Sérgio Castro|Estadão
Sérgio Castro|Estadão

Chef cria 'central do desapego' em casa

Letícia tem cantinho onde deixa comida, café, água e outros itens para quem passa por ali

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

13 Novembro 2016 | 06h00

Há 16 anos em São Paulo, a mineira Letícia Massula, de 45, sempre sentiu falta do costume de receber e ir à casa de conhecidos só para um café no meio da tarde. Cozinheira profissional, ela ainda se preocupava com o desperdício das comidas que preparava para sessões de fotografia. Há um ano, descobriu uma solução para os dois incômodos: montou na frente de casa, na Rua Doutor José Almeida Camargo, na Vila Madalena, zona oeste da capital, a Central do Desapego, onde coloca as refeições que prepara, cafezinho e água gelada para quem passa pela rua.

“Cresci no interior de Minas e de Goiás, lá as pessoas vão nas casas umas das outras para tomar água ou café sem precisar de convite. Nunca me acostumei com esse jeito de São Paulo, por isso aproveitei uma área coberta da minha casa para que quem passasse por aqui pudesse fazer isso também”, conta.

Letícia diz que muitas pessoas que trabalham na rua, como garis, catadores de papel e vendedores de gás, costumam parar para beber água ou fazer um lanchinho à tarde. Ela tem um pomar em casa e costuma pôr as frutas que colhe na central, mas também já serviu terrine de fígado e tender que havia feito para sessões de fotografia.

“As crianças do bairro que passam por aqui com os pais também gostam muito porque é uma experiência inusitada para elas, que cresceram em cidade grande, esse contato com vizinhos ou desconhecidos. Por ser uma cidade muito grande e muito corrida, temos dificuldade de nos relacionar até mesmo com pessoas próximas.”

Apaixonada pela gastronomia brasileira, Letícia também encontrou na central uma forma de difundir ingredientes menos conhecidos. Cará moela, farinha uarini e tucumã já foram doados por ela. “Os vizinhos e amigos também pegam esses ingredientes e depois me contam como usaram, dividimos receitas e é uma troca superlegal. É uma maneira de difundir a comida brasileira”, diz.

Além das comidas, Letícia também coloca mudas de planta do seu quintal, livros e roupas. Alguns amigos também passaram a deixar itens para doação. “É uma coisa simples, coloco o que tenho para doar. Outro dia não tive tempo para fazer café e coloquei duas cervejinhas. Elas saíram rapidinho.”

Corrente. Letícia conta que já recebeu presentes também de pessoas que foram até a central. Ela já ganhou mudas de planta, sementes e arranjos de flores. “É uma troca de energia muito bacana. Estou mais próxima dos meus vizinhos, da cidade, e me sinto até mais segura na minha casa depois que comecei com a central.”

Como a casa fica próxima do Beco do Batman, galeria de grafite a céu aberto, muitos turistas também param na central por curiosidade e para fotos. “Acabo conhecendo muita gente. Outro dia, um grupo de chineses parou aqui, não conseguimos trocar uma palavra, mas foi uma troca de experiências muito legal. Eles tiraram fotos, tomaram um café e deram muita risada”, conta.

Ela diz que muitas pessoas também já a procuraram para replicar a ideia em seus bairros. A dica que Letícia dá a elas é que realmente “desapeguem” do que forem doar ou do controle da situação. “No começo, eu tinha medo que passaria uma única pessoa e levaria tudo. Isso nunca aconteceu, mas quando você faz uma doação é importante desapegar mesmo. É entregar para o mundo, não tem de ter limitação”, diz. 

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