Bruno Kelly/Reuters
Familiares carregam caixão de Josivan de Jesus Silva, 31, um dos mortos no massacre de Altamira Bruno Kelly/Reuters

Centro de chacinas em prisões, Norte tem disputa entre 17 facções criminosas

Duas maiores organizações criminosas do País, PCC e Comando Vermelho articulam alianças com grupos locais na tentativa de controlar rota amazônica do tráfico. Racha faz explodir número de assassinatos na região, nas ruas e dentro das cadeias

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2019 | 12h40
Atualizado 03 de agosto de 2019 | 20h12

A Região Norte do País, onde nesta semana um novo massacre atribuído a uma briga entre facções deixou 58 mortos, convive com o clima instável da disputa entre ao menos 17 facções criminosas. O racha nacional entre Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), evidenciado desde o fim de 2016, potencializa conflitos regionais pela disputa da rota de tráfico de cocaína cuja importância é crescente, segundo policiais e pesquisadores.

O PCC e o CV estão nos sete Estados da região, diz levantamento do Observatório de Análise Criminal do Ministério Público do Acre (MP-AC). A presença das maiores facções no Norte ocorre com diferentes graus de poder e com variados tipos de influência e alianças com grupos locais.

Em comum, as facções têm ambição de protagonismo no comércio milionário de drogas que passam pela região vindas dos maiores produtores do mundo: Colômbia, Peru e Bolívia.  Para isso, ressaltam os investigadores, a violência é usada para eliminar inimigos e impor medo.  Relatório mundial do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) apontou que a produção global de cocaína alcançou em 2016 o nível mais alto de toda a história, com uma estimativa de 1.410 toneladas. 

A situação do Acre ajuda a entender o problema pelo qual passa a região. O Estado com a terceira menor população do País (869 mil pessoas) ocupou em 2017 o posto de segundo mais violento, com uma taxa de 63,9 homicídios por 100 mil habitantes - a taxa nacional naquele ano, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foi 30,8. Na capital Rio Branco, a taxa chegou a 83,7, a maior do período. 

Por trás dos números acreanos estava uma briga do CV com membros do PCC e seus aliados locais do Bonde dos 13 e da Irmandade Força Ativa Revolucionária Acreana. “A rota do (Rio) Juruá passou a ser cobiçada pelo Comando Vermelho, que hoje domina essa passagem. As mortes, que antes só ocorriam como punição disciplinar por ‘vacilos’ dentro das organizações, passaram a se acumular no Estado em razão da disputa pelo domínio territorial entre diferentes grupos”, disse ao Estado Aldo Colombo Júnior, do Observatório do MP-AC, durante o encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que aconteceu nesta semana em João Pessoa e que teve entre os destaques a discussão sobre a atuação das facções e os efeitos sobre a segurança pública no País. 

O Juruá nasce no Peru, cruza a fronteira, passa por Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do Estado, e corta o Amazonas até desaguar no Rio Solimões. Neste rio, a rota é ainda mais relevante, pois vem da tríplice fronteira com Colômbia e Peru, cujo domínio garante à facção Família do Norte (FDN) ser a força regional mais expressiva. 

Foi a disputa de FDN e PCC que causou em janeiro de 2017 o massacre de 56 detentos no Complexo Anísio Jobim (Compaj), em Manaus. Briga interna da FDN levou à execução de mais 55 presos no Compaj e em cadeia vizinha, em maio deste ano.

O professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Luiz Fábio Paiva, que pesquisa a atuação de gangues no Estado do Nordeste e já analisou o funcionamento da FDN no Amazonas, lembra que a facção usa um discurso regionalista para tentar reforçar seus quadros no combate com os grupos de fora. “A FDN se preocupa em defender a área de fronteira da atuação de grupos exógenos. Para isso, usa o discurso regionalista, de que eles são os locais, para produzir afetos e mobilizar pessoas para realizar essa proteção.”

Em 2015, a Polícia Federal deflagrou a Operação La Muralla, que mirava a FDN. Para Paiva, a operação ajuda a entender um aspecto importante do problema: como a prisão por si só não representa um método totalmente eficaz de combater essas organizações. "O discurso da La Muralla é que todas as lideranças da FDN tinham sido presas. Dentro do sistema penitenciário, esses sujeitos, ao invés de serem controlados pelo Estado, controlaram a prisão. Lá, num comportamento que é característico em todo o País, passaram a agenciar novos quadros para a facção." 

Além do Amazonas, hoje a FDN tenta estender sua influência para outros três Estados da região: Roraima, Amapá e Pará. No Pará, a falta de hegemonia de um só grupo faz com que a rivalidade possa partir de qualquer lado. O Estado viu grupos locais crescerem nos últimos anos, como o Comando Classe A (CCA), cujos integrantes são apontados como os responsáveis pelo massacre da segunda-feira, 29, contra os filiados do CV em Altamira. Ainda há a atuação expressiva da Equipe Rex, mais focada em Belém, e da Facção Real.

O pesquisador da Universidade Estadual do Pará (Uepa) Aiala Colares Couto explica que os grupos locais seguiram o modelo de organização das facções do Rio e São Paulo, ampliando e fortalecendo a atuação diante da percepção da importância da rota que passa pelo Norte. “Eles se perguntaram: ‘e se em vez de deixar eles, os de fora, comandarem, a gente começar a controlar isso aqui?”

Couto pondera que as relações com as grandes organizações ocorre de diferentes formas e não significa que os integrantes do Comando Vermelho no Pará, por exemplo, são cariocas que lá vivem; são locais que “vestem a camisa”. O CV, que foi massacrado em Altamira, se articula para a revanche em áreas onde é mais forte, como Ananindeua, na região metropolitana de Belém, acredita o pesquisador. “A revanche vai acontecer ou dentro ou fora dos presídios”, diz. 

Desafio

Ex-ministro da Segurança no governo Michel Temer, Raul Jungmann também teme que, sem mobilizações do governo diante da crise carcerária, os massacres se repitam. “Com prisões superlotadas, guerra entre facções e o Estado não exercendo o controle do que acontece lá dentro, efetivamente a possibilidade (de novo massacre) continua existindo”, disse ao Estado nesta semana.

A briga entre os vários grupos – no Acre, no Amazonas ou no Pará – deixou reflexos consistentes nas taxas de homicídio. Atribui-se a essa guerra o recorde de mortes no País em 2017, assim como a acomodação das disputas, principalmente no Nordeste, é um dos fatores para a queda em 2018, que se mantém nos primeiros meses de 2019, segundo dados do governo federal. Com novos massacres em Manaus e Altamira este ano, o Norte mostra que lá essa acomodação está mais distante do que se imaginava. 

Jungmann lembra que relatório da sua gestão apontou que há outras dezenas de facções em todo o País e os governos precisam elaborar estratégias. “O crime nas ruas, que nos causa medo, ele é, em grande medida, organizado e coordenado de dentro do sistema prisional.” 

Moro aposta em pacote anticrime

O Ministério da Justiça e da Segurança, chefiado por Sérgio Moro, disse ao Estado que o combate às organizações criminosas tem sido uma prioridade. Citou que o pacote anticrime proposto ao Congresso "atualiza a legislação para que seja possível o combate ao crime organizado e o isolamento de lideranças criminosas, minimizando as influências nos demais presos". 

A pasta afirmou ainda que a previsão de impedir o direito à progressão de regime a membros de organizações "que ainda mantenham vínculo associativo" visa a "inviabilizar a atuação de chefes do crime organizado e desestimular a atividade dos demais membros". Outra proposta do ministério é ampliar o prazo de permanência de líderes em presídios federais de um para três anos, prazo que pode ser renovado. 

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Setor privado nos ajuda a combater organizações criminosas, diz diretor da polícia colombiana

No Brasil, diretor da Polícia Nacional diz que se preocupa com atuação crescente da Família do Norte na área de fronteira. Ele pede mecanismo binacional para enfrentar a criminalidade

Entrevista com

Major general Gustavo Alberto Moreno Maldonado, diretor adjunto da Polícia Nacional da Colômbia

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2019 | 17h10

JOÃO PESSOA (PB) - A Colômbia tem usado cada vez mais os conhecimentos do setor privado para entender e combater grandes organizações criminosas. Isso porque, segundo explica o major general Gustavo Alberto Moreno Maldonado, diretor adjunto da Polícia Nacional do país, a sofisticação atual dos grupos ilegais usa cada vez mais a lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada para fazer circular os recurso milionários do narcotráfico. 

Para entender movimentações financeiras e o funcionamento dessas empresas, Maldonado, que esteve em João Pessoa onde participou do encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, disse ao Estado que conta com a ajuda do setor privado para ensinar a polícia a identificar as atuações suspeitas.

Ele contou que o governo colombiano nota o crescimento da Família do Norte na região da fronteira amazônica e pede um mecanismo binacional para atuar com eficiência contra a criminalidade. Veja a entrevista.

A Colômbia foi conhecida por muito tempo pela atuação dos carteis de droga em função da massiva produção de cocaína. O governo conseguiu reduzir a violência, mas como a polícia avalia a gravidade do problema ainda hoje?

Segue sendo um grande desafio, gigante, imenso. Entendemos que o tamanho do Estado tem que ser do tamanho do território. Há que se ter essa soberania real em cada parte do território. Os grupos narcotraficantes têm uma maior possibilidade de existir quando coexistem com as comunidades porque um grupo com dinheiro pode investir e a comunidade vai protegê-lo, de uma ou outra forma. Em Colômbia, seguimos lutando muito contra isso. 

O senhor falou sobre a importância da aproximação com o setor privado para combater de forma mais eficaz as organizações criminosas. Como isso se dá?

Temos que entender que o que move essas estruturas é o negócio criminal, criando rendas ilegais que só estão aumentando. São empresas criminais, pois têm uma estrutura humana, logística e financeira voltada para atuação naquele negócio. A empresa, por sua vez, se conecta a um sistema de economia criminal. Nessa altura, uma resposta ostensiva de uma polícia já não é suficiente porque temos de entender o negócio para atacá-lo. Entender como as movimentações bancárias se conectam, como se ligam a empresas formais. E quem entende desse assunto é o setor privado, não a polícia. Então, o setor privado tem nos ensinado muito e nos levado a montar e conectar uma grande base de dados para obter a lógica do funcionamento das organizações. 

As facções brasileiras que atuam na fronteira são uma preocupação para o governo colombiano?

O tema do narcotráfico interessa ao Brasil e à Colômbia e chama atenção para a região de fronteira que também dividimos com o Peru. Nessas áreas, há hegemonias territoriais. Agora mesmo, as estruturas da Família do Norte, por exemplo, atuam e levam da Colômbia para o Brasil maconha e cocaína. É uma zona estratégica e que não podemos permitir que seja afetada mais do que já acontece. Temos que montar um mecanismo binacional comum para atuar contra esse tipo de criminalidade.

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