Central vai vigiar os Jardins

ONG dá Nextel a moradores para ter alerta sobre pessoas suspeitas ou problemas como entulho

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2023 | 00h00

Num escritório no 8º andar de um prédio comercial na Rua Augusta, região dos Jardins, está sendo montada uma espécie de subprefeitura em miniatura. Tudo bancado pelo bolso dos próprios moradores, que se uniram para fugir da burocracia oficial. Munidos de radinhos Nextel, eles serão os olhos e ouvidos do Jardim América, bairro com um dos metros quadrados mais caros da cidade. Seja lá o que estiver errado, de uma árvore que precisa ser podada até um carro suspeito zanzando por ali, eles poderão se comunicar a qualquer hora diretamente com a central de monitoramento na Augusta, que vai acionar órgãos competentes ou tentar resolver os problemas.O projeto, tido como pioneiro em São Paulo, é inspirado nos Neighborhood Watches - iniciativa criada nos Estados Unidos em que vizinhos ''''protegem'''' uns aos outros, denunciando todo tipo de fatos suspeitos para prevenir crimes. Por aqui, a idéia ganha um aspecto social a mais. Na central do projeto, ficarão 12 policiais militares reformados, todos com problemas físicos, que receberão as reclamações dos moradores e as repassarão à polícia ou à Prefeitura. Serão eles os verdadeiros ''''zeladores'''' do Jardim América.''''Esses profissionais foram contratados porque têm espírito público, sabem lidar com os paulistanos e têm uma vontade enorme de trabalhar e voltar a ajudar a população'''', diz Fabio Saboya, coordenador do Movimento Ame Jardins, associação que está bancando o projeto. Inicialmente, 60 moradores na área entre as Ruas Argentina, México, Peru e Groenlândia participarão da iniciativa. O custo do radinho é de R$ 30 por mês, mais uma mensalidade de R$ 250 para o Ame Jardins. ''''Em seis meses, queremos ter mil casas participando.''''ESCOLTA DE LULAEntre os zeladores, estão casos como o de Jair Teles, policial que teve de deixar a corporação depois de receber um tiro no rosto, ou do cabo Luiz Carlos dos Santos, que dias antes de receber sua promoção para sargento sofreu um acidente de moto. ''''Foi em outubro de 2004, eu estava fazendo a escolta do presidente Lula'''', lembra. ''''Um carro bateu em mim e eu fui jogado longe. Tive lesão medular, fiquei paraplégico. Foi difícil, fiquei trancado em casa desde então. Mas é bom poder voltar à rotina, trabalhar. Estou retomando meus sonhos. Com o dinheiro do salário, que vai ser de R$ 1 mil, guardarei para comprar um carro adaptado para deficientes. Não quero viver trancado.''''O Movimento Ame Jardins pretende ainda instalar 14 câmeras de vigilância até o final do ano e colocar cinco viaturas com a logomarca da associação nas ruas para complementar o projeto de zeladoria urbana.''''Tem coisas que podemos fazer sozinhos e não ficar apenas esperando a boa vontade dos órgãos públicos'''', diz Saboya. ''''É só ter união e organização. Por exemplo: os moradores aqui estavam reclamando de restos de entulho que tinham sido abandonados na rua. Alugamos um caminhão para resolver isso. Também já tiramos 180 faixas dos postes desde o começo do ano. O importante é que não queremos substituir o poder público nem criar uma milícia, mas sim ajudar na conversa com a Prefeitura e eliminar os intermediários, que só atrasam os processos.''''

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