DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Cidade de massacre em presídio, Altamira enfrenta explosão de assassinatos

Maior município do Brasil foi classificado em 2015 como o mais violento; para a Polícia Civil, conflito entre facções é o principal motivo dos homicídios

Felipe Resk, enviado especial a Altamira, e Marco Antonio Carvalho, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2019 | 03h00
Atualizado 01 de agosto de 2019 | 21h22

ALTAMIRA - A cozinheira Maria Raimunda Lima, de 55 anos, não guarda mágoa. A última lembrança de Jefferson Lima, o segundo dos seus seis filhos, de 36 anos, é o corpo sentado no sofá, sobre o chão banhado de sangue, e a cabeça cravejada por sete tiros. “É claro que quero justiça, mas não desejo nenhuma vingança. Acredito que, de certa forma, aqueles que fizeram isso com ele são tão vítimas quanto o meu filho.”

Usuário de droga, Lima foi morto em 17 de junho, supostamente por conflito entre facções criminosas em Altamira, um dos municípios mais violentos do País. A crise de segurança na cidade teve seu principal episódio esta semana: o massacre com 58 presos mortos em ataque promovido pelo grupo Comando Classe A (CCA) contra o Comando Vermelho (CV) no presídio da cidade.

No início dos anos 2000, Altamira tinha taxa de 11,3 homicídios por 100 mil habitantes, o equivalente a de cidades com bom patamar de segurança. Mas, nas últimas décadas, viu a taxa saltar para 135,5 em 2017, o que a põe entre as piores do País. “Na mesma semana, tinham morrido duas adolescentes na região”, relata Maria Raimunda. Entre 2000 e 2017, a taxa no Brasil foi de 24,8 para 31,6. 

O Atlas da Violência, estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), chegou a classificar em 2015 Altamira como a mais violenta do Brasil, posto do qual não se distanciou. Segundo a Polícia Civil do Pará, o conflito entre facções seria o principal motivo dos homicídios.

Embora tenha sido fundada em 2008, a facção local CCA também tem demonstrado mais força recentemente. Conforme investigações, o grupo se aliou à facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e tenta evitar a interiorização do CV, que comanda Belém.

Lima seria filiado ao CV e a principal suspeita é de que tenha sido morto por rivais do CCA na periferia de Altamira. “Não quero acreditar que meu filho fazia parte de facção”, diz a mãe. “O que matou meu filho é a mesma coisa que motivou os assassinos: a ilusão das drogas.”

Com 159 mil km² - mais do que Portugal -, Altamira é o maior município em extensão territorial do País. Segundo especialistas, o avanço da violência lá também está relacionado à transformação causada pela usina hidrelétrica Belo Monte, na bacia do Rio Xingu. Com isso, a cidade viu a população crescer sem que os serviços públicos, entre eles a segurança, acompanhasse a mudança. 

Para a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, “dezenas de milhares de pessoas” foram levadas à região por causa do megaprojeto e depois ficaram abandonadas à própria sorte. “Temos acompanhado casos cada vez mais graves de violência, assaltos, estupros e chacinas, sem nenhuma medida preventiva eficaz por parte do poder público.” Dados do Ministério da Saúde mostram que a taxa de homicídios na cidade já crescia antes de 2011, quando começou a construção da usina. O pico, entretanto, foi ainda mais significativo após aquele ano.

“Antes, a gente colocava cadeiras na rua e ficava a noite inteira conversando. As crianças podiam brincar. Isso acabou: vive todo mundo com medo”, diz a dona de um restaurante, que não quis se identificar. Semana passada, o estabelecimento foi invadido e furtado, segundo conta.

O pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz, autor do Mapa da Violência, vê elo entre a deterioração da segurança em Altamira e o aumento da criminalidade em outros pontos do País. Na virada do século, os índices de homicídio, historicamente mais altos nas capitais, subiram nas regiões metropolitanas e em cidades médias. Isso, diz, tem a ver com o desenvolvimento econômico dessas regiões não ter sido acompanhado pelo aparato de segurança. “Muita circulação de dinheiro e pouca polícia é o que busca a criminalidade.”

Superintendente da Regional do Xingu, o delegado Walison Magno contesta a metodologia e diz que a cidade tem reduzido casos. “Se alguém for baleado na cidade vizinha e morrer em um hospital de Altamira, a estatística vem para cá”, afirma. 

Na cidade, a Delegacia de Homicídios foi inaugurada em maio de 2018. A unidade conta com um delegado, dois investigadores e uma escrivã. Segundo o delegado, a cidade registrou 16 casos de homicídios entre janeiro e fevereiro deste ano - um a menos do que em 2018. Já o índice de esclarecimento desse tipo de crime teria sido de 77% e 80%, respectivamente. "Isso combate a sensação de impunidade", diz. "Pelas nossas estatísticas, os homicídios estão caindo de 2017 para cá." 

Questionado sobre o aumento da violência não só em Altamira, mas também em outras cidades do Estado, o governo do Pará disse em nota que a taxa vem caindo neste ano. A quantidade de mortes teria caído 24% na comparação entre os sete primeiros meses de 2019 em relação ao mesmo período de 2018. 

"Os dados são positivos porque a taxa de redução alcançada pelo Estado do Pará até o momento (-24,28%) supera oito vezes a mais a meta anual de redução de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) proposta pelo Ministério da Segurança Pública para os Estados brasileiros, que é de -3,5%", declarou.

A administração estadual disse ainda que vem adotando medidas de controle e fortalecimento do sistema penitenciário, como a convocação extra de 642 novos agentes prisionais, quantidade que se somará aos 485 que serão empossados neste sábado, 3. "Os novos agentes prisionais da Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe), agora concursados, poderão portar armas letais e não letais. Eles serão treinados pela Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária (FTIP)", destacou. 

A Norte Energia, construtora e operadora de Belo Monte, disse refutar o que chamou de ilações de “explosão de criminalidade depois da construção do empreendimento”. “Altamira é um município historicamente considerado violento.”

A empresa também destacou investir R$ 125 milhões em ações de segurança pública, convênio que envolve desde a compra de um helicóptero até a implementação de um sistema de monitoramento por meio de vídeo com 50 câmeras para Altamira. A empresa disse acompanhar os dados relacionados à segurança pública nos cinco municípios do entorno da usina.

A empresa cita ainda investimentos de mais de R$ 6 bilhões em infraestrutura e ações socioambientais, "que se reverteram em moradia digna, qualidade de vida, saúde e educação para a população dos cinco municípios do entorno da usina". 

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