Charge de Lula leva Minas a fechar sistema de provas

Secretaria de Educação considerou questão em uma prova ''totalmente inadequada'' e tirou banco de dados do ar para revisão

Marcelo Portela, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

BELO HORIZONTE

A Secretaria de Educação de Minas estuda uma forma de controlar o conteúdo do banco de dados usado na elaboração das provas da rede estadual de ensino. O sistema, que permite a cada professor, com uso de senha pessoal, gerar aleatoriamente os exames com base em 56.707 itens (perguntas e respostas), foi retirado do ar após protestos dos partidos de oposição ao governador Antonio Anastasia (PSDB).

O motivo da reclamação foi a utilização de uma charge com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma prova do Programa de Avaliação da Aprendizagem Escolar (PAAE) aplicada a alunos do ensino médio. Na charge, Lula aparece dando dinheiro a políticos e a resposta correta para a interpretação do desenho era que "sugere, ironicamente, uma relação entre os movimentos sindicais do início da década de 1980 e o mensalão, refletindo sobre o processo histórico que levou os mesmos personagens de uma luta pela valorização do trabalhador à corrupção política".

Fora do ar. A Secretaria de Educação considerou a inclusão da questão em uma prova de história "totalmente inadequada" e determinou que o sistema fique indisponível enquanto todos os itens não forem revisados. Por sua assessoria de imprensa, informou que o sistema foi montado em 2007, período em que professores de várias instituições foram contratados para elaborar as questões. Entre 2007 e 2009, foram inseridos 36.507 itens no banco de dados, mas nenhum foi revisado. As revisões começaram apenas em janeiro de 2010, quando foram inseridos outros 20.200 itens no banco de dados.

De acordo com a secretaria, contudo, todas as questões, mesmo antes da revisão, deveriam ser elaboradas com base em um manual do próprio órgão, que recomenda evitar "temas relacionados a preconceito e discriminação", "abordagens fora do contexto, muito genéricas ou restritivas" e "abordagens de pregação religiosa ou ideológica".

A questão que gerou toda a polêmica e "contradiz integralmente" as regras do manual foi elaborada pelo professor Frederico Alves Pinho, de 31 anos, da rede pública estadual, mas a secretaria adiantou que ele não pode ser responsabilizado pelo caso e assumiu o ônus no caso por não ter feito a revisão dos itens. Na prova que tinha a charge de Lula havia também uma questão sobre as privatizações da era FHC. A resposta certa era que elas "reduziram o déficit público para permitir ao governo direcionar recursos para áreas sociais".

Agora, segundo a assessoria, a secretária Ana Lúcia Gazolla determinou uma consulta jurídica para verificar de que forma será feita a revisão do conteúdo. Até lá, o sistema ficará fora do ar e o PAAE, realizado no início e fim de cada ano letivo, suspenso. E os professores terão de elaborar manualmente as questões das provas aplicadas nas salas de aula. O Estado não conseguiu localizar o professor Frederico Pinho.

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