Cientistas políticos acham arriscado esquecer ''povão''

Mas Jairo Nicolau, por exemplo, avalia que tese de FHC é uma estratégia aceitável no momento [br]para oposição definir foco

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2011 | 00h00

Ninguém, entre os cientistas políticos, considerou prudente a ideia de "abrir mão do povão", proposta no artigo de Fernando Henrique Cardoso, mas há entre eles os que entendem que essa pode ser uma estratégia aceitável no momento - para focar a ação e criar uma base própria, até se criar um novo cenário.

"Acho que FHC fez uma análise perspicaz", diz Jairo Nicolau, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, no Rio de Janeiro. "Ele percebeu que há uma diferença entre povão e as classes emergentes mais escolarizadas". O apelo para priorizar esses grupos "é uma forma de conectar a oposição com a juventude". E o PSDB "não é mesmo um partido que consiga mobilizar militantes partidários". Pode atuar em outras fatias "suscetíveis de novas formas de apelo", que poderão passar também para o apoio ao governo Dilma Rousseff". Como ele, o historiador Bóris Fausto considera "correto e realista" que, numa hora de crise, "a oposição possa recorrer a isso, como tática". Uma oposição que "já perdeu o povão" corre, de fato, "o risco de perder essas novas fatias ainda em disputa". Trata-se, diz ele, de classes "que ainda não se consolidaram e estão suscetíveis a um discurso que ataque a política inflacionária, a corrupção.

Mas nenhum dos dois acha que um partido possa sonhar com a volta ao poder sem falar diretamente com o "povão", as classes mais humildes, que são maioria. "É uma fantasia imaginar uma volta ao poder sem uma base popular", adverte Nicolau. Boris Fausto acrescenta: "Não se sabe o futuro. O tripé do governo está meio manco, há uma herança complicada e inflação em alta."

Problemático. "É uma abdicação problemática", resumiu Fábio Wanderley Reis, da UFRJ, sobre a ideia de se abandonar o "povão" e buscar outras faixas sociais. "Um partido existir e governar, na democracia, tem a ver com maiorias", avisa, lembrando que para cargos majoritários "abdicar do povão é condenar-se a ser minoria sempre".

Wanderley Reis levanta uma dúvida sobre essa estratégia de FHC: como a oposição vai conquistar essas "novas classes médias", que se tornaram usuárias de internet, Facebook ou Twitter, "se elas só subiram a esse status graças às políticas do atual governo?" Para o estudioso mineiro, o artigo de FHC, mais a entrevista de Itamar Franco (à revista Época) e o recente discurso de Aécio Neves no Congresso, "são uma evidência da crise da oposição. Ela não precisaria desses eventos se estivesse em ordem".

Mais crítico, o sociólogo Humberto Dantas acha que o artigo de FHC "não acrescenta muito" ao que o PSDB precisaria fazer no momento. "Ao invés de abandonar o povão, candidatando-se a continuar oposição, o partido deveria entender o que esse povão quer e porque ele tem apoiado as políticas do governo." E, ao chamar essas fatias de "pouco informadas", o ex-presidente deveria "se perguntar o que o PSDB tem feito para educar politicamente esses eleitores".

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