Classe média alta de SP critica interrupção das reformas

Empresários, artista plástica e produtor de TV elogiam condução da economia, mas acham que Lula deixou a desejar

, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

O Brasil manteve a estabilidade econômica, avançou na formalização do trabalho e nos programas sociais, mas falhou em não aprofundar as reformas iniciadas no governo Fernando Henrique. Esse é o balanço feito por integrantes da classe média alta de São Paulo. "O Brasil só fez melhorar", avalia Augusto Mello, sócio da cantina Nello"s, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, onde quatro amigos se reuniram numa noite chuvosa de quarta-feira para conversar com o Estado.

Augusto associa o êxito da economia à estabilização e à introdução da responsabilidade fiscal, como "conquistas" de FHC. Mas acrescenta que, "durante o governo Lula, aconteceram muitas coisas positivas", como o estímulo à formalização. Isso teve efeito adverso sobre Attílio Fontana, um pequeno incorporador de 53 anos, que reforma e constrói casas para vender. Para ele, o governo Lula se caracterizou pela ampliação dos direitos dos trabalhadores da construção civil: equipamentos de proteção, inclusão do café da manhã, transporte. "Sou agravado pela concorrência desleal, porque grande parte do mercado não atende a essas exigências", queixa-se Attílio, que tem pós-graduação em administração de empresas. "Ficou mais difícil manter-se formal e cresceu a disputa pela mão de obra. O custo aumentou."

A entrada de Attílio no mercado, há 8 anos, depois de uma carreira de 15 anos na Sadia, coincidiu com o início do governo Lula. "Ele teve o grande mérito de preservar o que tinha sido feito em termos econômicos", reconhece. "Todo mundo ficou assustado com a possibilidade de ele pôr em prática as ideias de sua formação, que contrariavam o que ocorria no mundo." Attílio não votou em Lula. "Não tenho grande barreira contra o PT. Mas hoje o PSDB está mais organizado, depois do grande desgaste do governo (federal)."

"Vejo no Brasil uma série de estruturações importantes: antes de Itamar Franco e Fernando Henrique, a gente tinha uma moeda louca", lembra Augusto, de 46 anos, formado em engenharia química. "Por outro lado, as reformas pararam, embora o governo Lula talvez não tenha desfeito nenhuma mudança mais séria. Esse governo ficou devendo reformas, como a tributária e do Judiciário. Colheu coisas estruturantes, e o que deixa de estruturante? O Brasil está se endividando."

Todos na mesa criticam o enfraquecimento das agências reguladoras no governo Lula. "A experiência de privatizar serviços historicamente estatizados depende de ter agências super-redondas", opina Attílio. "Na época em que o PT era oposição, essas coisas tinham de ser discutidas, porque o PT fazia uma barulheira enorme", recorda Suzana Azevedo, artista plástica de 59 anos. "Hoje, elas não são explicitadas, porque, quem faz papel de oposição?"

"O que Fernando Henrique fez, com a estabilização, era para se ajoelhar no milho, mas eles não se apropriam do que fizeram maravilhosamente", nota Suzana, criticando o desempenho dos políticos do PSDB. "E também não se apropriam do direito de oposição de ir às ruas. Estavam habituados a ser situação." Para a artista plástica, o PT saiu-se bem como oposição e também em sua conversão ideológica: "Foi um governo conservador."

Suzana considera um ponto positivo do atual governo a imagem do Brasil no exterior, e todos na mesa concordam. Para Antonio Carlos Rebesco, de 61 anos, dono de uma produtora de TV, "é curioso porque a imagem que se tinha era a inversa: Lula era considerado despreparado em relação a Fernando Henrique".

"Ele se acertou com o FMI e com os miseráveis", observa Suzana. "O beneficiário do Bolsa-Família vai votar no Lula sob quaisquer circunstâncias, e está certo. Tinha uma população que não comia. Caiu drasticamente a mortalidade infantil." Suzana diz que não se desapontou com Lula porque não votou nele, mas em Geraldo Alckmin em 2006 (em 2002, estava estudando na Espanha). "Vejo com bons olhos o resgate social, que tinha de fazer."

A preocupação de Suzana, no entanto, é se há regras para delimitar o Bolsa-Família, ou se "vai-se criar uma geração de mendigos". Ela acredita que "o cara que recebe dinheiro sem trabalhar não vai trabalhar nem a pau". Attílio também se preocupa: "Qual o próximo passo?"

Mas não há só ressalvas ao programa. "O Bolsa-Família acaba com o atravessador", elogia Augusto. "O beneficiário recebe o dinheiro e sabe o que vai fazer com ele: comprar comida, remédio, roupa." Ele acredita no "garrote da contrapartida" exigida pelo programa: manter os filhos na escola e a carteira de vacinação em dia. "Como vocês colocaram, o cara não vai querer perder o dinheiro", argumenta Augusto. "Sim, mas nenhum dinheiro pode vir de graça", retruca Suzana. "Alguém pagou por ele."

A artista plástica acha que Lula foi "magistral" ao lidar com a crise econômica mundial do ano passado. "Ele foi à TV e pediu para as pessoas consumirem. A crise não foi uma marola, mas passou rápido." Entretanto, ela considera a situação insustentável: "As pessoas estão endividadas, e uma hora vão ter de pagar suas dívidas."

Para Augusto, mais importante do que a comparação entre Lula e Fernando Henrique é o desleixo crônico, no Brasil, com o orçamento do governo, e o fato de ele gastar mais do que arrecada. "A máquina pública funciona mal, contrata demais, o Estado é altamente ineficiente." Suzana lembra que o governo federal tem muito mais cargos de confiança no Brasil do que nos Estados Unidos ou na Inglaterra. "Como é que eles conseguem indicar tanta gente?", pergunta-se Antonio Carlos, professor da Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap).

Suzana vê "com tristeza" a situação de sua área, a cultural. "Devia ter avançado muito mais", diz ela. "O governo é extremamente importante na arte, mas o governo Lula não teve sensibilidade para reformas nessa área, como não teve noutras." Ela reclama da burocracia para solicitar verbas oficiais, que obriga a recorrer a um agente cultural. "No fim, seu projeto é limitado pelo atravessador."

Antonio Carlos lembra outro problema que drena recursos da área cultural: o imposto. Mas em geral ele se sente confiante, porque a política econômica foi mantida. "Era empregado e me tornei independente, e tenho tido trabalho." Antonio Carlos mudou-se para Portugal em 1990, na época do Plano Collor, desiludido com a situação econômica. Voltou em 1997, por causa da estabilização da economia, e criou a produtora, que desde então "só tem crescido".

Attílio não vê grande diferença entre os dois principais candidatos. "Na prática, o governo da Dilma não vai ser mais à esquerda do que o do Serra, e vice-versa, porque existe hoje uma convergência para a centro-esquerda", analisa o empresário. Já Augusto reconhece que o PT é "mais estruturado, com Lula" Mas põe em dúvida a capacidade da candidata do presidente: "Será que a Dilma segura e toca isso?"

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