Cerca de 12 mil pessoas lotam cemitério no enterro de Eloá

Mãe da menina se manteve firme durante o cortejo; irmão mais novo recebeu atendimento

O Estadao de S.Paulo

22 Outubro 2008 | 00h00

Por onde quer que eu vá vou te levar pra sempre / A culpa não foi sua / Os caminhos não são tão simples, mas eu vou seguir / Toda vez que eu fecho os olhos é pra te encontrar / A distância entre nós não pode separar / O que sinto por você não vai passar. O trecho da música 1 Minuto, do D?Black, canção preferida de Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, estava estampado ontem nas camisetas usadas por parentes e amigos no enterro da adolescente em Santo André. A Guarda Municipal estimou em 12 mil as pessoas presentes no sepultamento, que começou às 9 horas e durou 40 minutos. Entre a tarde de anteontem e a manhã de ontem, cerca de 38 mil visitantes passaram pelo cemitério. Seguindo o cortejo, amigos de Eloá ligaram celulares com MP3 e tocaram a canção para Eloá. O caminho e o jazigo foram isolados para a passagem dos familiares, que seguiram protegidos da multidão por dois cordões humanos, formados por policiais e amigos. Durante todo o trajeto, Eloá foi aplaudida por quatro vezes. A mãe da garota, Ana Cristina Pimentel, de 42 anos, foi amparada pelos dois filhos, uma tia e uma enfermeira do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Não deixou rolar uma lágrima e fez sinais afirmativos com a cabeça para familiares em sinal de que estava bem. "No caminho, dizia para ela levantar a cabeça, respirar fundo, que conseguiria passar por tudo isso", disse a enfermeira Silvana Gomes, que esteve ao seu lado. "Ela se emocionou com o número de pessoas que compareceram ao enterro e disse que a energia do povo a ajudou", contou Silvana. Na noite de anteontem, durante o seu primeiro pronunciamento, Ana Cristina já havia agradecido a solidariedade e surpreendeu ao afirmar que perdoara Lindemberg. "Eu perdôo Lindemberg (assassino de Eloá), mas espero que a justiça seja feita", disse a mãe da adolescente. Ana Cristina também elogiou a ação da polícia. "Minha filha está feliz. Cumpriu a sua missão aqui na Terra, deu vida a outras pessoas", disse na segunda-feira. Durante o enterro, Douglas, de 14 anos, o irmão mais novo de Eloá, sentiu-se mal e pediu para deixar o local. "Tenho de ficar forte neste momento para ajudar ao meu pai e à minha mãe. Acho que é Deus que está me dando forças para suportar", desabafou o adolescente, horas antes, na madrugada de ontem, durante o velório da irmã. Aldo José da Silva, o pai de Eloá, que se chama Everaldo Pereira dos Santos, não foi ao enterro nem ao velório. Segundo familiares, ele está internado desde anteontem por ter sofrido crise de hipertensão. No entanto, ele está foragido da Justiça de Maceió desde 1993. Amigos de Eloá estavam bastante emocionados na cerimônia. "Não tenho o que falar. Não imaginei que Lindemberg fosse fazer o que fez", desabafou o estudante Victor, de 15 anos, que ficou nove horas em poder do seqüestrador. "O que fica, depois da tristeza e da revolta, é simplesmente a saudade", resumiu outro amigo, Paulo Henrique Monteiro, que passou a noite no cemitério. Os pais de Nayara, melhor amiga de Eloá, e policiais que participaram das negociações com Lindemberg também prestaram solidariedade à família. O secretário da Justiça e Defesa da Cidadania do Estado, Luiz Antonio Marrey, representou o governador José Serra (PSDB) no enterro. "Foi uma tragédia. É a perda de uma vida na mão de um assassino perturbado que achou que tinha o direito de tirar uma vida humana para satisfazer seu sentimento vil de propriedade em relação a uma pessoa tão jovem e tão cheia de vida", declarou. Além de autoridades, pessoas desconhecidas também compareceram ao sepultamento de Eloá. Muitos, no meio da multidão, levaram faixas e cartazes para homenagear a jovem. Um deles, o operador de empilhadeira e também cartunista Mário Vital, de 34 anos, fez uma caricatura de Eloá e pediu para que todos seus familiares assinassem próximo ao desenho. "É um simples gesto, mas que será entregue ao nosso próximo prefeito e ao governador do Estado. Queremos que esse criminoso pague", disse Vital, acompanhado da esposa, da sogra e dos filhos de 6 e 12 anos. Na despedida à filha, Ana Cristina jogou no túmulo, após a descida do caixão, três botões de rosas vermelhas. Deu um longo suspiro e abraçou o filho mais velho. Coroas de flores foram depositadas no local. Depois do enterro, ela voltou à sala do velório. Lá, Ana Cristina sentou no sofá, com a cabeça apoiada no encosto, e olhando para cima ficou cerca de 15 minutos antes de ir embora. AMIGOS O estudante Diego Vinícius, de 16 anos, amigo de Eloá na escola, vestido com uma camiseta com a foto da jovem, confidenciou que, por diversas vezes, Eloá reclamara da agressividade de Lindemberg. Ele chegou a bater na estudante após o fim do namoro. "Ele (Lindemberg) discutia muito com ela, por causa de ciúmes da internet. Ele pedia para ela reatar o namoro e Eloá não queria." Paulo Monteiro disse que Eloá já tinha avisado seus pais das agressões do ex-namorado. "Mas quando os pais perguntavam para ele, Lindemberg chorava e negava tudo." Priscila Takeda, outra amiga da jovem, chorou o tempo todo. "Eloá era a menina que tinha mais cabeça. Dava conselhos para todos mundo e fará muita falta." Antes do sepultamento, amigos de escola, parentes e membros da Congregação Cristã do Brasil - igreja dos pais de Eloá - realizaram um culto ecumênico ao redor do caixão da adolescente. CURIOSOS Milhares de curiosos que acompanharam o drama de Eloá pela televisão se sensibilizaram com o desfecho trágico do caso e foram ontem ao cemitério. Os cobradores de ônibus Rogério Lucena, de 17 anos, e David Santos da Silva, de 18, deixaram Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, por volta das 6 horas e às 8 horas chegaram a Santo André em um Corsa. O veículo foi "personalizado" pelos amigos, que colocaram um braço de brinquedo no porta-malas, como se o membro estivesse esmagado. Acima havia um decalque preto com o nome Lindemberg. "O sentimento é de ódio e vingança", disse Rogério. "Nós viemos escondidos dos nossos pais. Vamos trabalhar direto." Além dos meninos, também estiveram no cemitério os estudantes Francisco da Silva, de 18 anos, e Sidnei Bressiani, de 15. A dupla partiu de Jundiaí. "Nós nos conhecemos na comunidade de Eloá, no Orkut, e fizemos amigos que estão aqui", contou Sidnei. "Ficamos sem dormir toda a semana passada. Foi muito chocante", afirmou. Cerca de 20 metalúrgicos da região também acompanharam o enterro. "Trabalhamos a noite toda, mas fizemos questão de homenagear a família da Eloá. Ficamos tocados com o caso", disse Ivanildo Marques. A aposentada Margarida Ferreira, de 68 anos, passou mal por causa do sol. "Eu moro aqui pertinho. Resolvi vir pela curiosidade, mas logo vou embora por causa do tumulto." Para agüentar a noite em claro, cinco amigos levaram bolo, café e água. Os alimentos foram distribuídos entre eles no começo da manhã de ontem no meio do gramado do cemitério. MARCELA SPINOSA, CAMILLA HADDAD, DANIELA DO CANTO e VITOR HUGO BRANDALISE

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