Centro sobre missões de paz que Jobim quer criar já existe

Exército pôs em prática em ação no Rio táticas desenvolvidas no Haiti

Tahiane Stochero, do estadao.com.br,

04 Setembro 2007 | 15h15

O ministro Nelson Jobim assumiu há dois meses a Defesa, mas ainda não foi totalmente informado sobre os órgãos que compõem as Forças Armadas, subordinadas ao ministério. Nesta segunda-feira, em visita aos soldados brasileiros no Haiti, Jobim defendeu a criação de um centro de operações de paz no Brasil que integre o conhecimento adquirido no trabalho na missão da ONU no país caribenho. Mal sabe ele que este centro já existe. Leia também: - Jobim admite militares na segurança Criado oficialmente em 2005 no Rio de Janeiro, o Centro de Instrução de Operações de Paz (CIOpPaz) reúne militares que trabalharam em missões de paz das Nações Unidas em diversos países e é responsável pelo treinamento e capacitação para quem irá participar das dez missões que o Brasil participa atualmente, entre elas Sudão e Timor Leste. O local abriga lembranças vivas do Haiti: a cadela vira-lata Tiremasse e seu filho, o cão Ponto-Forte. Tiremasse, novo de uma rua de Porto Príncipe, a capital haitiana, veio para o Brasil de avião junto com militares cariocas em dezembro de 2005. O CIOpPaz tem ambientes que reproduzem exatamente o teatro de operações no Haiti, onde o Brasil comanda as tropas internacionais, e realiza treinamentos que simulam os combates reais que os militares enfrentarão lá. O Know-how brasileiro e o sucesso na pacificação de regiões violentas da capital haitiana fazem com que estrangeiros, principalmente norte-americanos e europeus, procurem o Exército para intercâmbio de informações, na tentativa de descobrir o segredo do Brasil, explica o chefe do centro, o tenente-coronel André Novaes. O grande aprendizado, segundo ele, foi do ponto de vista tático. Os brasileiros desenvolveram técnicas para atirarem sem serem alvo fácil das gangues haitianas e respeitarem as regras de engajamento da ONU, que exige proporcionalidade na reação. Os três anos da presença brasileira no Haiti foram integrados em um livro de caráter reservado pelo Centro de Instrução de Operações de Paz, reunindo as melhores técnicas de ação para combate urbano. Um exemplo é a presença de um quartel-general no coração da área invadida, o que, segundo o coronel Novaes, é um dos segredos do sucesso dos brasileiros na pacificação das regiões mais violentas do Haiti. Após grandes operações, os militares transformam uma edificação alta até então utilizada pelos bandidos em um "Ponto-Forte", espécie de base avançada a partir da qual buscam consolidar sua presença na região e irradiar influência. O objetivo é a conquista e a atuação dentro do território do inimigo . "A gente entrava no lugar problemático e ficava, não saía mais", diz o oficial. Novaes aponta que a estratégia pode ser transportada para qualquer lugar do mundo, inclusive para o Rio de Janeiro, assim como a forma como são realizadas as megaoperações comandadas pelo Brasil no Haiti: incursões coordenadas em vários locais ao mesmo tempo, iludindo os criminosos sobre a real intenção dos militares. A tática, testada por Novaes em 2005 quando comandou tropas do Exército brasileiro no Haiti, foi colocada em prática na Mangueira quando o Exército subiu o morro para recuperar as armas roubadas: as tropas avançaram pela frente do morro até uma linha imaginária a partir da qual receberiam ataque dos criminosos. Enquanto os traficantes se mobilizavam para conter o avanço dos militares por um lado, soldados tomaram o morro do outro lado, pelas costas dos bandidos. "Quando viram, a gente já estava lá encima, no topo da Mangueira, e eles não tinham saída. A área era nossa. A resistência que enfrentei na Mangueira foi muito menor do enfrentávamos no Haiti. Quando tomamos o topo, não havia outra solução. Se descêssemos, seria difícil subir novamente. Resolvemos então ficar para manter nossa presença, instalando pontos-fortes no morro", lembra o tenente-coronel. Outra tática é posicionamento de "caçadores" (snipers), atiradores do Exército que conseguem acertar um alvo a até 600 metros. Eles são estrategicamente posicionados nos pontos mais altos de uma região e, com uma visão ampla, são os primeiros a avistar os inimigos, podendo eliminá-los ou alertar os companheiros. Novaes aponta que o posicionamento dos atiradores é uma estratégia adotada em todas as operações e patrulhas no Haiti e já salvou a vida de muitos brasileiros na missão. Grande aprendizado Segundo o coronel Novaes, a participação na missão da ONU tem rendido ao País um grande aprendizado e o desenvolvimento de líderes, que, ao viverem situações de confronto e pressão 24 horas por dia, têm de manter o controle psicológico dos comandados e tomar decisões importantes. Um dos exemplos de avanços em equipamentos é o que houve com o Urutu, o blindado brasileiro que deixava o atirador e o motorista expostos a tiros. A necessidade fez com que o carro ganhasse uma proteção especial, uma cabine que abriga os militares, além de uma pá para remover o lixo, que se acumulava nas ruas haitianas. Criou-se ainda a Urutulância, um blindado que foi transformado em ambulância para poder atuar nos enfrentamentos. De mudança Centro de Instrução de Operações de Paz é um dos órgãos mais novos do Exército e pode deixar a Força. Há discussões para que, até o final do ano, o órgão passe a ser subordinado ao Ministério da Defesa, obedecendo diretamente às ordens de Jobim.

Mais conteúdo sobre:
haiti rio jobim onu

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.