Cidade do dinheiro farto e dos preços que vão às alturas

Capital tem maior média de rendimento mensal e cerca de R$ 3 bi por ano circulam na economia só com a venda de imóveis novos

Leandro Colon, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

Um apartamento de dois quartos em Brasília chega a valer R$ 800 mil. Uma quitinete, quase meio milhão de reais. O Orçamento do governo do Distrito Federal em 2010 gira em torno de R$ 22 bilhões, média de R$ 8,4 mil por habitante. A capital, aos 50 anos, tem a maior renda per capita do País: R$ 40,6 mil.

E não para por aí: cerca de R$ 3 bilhões por ano circulam na economia só com a venda de imóveis novos. Licitações e contratos milionários são fechados diariamente entre empresas privadas e órgãos públicos locais e federais.

O começo, no meio do nada, impôs à União, inquilina do DF, a obrigação de pagar a conta da hospedagem. E até hoje Brasília é tratada, do ponto de vista financeiro, como se fosse uma cidade sem pernas próprias. Foi assim que a capital ganhou um fundo constitucional só para ela (FCDF), que neste ano vai despejar nos cofres do governo local R$ 7,6 bilhões.

A riqueza e a arrecadação só aumentam, mas a vigilância sobre o destino do dinheiro, até ao estouro do escândalo do mensalão do DEM, era nula - o Legislativo nasceu cooptado e a mídia local sempre foi financeiramente muito dependente da propaganda e dos negócios de comunicação dos governos. O oficialismo da capital, que vive e respira emprego e negócios públicos, ajuda a explicar o silêncio gerado pelos muitos interesses cruzados.

Dinheiro vivo. A massa salarial distribuída entre funcionários públicos locais e da União pode ser medida por dois fatos: 94 % do dinheiro do FCDF é gasto com salários; e o governo federal deu uma contribuição inédita em matéria de evolução dos ganhos de seus servidores ao aumentar em 56%, entre 2003 e 2009, o salário real médio.

O único setor privado da economia que chegou perto disso foi o agropecuário - os demais, segundo o Ministério do Trabalho, aumentaram seus salários de admissão entre 20% e 30%.

Aos 50 anos, o ganho salarial de seus habitantes e a riqueza do Centro-Oeste, onde está Brasília, fizeram da capital uma cidade abastecida por dois fluxos de dinheiro, o oficial e o subterrâneo. É a cidade que tem 1.500 lanchas de primeira linha desfilando pelo Lago Paranoá e onde virou rotina vender e comprar imóvel ou veículo com pacotes de dinheiro vivo.

Recentemente, o dono de uma concessionária de veículos recebeu um pedido inusitado. O comprador pediu para ser avisado do horário de fechamento da loja para levar, "em cash", o pagamento de seu carro de luxo. A surpresa por parte do vendedor deu-se não pelo tipo de operação - comum no dia a dia dele -, mas pelo comprador: um alto funcionário da República. "Nós temos relatos de vendas de bens duráveis em dinheiro vivo. Grande parte disso nem é declarada. Temos aí uma espécie de economia subterrânea", afirma o procurador Marinus Marsicus, representante do Ministério Público no Tribunal de Contas da União (TCU).

Cartelização. O procurador lembra que parte desses recursos é oriunda de empresários contratados pelos órgãos públicos. Pessoas que enriqueceram, nos últimos 50 anos, à custa de serviços ou produtos vendidos ao Estado, em meio a um implícito e, às vezes, premeditado silêncio. O integrante do Ministério Público no TCU admite que, em muitos casos, é difícil controlar o acerto entre empresas nas concorrências públicas, estratégia que carteliza o mercado e beneficia a grande maioria dos interessados.

"Já avançamos muito nessa transparência, mas a lei de Licitações ainda é muito burocrática e deixa a desejar para que possamos aumentar o rigor nesse controle", pondera Marinus Marsicus.

O exemplo da PM

R$ 4.129

é o salário de um soldado de primeira classe no DF, enquanto o mesmo oficial recebe

R$ 2.015 em São Paulo e R$ 1.237 em Pernambuco

R$ 6.784

é quanto ganha um primeiro sargento no DF. Em São Paulo, o salário é de R$ 2.752

e em Pernambuco, R$ 2.176

R$ 9.283

é o salário de primeiro tenente no DF, bem acima dos R$ 5.438 pagos em São Paulo e

dos R$ 3.225 em Pernambuco

R$ 15.355

é quanto recebe um coronel no DF, o dobro do salário pago em São Paulo, R$ 7.979,

e em Pernambuco, R$ 6.345

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