Danilo Ramos
Danilo Ramos

Cinema itinerante movido a energia solar democratiza acesso à sétima arte no Brasil

CineSolar leva filmes e pipoca de forma gratuita a comunidades da periferia

Marcela Villar, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2022 | 05h00

A doméstica Maria Benedita Santos nunca teve a oportunidade de ir ao cinema. Moradora de Jacintinho, um bairro na periferia de Maceió, capital de Alagoas, ela sempre esteve atribulada com o trabalho, sem espaço e acesso a esse tipo de lazer. Seus pais também não tinham esse costume, mas a vontade de assistir a um filme projetado em uma tela foi crescendo ao longo dos anos. “Sempre foi meu sonho ir ao cinema”, relata.  

Aos 39 anos, esse desejo se realizou. O Cinesolar, primeiro cinema itinerante do Brasil movido a energia solar, foi até sua cidade exibir filmes brasileiros de forma gratuita - com direito a pipoca de graça também. Maria Benedita foi acompanhada de sua primogênita, Ana Sofia, de 6 anos, que, assim como ela, nunca tinha vivido essa experiência. Ali no pátio da escola Lar São Domingos, onde Ana Sofia estuda, mãe e filha resolveram uma pendência de gerações. 

Essa é a proposta do projeto, iniciado em 2013: rodar todas as cinco regiões brasileiras levando a sétima arte para quem não tem acesso. “Só 10% dos municípios do Brasil têm salas de cinema, segundo o IBGE. Então o cinema chegar a essas comunidades é extremamente democrático. Fora que é um evento ao ar livre, normalmente, em uma praça, e dá para levar criança, então é para toda a família”, conta a coordenadora e idealizadora do Cine Solar, a produtora cultural Cynthia Brazucah. 

Cinema para todos

O fato de ser um cinema itinerante, que vai ao encontro dos telespectadores e não o contrário, facilita ainda mais essa vivência. “Muitas vezes, o acesso à cultura é caro e longe. Tem questões de mobilidade envolvidas por não ter ônibus ou ser perigoso, além do dinheiro. Por isso que a relação do cinema de rua e itinerante é outra, estamos ali na casa da pessoa”, explica Cynthia. 

Nesses mais de oito anos de projeto, o Cinesolar visitou quase 500 cidades, exibiu mais de 1.300 sessões com a projeção de mais de 150 filmes, entre curtas-metragens e longas, percorrendo mais de 250 mil quilômetros e chegando a mais de 200 mil pessoas. A maioria das obras é brasileira e de temática socioambiental.

Hoje, são duas vans que levam o cinema a essas cidades, Tupã e Mahura - cada uma com capacidade de exibição para 110 pessoas. Os nomes não são ao acaso. A sprinter Tupã, que veio primeiro, batizada pelo escritor indígena Kaká Werá, do povo tapuia, faz referência aos povos originários, inclusive pelos desenhos do grafite. Já Mahura fala da ancestralidade africana. “O objetivo é se reconhecer e olhar para nossa ancestralidade, respeitar o passado e mirar no futuro, unindo a tecnologia e sustentabilidade”, defende Cynthia. 

Tecnologia e sustentabilidade

Para funcionar, cada van tem seis placas de energia fotovoltaica que geram em torno de 1.800 watts de potência. Essa energia é armazenada em seis baterias, que permitem uma autonomia de funcionamento de 20 horas, somente para o cinema. Ao todo, desde 2013, foram gerados mais de 3 milhões de watts, o equivalente a um ano e três meses de uma geladeira ligada. A tecnologia usada é a off grid - baseada no auto sustento, sem estar conectada à rede elétrica -  e foi desenvolvida pela empresa Sices Solar. 

A equipe convida os espectadores a entenderem como funciona essa geração de energia. “A gente deixa aberto para que as pessoas possam ver funcionando. Montamos como se fosse uma sala de aula de ciências, explicando alguns conceitos, mostrando infográficos e como opera a tecnologia ligada ao futuro”, narra a idealizadora. 

Oficinas para crianças

Mas o Cinesolar vai além da exibição de filmes. O projeto também promove “oficinemas”, oficinas que explicam técnicas básicas e elementos da linguagem cinematográfica, nas próprias vans. Voltado para o público infanto-juvenil, o objetivo é sensibilizar os jovens para temas ambientais e sociais, a partir da arte. “A gente trabalha com os problemas locais, trazendo soluções globais para o desenvolvimento sustentável. Eles fazem o roteiro, nossa equipe grava e edita”, esclarece Cynthia Brazucah. 

Os vídeos produzidos pelas turmas podem ser vistos no canal do Youtube do projeto. Foram ministradas cerca de 400 workshops como esse. Ainda existe a oficina de stop motion (animação), que recebe de 20 a 30 pessoas de forma online. Por isso que Cynthia acredita que a iniciativa não é apenas um cinema solar, e sim “uma estação móvel de arte, sustentabilidade, tecnologia e cultura de paz”, porque a ideia “é não só exibir filmes, mas trabalhar com oficinas, com difusão da energia renovável”. 

Em torno de dez pessoas fazem parte da equipe, entre educadores, educomunicadores, cineastas e biólogos. A realização é feita pela Brazucah Produções, uma produtora que atua no mercado há 20 anos, e o patrocínio é do governo federal, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura; do governo de São Paulo, pelo Programa de Ação Cultural (PROAC-ICMS); e de algumas empresas privadas, como a CPFL Energia. 

Confira a programação do CineSolar*:

 Agosto

1/08: Ceará-Mirim (RN) 

02/08: Vera Cruz (RN)

03/08: Lagoa de Pedras (RN) 

04/08: São Miguel do Gostoso (RN) 

05/08: São Miguel do Gostoso (RN) 

07/08: João Câmara (RN) 

08/08: Alexandria (RN) 

09/08: Tenente Ananias (RN) 

10/08: Aracati (CE)

12/08: Itarema (CE)

13/08: Itarema (CE)

*Agenda sujeita a modificações. Acompanhe a programação pelo Instagram @cinesolar

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.