''Circuitos da pedra'' extrapolam Nova Luz

Batidas policiais fazem usuários de crack chegarem à Barra Funda

BRUNO PAES MANSO e DIEGO ZANCHETTA, O Estadao de S.Paulo

11 Julho 2009 | 00h00

A cracolândia nunca esteve tão dispersa. O circuito das drogas pelas ruas do centro velho pode ser encontrado a partir da Praça Roosevelt, onde, na madrugada, viciados se refugiam abaixo da rampa do espaço térreo, ao lado da Igreja da Consolação. Com o amanhecer e a presença de guardas-civis na área, os usuários começam a ser empurrados para perto da Avenida Tiradentes. Ali existe uma travessa, a Rua 25 de Janeiro, usada como refúgio até a abertura das lojas da Santa Ifigênia. Os viciados transitam entre as esquinas de acordo com a presença da polícia na região. As viaturas chegam fazendo barulho para dispersar as rodas de consumo na frente de pequenos comércios e bares. Nesse momento, inicia-se a rotina nômade que o consumo do crack exige. "Nosso trabalho no dia a dia por aqui é igualzinho ao de tocar gado no pasto", explica ao Estado um sargento que na terça-feira patrulhava a região. Conforme reportagens sobre a cracolândia saem na televisão, intensificando a presença da Polícia Militar na área, o endereço das ruas mais procuradas pelos viciados volta a mudar. Atualmente, depois de reportagens e de constantes operações policiais, principalmente no perímetro da área de concessão urbanística, os viciados se espalharam da Praça da República às ruas da Barra Funda, fora dos limites da área de revitalização da Nova Luz. Os "circuitos da pedra" se expandiram do entorno degradado e desabitado da Estação da Luz e se consolidaram em outros pontos residenciais e também históricos, como o Largo Coração de Jesus e a Praça Princesa Isabel. EXÍLIO Os refugiados das periferias que migram para viver uma nova vida no centro da cidade ingressam em uma rotina de exclusão e passam a funcionar conforme as regras do universo no qual entraram. A intensidade do vício pode ser notada pelas roupas e aspectos de cada um. Quanto mais sujo, mais tempo de rua. É com essa feição assustadora que o viciado encontra refúgio e sociabilidade. O usuário recém-chegado que ainda "raspa" o asfalto na busca de migalhas que caem dos outros cachimbos já estará nos dias seguintes vendendo algumas pedras e enturmado nos "circuitos". Assim consegue dinheiro para consumir. Na hora da fome, existe uma rede de apoio social para garantir o alimento. "Aqui eles são uma família. Todo mundo tem um ?tio?, um ?pai?", diz a corretora de imóveis Mari Almeida, de 40 anos. A mulher bem vestida e de salto alto caminhava no meio dos viciados da Rua Conselheiro Nébias com uma foto do ex-marido, na tarde da quarta-feira. De Tatuí, no interior paulista, Mari passava pela terceira experiência de buscar o pai de seus três filhos no meio dos "noias". A cada parada, a corretora recebia uma informação desencontrada. Viciados pegavam a foto, circulavam entre outros colegas, olhavam, reconheciam. E foi assim, de esquina em esquina, por quase três quilômetros. "O pessoal da guarda bateu muito nele, ficou com um corte grande na testa", dizia um menino de 12 anos que, em seguida, pediu uma coca-cola. A corretora pagou. "Eu morro de pena dessa gente. Faz 15 dias que meu ex-marido veio para a rua e sei que se ele me encontrar vai querer voltar. Meu filho mais velho não para de perguntar dele. Quero colocá-lo numa clínica em Itapetininga", dizia a mulher, antes de chegar ao Albergue Oficina Boraceia, o último endereço indicado na cracolândia. Dois dias depois, Mari voltou ao interior, sem sucesso. "Acabou o dinheiro, vou tentar ainda. Não posso deixar o pai dos meus filhos morrer sem dignidade."

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