Cinco mortes e uma ameaça

O Jardim da Paz, área de ocupação irregular em um dos bairros de Marabá, é um microcosmo dos conflitos que ocorrem em todo o sudeste do Pará. Há disputas por terras, crimes por encomenda e até uma onda de ameaças por conta da devastação de uma pequena reserva de mata nativa.

Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2011 | 00h00

Nos quatro anos desde a invasão do terreno, um remanescente de fazenda em plena área urbana, perto da Rodovia Transamazônica, Ilka Barros Lima é a sexta pessoa a comandar a associação de moradores. As outras cinco foram assassinadas, e ninguém foi preso por isso.

Envolvida em uma disputa com vizinhos em torno da preservação de uma "microfloresta", Ilka disse ao Estado que vem sendo ameaçada e teme ser a próxima vítima.

A reserva em questão tem tamanho equivalente ao de dois quarteirões. Concentra árvores nativas, como buritis e açaís, uma nascente e, segundo os moradores, alguns pequenos jacarés.

Quando o terreno ao redor foi invadido, a divisão dos lotes foi feita de modo a manter o pedaço de mata. Mas, com o passar do tempo, a área começou a ser "comida" pelas beiradas - em escala maior, é exatamente o que acontece com o que ainda resta de florestas em toda a região.

Depois de derrubadas algumas árvores, um retângulo foi demarcado com um muro, e a futura construção de três casas já foi anunciada, apesar dos protestos da associação de moradores. Ao lado, em outro naco invadido, uma casa já foi erguida.

As ameaças a Ilka começaram, segundo seu relato, quando ela convocou órgãos da prefeitura e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente para fiscalizar e embargar a obra.

Uma pessoa não identificada passou a telefonar e exigir o fim dos "incômodos". Segundo Josavias Santos Saraiva, marido da presidente da associação, a palavra "morte" nunca é citada, mas o recado é claro. "Quando alguém diz "Você vai pagar", a gente sabe que é com a vida, porque é só o que nós temos."

Ilka era a terceira na linha de sucessão quando o último presidente da entidade de moradores foi assassinado, em 2009, por uma dupla de desconhecidos em uma motocicleta. Os motivos do crime, a comunidade diz ignorar.

No dia seguinte, com medo, o vice-presidente renunciou. A primeira secretária fez o mesmo, abrindo caminho para a posse da então segunda secretária.

A história de violência no Jardim da Paz teve início já na invasão do terreno, há quatro anos. Cerca de 400 famílias ocuparam o local e improvisaram um loteamento. Dez dias depois, quando a associação de moradores ainda era embrionária, o primeiro líder foi assassinado - também por dois jovens, em uma motocicleta nova, sem placas.

"Quem encomendou o crime tinha motivo e recursos para comprar a moto", disse Saraiva, insinuando uma possível retaliação pela invasão.

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