Cidade exporta garçons para o País

Pelo menos 800 nativos de Frei Miguelinho, em Pernambuco, atuam na área; tradição começou nos anos 60

Angela Lacerda, O Estadao de S.Paulo

08 Agosto 2009 | 00h00

Um fato engraçado ilustra por que Frei Miguelinho é conhecida como A Cidade dos Garçons. Era Dia das Mães, todos os restaurantes do Recife estavam lotados. Um cliente, acompanhado da família, tentava em vão conseguir uma mesa em uma churrascaria famosa. Os garçons, ocupados, não lhe davam atenção. Ele assegurou, então, aos que o acompanhavam, que conseguiria uma mesa. Em seguida, gritou: "Frei Miguelinho!" Boa parte dos garçons olhou em sua direção. O cliente pediu desculpas pela estratégia, disse saber da fama da cidade, e fez seu apelo. Conseguiu a mesa. Localizada a 166 quilômetros do Recife, no agreste, com infraestrutura deficiente, Frei Miguelinho tem na figura do garçom a sua maior atração e uma de suas maiores riquezas. Eles ajudam a movimentar a economia, sustentada basicamente pela pequena pecuária, agricultura familiar, aposentadorias e funcionalismo público. É o município que, proporcionalmente à sua população - de quase 15 mil habitantes -, mais exporta o profissional no País. É o que garante a Associação dos Garçons de Frei Miguelinho, presidida por Ronas Vicente Gomes, o Tatu. Os destinos são principalmente a região metropolitana do Recife e grandes centros, como São Paulo e Rio. "Em Pernambuco é assim: se você quer comprar artesanato, vá a Caruaru; se quer bananas, vá a Machados; se quer jeans, vá a Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. Mas se seu objetivo é contratar garçons, vá a Frei Miguelinho", diz Damião Bezerra, integrante da diretoria da associação, que conta com 398 sócios ativos inscritos. Segundo Damião, cerca de 800 nativos de Frei Miguelinho têm atividade na área da gastronomia - 500 deles garçons. O restante é barman, cozinheiro, manobrista, porteiro. Damião era um dos 40 garçons que se encontravam na segunda-feira passada na cidade para o tradicional bate-bola e confraternização da categoria. Eles sempre aproveitam o dia de folga para se reunir na cidade natal, onde grande parte mantém residência. O clima é de uma grande e animada família. É essa harmonia e a preocupação em ajudar os conterrâneos que ajudaram a criar a rede "exportadora" de garçons. Tudo começou na década de 1960. Naquela época, saíram os pioneiros garçons em direção a São Paulo, em busca de trabalho. Maurício Ferreira de Lima, de 65 anos, viajou com Sibito, Vavá de Mané Lula e Artur Estanislau. Começaram fazendo faxina no setor de hotelaria. "A gente passava necessidade e esse trabalho garantia refeição", conta Maurício, que tinha 15 irmãos e nível de instrução baixo. Depois de três anos - tempo em que foi copeiro e aprendiz de garçom -, ele e Sibito fizeram um curso no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), orientados pela governante do Hotel Samambaia, onde estrearam no ofício. Maurício voltou para Pernambuco em 1975, depois de "fazer a maior covardia" da sua vida. Largou tudo, inclusive a noiva, com quem tinha casamento marcado, em São Paulo. "Se eu casasse lá, não voltava mais." No período na capital paulista, Maurício aproveitou para encaminhar pelo menos 30 conterrâneos. "Botei no ramo", conta. Um deles, Gilson Mamulengo, que saiu de Frei Miguelinho na década de 70, é hoje chef de cozinha do Terraço Itália. MUDANDO A REALIDADE Edmilson Braz de Arruda, de 47 anos, passou 26 trabalhando no Recife. Fez um pé-de-meia e agora realiza o antigo sonho de ter seu próprio negócio, na sua cidade. Abriu em maio a Pizzaria Olho d? Água da Onça. É o responsável pela cozinha e o filho Jeferson, de 15 anos, se inicia na profissão de garçom. Não lhe faltam professores. Com seu empreendimento, Edmílson começa a mudar a realidade. "Frei Miguelinho exporta garçom, mas não tem serviço." Agora, não mais.

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