina Denaro e Giovanni Motisi. Os sardos da Anonima Sequestri têm um nome na lista: Attilio Cubeddu. Os outros três pertencem à mais importante máfia da atualidade na Itália: a calabresa ’Ndrangheta.

Envolvidos com sequestros nos anos 1980, as ’ndrinas - como são chamadas as famílias da máfia calabresa - usavam as cavernas e encostas da região de Aspromonte, no sul da Itália, para esconder as vítimas mantidas acorrentadas em cativeiro por até mais de um ano. A cidade de Africo, localizada na região montanhosa, é o centro do poder de seu principal líder, Rocco Morabito, bandido mais procurado da Itália. Ele é procurado desde 1994, acusado de associação mafiosa e tráfico de drogas.

Trata-se de uma máfia diferente. Ela mistura misticismo - no ritual de iniciação, o novo mafioso deve jurar queimando uma imagem de São Miguel Arcanjo entre suas mãos -, ligações com extrema-direita, com o terrorismo neofascista, tráfico de drogas e armas, extorsões, contrabando e desvio de verbas públicas. Na América do Sul, a ’Ndrangheta teve, durante anos, como um de seus principais interlocutores Salvatore Mancuso, um dos líderes do grupo paramilitar de direita colombiano Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Mancuso acabou preso e extraditado para os Estados Unidos em 2008.

O poder da ’Ndrangheta, porém, não parou de crescer. Além de Morabito, outros dois de seus líderes aparecem na lista do Ministério do Interior: Giuseppe Giorgio e Ernesto Fazzalari. Os dois são procurados desde os anos 1990 pela polícia italiana. Além de dominar as montanhas da Calábria, a ’Ndrangheta controla a planície de Gioia Tauro, onde está o maior terminal de contêineres do Mediterrâneo. O gigantesco porto, inaugurado em 1994, tornou-se mais um instrumento para a ’ndrinas multiplicarem seu poder. 

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