Cinema carioca completa 100 anos

Local trocou pornôs por Carmem Miranda para festejar

, O Estadao de S.Paulo

28 Fevereiro 2009 | 00h00

O longa Ninfetas Safadas 7 saiu de cartaz por um dia e foi substituído ontem por uma coletânea de Carmen Miranda, na comemoração do centenário do Cine Theatro Íris, na Rua da Carioca, centro do Rio. Havia um bolo de 15 metros na frente do prédio, em homenagem à casa e aos 444 anos da cidade. De chapéu Panamá, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) cortou o primeiro pedaço, ao lado da cantora Alcione. Trata-se do cinema mais antigo do Rio em funcionamento, afirma o dono, Raul Pimenta Neto, de 51 anos. Em 1909, se chamava Soberano e nele cabiam 200 pessoas, mas houve uma grande reforma em 1921, quando a casa reabriu com o nome atual e capacidade para 1.200. Raul conta que Ruy Barbosa tinha cadeira cativa, com as iniciais marcadas na madeira. Na década de 1970 houve outra reforma, que recuperou toda a estrutura art nouveau do prédio. O Cine Íris foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 1983. Naquele ano, houve o primeiro show de strip tease no local. Um ano antes, o cinema começara a exibir filmes pornográficos. "O pornô salvou o prédio", afirma o dono. "Foi a alternativa que encontramos. Sem esses filmes, não teríamos resistido, como tantos outros cinemas que fecharam ou viraram igreja." Raul e 13 sócios, todos parentes, entre eles Neyde Brilho Cruz, sua tia, que tirava fotografias da festa ontem, vivem da renda obtida com a bilheteria e do aluguel do sobrado de três andares para festas. Raul é bisneto do fundador do Íris, João Cruz Júnior, morto em 1950 - um quadro com uma foto dele de smoking foi pendurado no centro da escadaria de ferro do prédio, que mantém azulejos portugueses e espelhos de cristal originais. "Estou aqui desde 1977. As épocas mudam. Já houve o período do bang bang e do kung fu, depois veio a pornochanchada e o pornô", conta o dono. "Não sei o que virá pela frente, mas vamos nos adaptar. São poucos os negócios que resistem 100 anos." Ele afirma que hoje a concorrência com DVDs piratas vendidos por ambulantes é forte. A média de público atual é de 450 pessoas por dia. Mas há dez anos o cinema lotava, diz, com média de 1.200 pagantes. Naquela época, afirma Raul, a família recebeu uma proposta de compra do prédio por R$ 5 milhões, que foi recusada. "Foi do Edir Macedo, da Igreja Universal. Mas não tivemos interesse", conta. "Pornô dá dinheiro." ORQUESTRA No início do século passado, uma orquestra acompanhava a exibição de filmes. Hoje, eles são interrompidos três vezes por dia, às 12h30, 15h30, e 18h30, quando ocorrem shows de strip - de seis a dez mulheres. Não há sessões definidas como em outros cinemas. A pessoa compra o ingresso a qualquer hora, a partir das 10 horas, entra e sai quando quiser. Segundo Raul, o público é variado. "Tem desde office-boy até executivo de pastinha. E cerca de 20% são idosos." O Cine Íris já abrigou festas famosas como a Loud!, no início da década. Agora, o dono, que diz não gostar dos pornôs, está em negociação com um ator da Globo para reformar o prédio de novo e abrir uma casa de espetáculos à noite. O cinema pornô, inicialmente, seria mantido de dia. "O lance é estritamente comercial." Para fechar a comemoração, estava prevista para ontem uma palestra no cinema do escritor Ruy Castro sobre Carmen Miranda. Hoje a programação volta ao normal com Ninfetas Safadas 7.

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