Cerco da PF quebra blindagem e Rossi, 4º a cair, vê complô contra PMDB e PT

Titular da Agricultura não resiste a denúncias e deixa cargo; em carta a Dilma, peemedebista vê 'campanha indecente voltada apenas para objetivos políticos' e alega que saiu a pedido de familiares e amigos que, segundo ele, foram expostos

João Domingos, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2011 | 00h00

Pressionado por denúncias de corrupção, tráfico de influência e desvio ético, o ministro da Agricultura, Wagner Rossi (PMDB-SP), pediu demissão ontem. Na carta que entregou à presidente Dilma Rousseff, o peemedebista alega ser vítima de um complô político cujo objetivo seria atingir a aliança PMDB-PT, sobretudo em São Paulo. Para não mexer no loteamento da Esplanada, Dilma delegou ao PMDB a escolha do substituto. Ontem à noite mesmo, o vice-presidente Michel Temer sugeriu o nome do líder do governo no Congresso, deputado Mendes Ribeiro (RS), para o cargo.

Afilhado de Temer, Rossi recebera uma sobrevida do Planalto em troca de uma faxina nos postos abaixo dele, quase todos ocupados por protegidos ou parentes de políticos amigos. Mas a entrada Polícia Federal no caso para investigar as suspeitas de fraudes na Agricultura e o surgimento de relações cada vez mais perigosas para Rossi trincaram a blindagem e aceleraram a queda. Ele alegou que atendeu ao pedido da esposa e dos filhos para se afastar do cargo.

Rossi é o quarto ministro a cair num prazo de dois meses e dez dias. A primeira queda foi de Antonio Palocci (Casa Civil) na esteira de denúncias de suposto enriquecimento ilícito e aumento do patrimônio em 20 vezes, Em seguida, Alfredo Nascimento (Transportes) não resistiu às denúncias de corrupção na pasta. O outro foi Nelson Jobim (Defesa), obrigado a se afastar após ter criticado ministras do PT.

Na carta, Rossi reclamou de ataques à sua família. O filho do ex-ministro, o deputado estadual Baleia Rossi, é presidente do PMDB estadual. "Finalmente começam a atacar inocentes, sejam amigos meus, sejam familiares. Todos me estimularam a continuar sendo o primeiro ministro a, com destemor e armado apenas da verdade, enfrentar essa campanha indecente voltada apenas para objetivos políticos, em especial a destituição da aliança de apoio à presidenta Dilma e ao vice-presidente Michel Temer, passando pelas eleições de São Paulo onde, já perceberam, não mais poderão colocar o PMDB a reboque de seus desígnios", escreveu Rossi. Ele disse ser vítima de uma "saraivada de acusações falsas" e afirma ter rebatido todas as denúncias.

"Usaram para me acusar, sem qualquer prova, pessoas a quem tive de afastar de suas funções por atos irregulares ou insinuações de que tinham atuado com interesses menos republicanos nas funções ocupadas", afirmou ele, numa referência ao ex-diretor financeiro da Companhia Brasileira de Abastecimento (Conab) Oscar Jucá Neto, e o ex-chefe de licitações do Ministério da Agricultura Israel Leonardo Batista. Os dois acusaram Wagner Rossi de corrupção.

O empurrão final para que o ministro da Agricultura entregasse o cargo foi dado nos últimos dois dias, com a notícia, publicada no Correio Braziliense, segundo a qual ele e familiares utilizavam um jatinho da empresa Ourofino, que tem negócios com o Ministério da Agricultura. Antes, reportagem da revista Veja mostrara o lobista Júlio Fróes, amigo da cúpula da pasta, atuando nas licitações.

Questionado, Rossi negou que as viagens seriam antiéticas. Mas o caso se enquadra no Código de Ética e Conduta dos Servidores Públicos. De acordo com informações de bastidores do Palácio do Planalto, o vice Michel Temer entendeu que não dava mais para segurar o afilhado, amigo de 30 anos e ex-cunhado. A saída de Rossi, em meio a tantas denúncias, já vinha sendo entendida pelos peemedebistas como fato consumado.

Nota de Dilma. A presidente fez questão de divulgar uma carta na qual lamentou "profundamente" a saída de Rossi, afirmando que ele "deu importante contribuição ao governo com projetos de qualidade que fortaleceram a agropecuária brasileira". Dilma agradeceu, também, "o empenho" e "a dedicação". Em seguida, concluiu: "Lamento ainda que o ministro não tenha contado com o princípio da presunção da inocência, diante das denúncias contra ele desferidas".

Rossi estava no governo desde 2007. Primeiro, com a ajuda de Temer, que é presidente licenciado do PMDB, assumiu a presidência da Conab. Em abril de 2010, substituiu Reinhold Stephanes no Ministério da Agricultura. Em dezembro, Dilma Rousseff atendeu ao pedido de seu vice eleito e confirmou a permanência de Rossi à frente da Agricultura.

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