EMATER/MG - 12/01/2022
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Por que está chovendo tanto em algumas regiões do Brasil e falta água em outros locais

Enquanto Norte, Centro-Oeste e Sudeste registram temporais, Sul tem onda de calor com temperatura que pode chegar a 45ºC nesta semana. Soma de fenômenos é responsável por climas extremos, dizem especialistas

Luiz Henrique Gomes, especial para o Estadão

13 de janeiro de 2022 | 15h00

Enquanto o sul da Bahia e as regiões NorteCentro-Oeste e Sudeste do Brasil registram chuvas intensas neste verão, uma onda de calor chegou ao Rio Grande do Sul e elevou a temperatura em diversas cidades. Uruguaiana, por exemplo, registrou máxima de 38,2ºC na terça-feira, 11 - a maior temperatura do dia em todo o Brasil, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Mas, afinal, por que algumas regiões do País registram tantas chuvas e outras têm seca?

A resposta dos meteorologistas é principalmente a existência de dois fenômenos climáticos diferentes atuando sobre o Brasil no mesmo momento: o La Niña, causador de chuvas no Norte e seca na região Sul; e a zona de convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que explica as chuvas que caem atualmente no Centro-Oeste e no Sudeste. A intensidade desses fenômenos, no entanto, se relaciona com uma sequência de anos secos, com alteraçoes de pressão no Sul e, em parte, com o aquecimento global.

O que explica as chuvas intensas observadas nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste nas últimas semanas?

O principal causador das chuvas é a Zona de Convergência do Atlântico Sul, descrita como um sistema meteorológico tradicional no Brasil em que se forma um "corredor" de umidade que vai desde a Amazônia, no Norte, até o Sudeste do Brasil, em direção ao Oceano Atlântico Sul. A formação deste corredor tem pequenas variações cada vez que o fenômeno ocorre. Em dezembro, por exemplo, o Sul da Bahia foi a principal área atingida pelas chuvas.

Quando o evento ocorre com intensidade, as nuvens se tornam tão densas que ficam praticamente estacionadas em uma única região, provocando muita chuva sobre as mesmas áreas por, pelo menos, 4 dias consecutivos. “É um fenômeno típico do verão”, diz a meteorologista Estael Sias, da MetSul Meteorologia.

Segundo o Inmet, as chuvas intensas registradas em Minas Gerais nos últimos dias, por exemplo, foram causadas pela presença de nuvens estacionadas na região entre os dias 6 de janeiro até o dia 10. 

Outro fator apontado pelo Inmet é a presença de um centro de baixa pressão sobre a região Sul, em médios níveis da atmosfera. Esse fenômeno contribuiu  para a intensificação do transporte de umidade sobre o centro-leste e sudeste de Minas Gerais. “Por isto, as chuvas ocorreram de forma praticamente contínua com intensidade fraca a moderada nestes setores mineiros”, afirma o Inmet.

O fenômeno La Niña também influencia nas chuvas registradas no País. Ele ocorre quando as águas do Oceano Pacífico esfriam, causando uma série de mudanças no clima de diversos países. No Brasil, ele é caracterizado por chuvas fortes e abundantes e aumento do fluxo dos rios no Norte e no Nordeste, e seca no Sul.

Como o fenômeno causa as secas no Sul?

À medida em que o La Niña facilita as chuvas no sul da Amazônia, ele interfere na seca da região Sul. Aliado a isso, a região também sofre a interferência de uma área de alta pressão atmosférica, inibindo a formação de nuvens e, consequentemente, elevando as temperaturas e reduzindo a umidade do ar.

Com menos presença de nuvens, a incidência solar é maior e aumenta a evaporação da água. “Quanto mais alta a temperatura, maior a evaporação, secando mais a região”, explicou o climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo Nobre, este é o segundo ano seguido que o fenômeno La Niña acontece. Com as consequências do fenômeno passado, esse tende a esquentar ainda mais porque o solo já vem de uma estiagem. “Quando a água do solo evapora, os ventos costumam esquentar. Como já tínhamos pouca água pela seca que vem de outros anos, esse ano o calor é ainda mais intenso”, disse.

O climatologista explica ainda que o fenômeno deste ano é um pouco acima da média dos registrados em anos anteriores, apesar de não ser tão intenso quanto outros. “A chuva, como um todo, vai ser abaixo da média”, afirmou.

A seca com a onda de calor no Sul e no Centro-Oeste trazem impactos econômicos: a estimativa de perdas para o agronegócio é de R$ 45 bilhões, segundo a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (Feco-Agro).

Qual a previsão para os próximos dias nas diversas regiões do País?

Segundo o Inmet, a onda de calor deve continuar em um nível considerado perigoso no Rio Grande do Sul. A temperatura pode chegar aos 45ºC no oeste do Estado; e o calor também pode ser intenso em Porto Alegre e região metropolitana. 

Já as chuvas devem ser registradas no sul do Amazonas, parte do Norte e todo o Centro-Oeste. O Nordeste, com exceção da Bahia, também deve registrar chuvas.

O Inmet prevê que a partir desta quinta-feira, 13, e principalmente da sexta-feira, retornem as temperaturas mais elevadas para o Estado de São Paulo, que deve ser uma constante no verão de 2022. No final de semana, a capital volta a ter temperaturas máximas acima dos 30°C. Em Minas Gerais, as chuvas devem perder força a partir desta quinta-feira. 

Até quarta-feira, no entanto, o Inmet ainda emitia um alerta de perigo de chuvas para os estados do Pará, Amazonas, Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Minas Gerais e São Paulo.

O aquecimento global afeta os fenômenos de chuvas e seca?

Na avaliação do climatologista Carlos Nobre, o fenômeno do aquecimento global não afeta diretamente o modo como o fenômeno La Niña e a zona de convergência do Atlântico Sul (ZCAS) funcionam, mas influi localmente. Com o aumento da temperatura, o ar se torna mais quente, a evaporação aumenta e as chuvas e as secas se tornam mais intensas. “Isso causa mais chuvas, em lugares com muita umidade, e mais seca em lugares em que já há pouca água”, disse.

A meteorologista Estael Sias, da MetSul Meteorologia, concorda. “A gente está vendo as mudanças climáticas se tornarem fato”, aponta Estael. “Os eventos estão ficando cada vez mais extremos. Se a gente levava cem, duzentos anos pra ter um evento de chuva de 500, 600 mm, agora, nos parece que todo ano está acontecendo.”

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