Vítor Souza/Secom/Divulgação
Vítor Souza/Secom/Divulgação

Cenário: Não é deixando de nomear facções que se minará seu poder

Nos bastidores, autoridades do Judiciário, da Polícia Federal e dos Estados reconhecem que a guerra das facções corre à margem do controle estatal

Vera Magalhães, O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2017 | 03h00

Ao minimizar publicamente a importância da guerra entre facções criminosas como causa da chacina ocorrida no Compaj, em Manaus, o ministro Alexandre de Moraes nacionaliza uma espécie de dogma do governo de São Paulo: o de que não se deve superestimar o poder dessas organizações, sob pena de reforçá-lo.

Diante do grau de hierarquização desses grupos, da influência que têm nos presídios e fora deles e da divisão territorial estrita que eles praticam parece uma atitude um tanto ingênua e bastante inócua.

Não é deixando de chamar as facções pelos nomes que têm, numa atitude quase supersticiosa, que se estará minando seu poder. Ele existe e é crescente, e assim será enquanto as autoridades não encararem o problema de forma séria, efetiva e com igual grau de sofisticação e organização.

Nos bastidores, autoridades do Judiciário, da Polícia Federal e dos Estados reconhecem que a guerra das facções corre à margem do controle estatal e há risco real de o problema se espalhar pelo País, em rebeliões em presídios onde se repete a rivalidade entre o Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho e as “franquias” regionais de um e de outro. O próprio ministro tem consciência do problema, para o qual foi alertado em reunião de cúpula de representantes dos três Poderes em outubro. Na época, a ministra Cármen Lúcia expôs dados de inspeções do CNJ em presídios e falou abertamente da disputa de domínio entre facções, dando nomes aos bois. 

Na ocasião, o embate entre Família do Norte e PCC em Manaus foi um dos exemplos mencionados, assim como casos que haviam acabado de acontecer no Rio Grande do Norte e no Maranhão, com ameaça até à realização das eleições.

O governo, em caráter reservado, reconhece que grupos como CV e PCC internacionalizaram sua atuação, controlando o tráfico de drogas e de armas nas fronteiras. Esse comércio, aliás, é um dos focos de disputa por domínios, com reflexos em matança em presídios e disputa entre grupos em favelas no Rio e em outros Estados.

Aos poucos, os grupos vão aproximando sua ação da de organizações terroristas estrangeiras, como os cartéis de narcotráfico que atuavam na Colômbia e que hoje dominam o México, observam autoridades, preocupadas com o rápido avanço do poder desses grupos.

O Plano Nacional de Segurança, cujo lançamento está previsto ainda para este mês, deve ter um dos eixos voltados especificamente para a situação prisional e para o controle do tráfico nas fronteiras. Parece ser um caminho para estrangular a ação desses grupos.

Outro, apontado por especialistas, é atacar e estrangular financeiramente esses grupos. Acordos de cooperação internacional que ajudaram a rastrear o sistema que irrigava a corrupção do petrolão, por exemplo, podem ser usados para localizar e cortar o fluxo de recursos de grupos como o PCC. 

Para isso e para cortar a hierarquia de comando que existe entre os presídios e o comando dos grupos do lado de fora é necessário investimento contínuo e pesado em inteligência e equipamentos de monitoramento. Isso deve integrar o plano que o governo pretende lançar, e que, como sempre acontece no Brasil, foi antecipado para dar uma resposta à segunda maior matança da história do sistema carcerário nacional.

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