Chuvas deixam mais de 7 mil desalojados na Bahia

27 municípios decretaram emergência na última semana, entre eles Salvador; segundo a Defesa Civil, Estado tem mais de 3 mil desabrigados e pelo menos cinco mortos pelo mau tempo

Tiago Décimo, de O Estado de S. Paulo

15 de abril de 2010 | 18h32

Moradores enfrentam inundação na Rua Lindolfo Barbosa, em Vila Canária, Salvador. Foto: Rogério Ferrari/Agência A Tarde

 

SALVADOR - Vendo o estrago que a chuva fazia em seu bairro, a Vila Canária, em Salvador, na noite desta quinta-feira, 15, Albertina Santos de Jesus, 31 anos, três filhos - de 3, 4 e 8 anos -, decidiu deixar sua casa e buscar abrigo com uma tia, que mora a não mais de dois quilômetros de seu imóvel. Na manhã de hoje, quando a força da chuva diminuiu, Albertina decidiu voltar para casa, para checar se já era possível levar os filhos - ou ao menos pegar roupas para as crianças. Ao chegar, viu que seu imóvel, construído durante cinco anos, não passava de um monte de entulho.

 

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"A gente luta para ter nossa casa, para comprar umas coisinhas, aí vem uma chuva e leva a vida inteira embora", desabafou, chorando, sentada no meio-fio, na frente da antiga residência. "Pelo menos dei a sorte de tirar meus filhos daqui antes disso."

 

A Vila Canária já havia testemunhado uma tragédia na noite desta quinta: dois meninos, Pablo e Gabriel, de 2 e 6 anos, morreram depois que um deslizamento de terra destruiu a parede do quarto no qual dormiam. Depois disso, três imóveis ruíram totalmente no bairro, o de Albertina e dois abandonados.

 

Histórias de pessoas que perderam casas e pertences para a chuva repetiram-se centenas de vezes pela cidade, pela região metropolitana e pelo Recôncavo Baiano entre a noite de ontem e a manhã de hoje. Em Salvador, apenas da meia-noite ao fim da tarde de hoje, a precipitação média chegou a 161 milímetros - praticamente a metade do esperado para todo o mês, 326,2 milímetros.

 

Em Pirajá, bairro também periférico da cidade, um deslizamento de terra atingiu um menino de 4 anos, durante a manhã. Por sorte, ele foi socorrido a tempo. No bairro de Águas Claras, na margem da mais importante rodovia do Estado, a BR-324 - que liga Salvador a Feira de Santana -, a água inundou casas até o teto.

 

Os próprios moradores fizeram mutirões para tirar crianças e idosos de suas casas, em botes ou a nado. Um deles, exausto com o esforço, desmaiou enquanto nadava e quase morreu afogado. Foi salvo pelos colegas, que sentiram sua falta depois do resgate de uma senhora, retirada da janela do segundo piso de seu imóvel.

 

Alguns dos principais rios da região transbordaram, causando uma série de transtornos e deixando as cidades sem condições de tráfego. Em Salvador, o principal entroncamento viário, a Rótula do Abacaxi, por exemplo, ficou travado depois de o Rio Camurujipe transbordar. Em Santo Amaro da Purificação, 200 famílias ficaram desabrigadas depois que o leito do Rio Subaé avançou pela região central - pela primeira vez em 20 anos.

 

Em Lauro de Freitas, o transbordamento do Rio Ipitanga isolou três bairros e interrompeu o acesso ao litoral norte do Estado. Outros eventos prejudicaram ainda mais o fluxo de pessoas. Uma árvore caiu na linha de trens suburbanos de Salvador, deixando a população sem a alternativa até as 16 horas. Na BR-324, duas quedas de barreira interditaram trechos da pista, fazendo com que a viagem para Feira de Santana, que dura uma hora e meia, em média, passasse a ter quatro horas de duração.

 

Emergência

 

A situação levou a prefeitura de Salvador a decretar situação de emergência, na manhã de hoje. A prefeitura promete alugar quartos de hotéis e pousadas para abrigar as famílias desalojadas. O cadastro está sendo feito pela Defesa Civil e estima-se que 200 famílias não tenham onde se abrigar. Muitas estão instaladas em escolas públicas. As aulas das redes municipal e estadual estão suspensas em toda a região metropolitana.

 

São 27 os municípios que decretaram emergência na última semana - todos já obtiveram homologação do governo baiano. Cinco pessoas morreram no Estado desde o início das chuvas mais fortes, há oito dias. Segundo a Defesa Civil do Estado, a Bahia tem 7.454 desalojados e 3.249 desabrigados. Os feridos ou doentes por causa das chuvas são 379.

 

O governador, Jaques Wagner, sobrevoou Salvador e Lauro de Freitas hoje. De acordo com sua assessoria, ele telefonou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para relatar os problemas e pedir providências dos ministérios. Lula teria garantido que o Estado vai ser atendido pelo governo federal.

 

Na tarde de hoje, a chuva deu uma trégua na região. Nos primeiros 15 dias do mês, choveu, na média dos oito pontos de medição da Defesa Civil em Salvador, 499,1 milímetros - o volume esperado para todo o mês era de 326,2 milímetros. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), pancadas de chuva são esperadas na área pelo menos até domingo.

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