Chacina em cidade do oeste do Paraná deixa 15 mortos

Ao menos mais 8 pessoas ficaram feridas; polícias Civil, Militar e Federal investigam crime na cidade de Guaíra

Evandro Fadel e Miguel Portela, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2008 | 18h36

Uma disputa entre gangues de traficantes e contrabandistas brasileiros da região oeste do Paraná, provavelmente com ramificações no Paraguai, provocou a morte de 15 pessoas e o ferimento em outras oito no início da tarde desta segunda-feira, 22, em Guaíra, a cerca de 640 quilômetros de Curitiba.   As primeiras informações da polícia apontam que a causa do massacre foi uma dívida de R$ 4 mil e a vingança pela morte recente de um membro de uma das quadrilhas. "É uma guerra do tráfico de drogas e não propriamente uma chacina", disse o secretário da Segurança Pública do Paraná, Luiz Fernando Delazari.   Pelo menos 200 homens das polícias Federal, Civil, Militar e Rodoviária Federal e Estadual estão mobilizados na captura dos autores, mas provavelmente eles fugiram para o Paraguai. O delegado da Polícia Federal em Guaíra, Érico Saconato, disse nesta noite que já pediu ajuda à polícia paraguaia para ajudar na captura.   De acordo com ele, três homens provocaram as mortes em uma chácara na Vila Santa Clara, às margens do lago de Itaipu, que tem servido a traficantes e contrabandistas para trazer mercadorias do Paraguai ao Brasil. A chácara fica a cerca de 3 quilômetros do centro de Guaíra.   No local vistoriado pela polícia foram encontradas cápsulas de espingarda calibre 12, pistolas 9 milímetros e revólveres calibre 38. "Não vamos permitir que quadrilhas coloquem em risco a tranqüilidade dos moradores do município", acentuou o secretário da Segurança Pública em entrevista coletiva à tarde.   De acordo com a Polícia Federal, o interesse dos matadores era por quatro pessoas, mas eles obrigaram Jocemar Marques Soares, conhecido como Polaco, a chamar também outros integrantes da quadrilha. Polaco seria o intermediário entre as quadrilhas e era o dono da chácara. Ele já esteve preso por tráfico de drogas. "A chácara era o lugar de reunião", disse Saconato.   Conforme as pessoas iam chegando eram dominadas em um galpão da chácara e depois foram mortas. Algumas, mesmo feridas, conseguiram fugir. Outras morreram nas imediações do galpão. O secretário afirmou que a polícia já sabe quem é o chefe dessa quadrilha, mas preferiu não revelar o nome para não atrapalhar as buscas. Os levantamentos feitos e o depoimento de alguns feridos apontam que eles vieram provavelmente do Paraguai, atravessando o lago de Itaipu com um barco, mesmo meio de transporte utilizado para a fuga.   Alguns dos sobreviventes, que foram ouvidos pela polícia, disseram que os homens chegaram perguntando quem iria pagar a dívida. "Mas eles queriam eram quatro pessoas, que foram justamente as últimas a chegar", disse o delegado da PF. Alguns dos mortos já tinham passagem pela Polícia Federal ou pela Polícia Civil da cidade, sob acusação de tráfico e contrabando.   A polícia investiga a ligação dos feridos com a quadrilha. Entre os oito, cinco ainda estavam hospitalizados. Na chácara foram encontrados três veículos com placas de Curitiba, Uberlândia (MG) e Osvaldo Cruz (SP). Um helicóptero e um avião do governo do Estado seguiram para a região de Guaíra para ajudar nas buscas e levar policias dos grupos de elite.   Drogas e polícia   Segundo Delazari, as apreensões de drogas e, em conseqüência o consumo, têm aumentado muito no Estado. No ano passado, foram apreendidos 1.057 quilos de cocaína, cerca de 1,2 milhão de pedras de crack e 104,8 mil quilos de maconha, enquanto até agosto deste ano os volumes chegaram a 626 quilos de cocaína, 1,3 milhão de pedras de crack e 76,2 mil quilos de maconha.    "O ambiente da droga é uma bala, quem está nesse ambiente está sujeito a isso", acentuou o secretário. "Todos os dias morrem gente aqui, em São Paulo, no Rio de Janeiro, no mundo. Só não é comum 15 mortos de uma vez como agora."   Delazari ressaltou que a polícia do Estado tem feito um trabalho integrado com a Federal para combater o tráfico e o contrabando em toda a região de fronteira. "Ali, o trabalho é absolutamente intenso", reforçou. No início da tarde havia uma informação sobre duas crianças que estariam desaparecidas, mas o secretário afirmou que os boatos não procediam.   Opção para o tráfico   A cidade de Guaíra, com 28.863 habitantes (censo de 2007 do IBGE), é considerada pelos órgãos de segurança brasileiros, como a Polícia Federal e Receita Federal, uma das principais portas de entrada de armas, munição, drogas e contrabando para o Brasil.   De acordo com a polícia brasileira, a região, que faz fronteira com o Paraguai, tem a presença de quadrilhas organizadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e Fernandinho Beira-Mar, preso desde junho de 2007 na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS).   Os dois principais grupos criminosos montaram células de apoio em várias cidades da fronteira com o Brasil e Paraguai. Mesmo preso, Beira-Mar mantém ativa a estrutura do tráfico de drogas do outro lado da fronteira. Já o PCC atuaria livremente no país vizinho onde os integrantes da facção estariam envolvido com assaltos, assassinatos e tráfico de drogas, armas e munição.   Os criminosos contam com a corrupção policial e da fragilidade da fiscalização para agir livremente na fronteira, principalmente no eixo entre Salto Del Guairá, cidade paraguaia, Guaíra e Mundo Novo (MS). No entorno da cidade paranaense, aparece como a principal rota da cocaína no mapa do tráfico de drogas do País.   Um estudo da Polícia Federal revela que cerca de 40% de todo o contrabando que entra no Brasil, pela fronteira brasiguaia, passa pela região de Guaíra e Mundo Novo. Para as autoridades, a escalada de violência no município coincide com o aumento da fiscalização da Receita Federal na Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu.   Muitos contrabandistas e traficantes migraram para a região, onde o efetivo de segurança é frágil. A Polícia Federal não informa o efetivo por questões de segurança, mas o número de agentes não ultrapassa a 20, enquanto a fiscalização da Receita é praticamente inexistente.   Para aumentar a segurança na região, a Procuradoria da República em Umuarama, cidade do noroeste paranaense, protocolou em fevereiro deste ano, junta à Justiça Federal, ação contra a União, pedindo aumente do número de servidores da Receita Federal e da Polícia Federal de Guaíra.   A Procuradoria justifica que o contrabando e o tráfico de drogas resultam em outros crimes, como roubos e homicídios nas cidades de fronteira com o Paraguai. Para a Procuradoria, o aumento do número de fiscais da Receita e de policiais na região de fronteira haverá diminuição da criminalidade no Paraná e também em outros Estados da região Sudeste. Até agora não houve reposta do governo federal.   Atualizado às 20h42 para acréscimo de informações

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