THOMAS COEX / AFP
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Clérigos católicos abusaram de mais de 200 mil crianças na França desde 1950, diz investigação

Relatório elaborado por comissão criada em 2018 tem objetivo de lançar luz sobre os abusos e restabelecer a confiança na Igreja. 'Indiferença profunda, total e até cruel durante anos', diz chefe do grupo

Sudip Kar-Gupta, Christian Lowe, Tangi Salaun, Reuters

05 de outubro de 2021 | 12h30
Atualizado 07 de outubro de 2021 | 11h45

VATICANO - Clérigos franceses abusaram sexualmente de mais de 200 mil crianças nos últimos 70 anos, revelou uma grande investigação divulgada nesta terça-feira, 5, e seus autores acusaram a Igreja Católica de fazer vista grossa por tempo demais.

A Igreja demonstrou uma "indiferença profunda, total e até cruel durante anos", protegendo a si mesma, no lugar de proteger as vítimas de um abuso sistêmico, disse Jean-Marc Sauvé, chefe da comissão que compilou o relatório.

A maioria das vítimas foram meninos, disse ele, muitos deles de 10 a 13 anos de idade. A Igreja não somente não tomou as medidas necessárias para evitar abusos, mas tampouco os relatou, e em certas ocasiões colocou crianças em contato com predadores conscientemente, disse o relatório.

O chefe da conferência de bispos da França, Éric de Moulins-Beaufort, disse se tratar de uma vergonha para a Igreja, pediu perdão e prometeu agir. As revelações na França são as mais recentes a abalar a Igreja Católica na esteira de uma série de escândalos de abuso sexual em todo o mundo, com frequência envolvendo crianças.

A comissão foi criada por bispos católicos da França no final de 2018 para lançar luz sobre os abusos e restabelecer a confiança pública na Igreja diante de um panorama de congregações minguantes, e trabalha de forma independente.

Jean-Marc Sauvé disse que o problema persiste, e acrescentou que até os anos 2000 a Igreja mostrou uma indiferença completa com as vítimas, só adotando uma mudança de atitude real entre 2015 e 2016.

Os ensinamentos da Igreja Católica em temas como sexualidade, obediência e a santidade do sacerdócio ajudaram a criar pontos cegos que permitiram abusos sexuais do clero, disse Sauvé, acrescentando que a instituição precisa reformular a maneira como aborda estas questões para restabelecer a confiança da sociedade.

A Igreja precisa assumir a responsabilidade pelo que ocorreu, disse a comissão, e fazer com que relatos de abusos sejam transmitidos às autoridades judiciais. Ela também deve oferecer compensações financeiras adequadas às vítimas, "que, embora não sejam suficientes (para tratar do trauma do abuso sexual), são contudo indispensáveis, já que completam o processo de reconhecimento".

A comissão acrescentou uma lista de recomendações, que inclui a verificação sistemática de fichas criminais de qualquer pessoa indicada pela Igreja para ter contato frequente com crianças ou pessoas vulneráveis e um treinamento adequado aos padres.

Vítima do padre Preynat na Arquidiocese de Lyon e cofundador da associação La Parole Libérée (A Palavra Libertada), François Devaux descreveu o trabalho da comissão como um "sacrifício pelo bem comum". "É do inferno que vocês, os membros da comissão, voltaram", disse, pedindo à Igreja reformas profundas e expressando seu sentimento de traição pelos silêncios e pelas "disfunções sistêmicas" que enfrentou em sua dolorosa luta.

Em seu discurso, o arcebispo de Reims e presidente da Conferência Episcopal (CEF), Dom Éric de Moulins-Beaufort, reconheceu a extensão "assustadora" da violência na Igreja. A voz das vítimas "nos choca, nos impressiona", afirmou, elogiando em particular a franqueza e as "verdadeiras palavras" de François Devaux.

O presidente da CEF prometeu que os bispos dedicariam o tempo necessário para estudar o relatório e tirar conclusões a partir dele, em particular durante sua assembleia plenária em novembro.

Por sua vez, a presidente da Conferência das Religiosas da França (CORREF), Irmã Véronique Margron, expressou sua "tristeza infinita" e "vergonha absoluta" perante os "crimes contra a humanidade do sujeito íntimo, crente e amoroso". Segundo ela, as 45 recomendações são um "sinal de exigente confiança na Igreja", que terá de trabalhar com outras instituições.

Papa reconhece gravidade do caso e destaca 'coragem' das vítimas

O Papa Francisco, que dias atrás se encontrou com os bispos da França, foi informado sobre o caso, apontou nesta terça-feira o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni.

Segundo informações repassadas pelo diretor e divulgadas pelo Vatican News, agência oficial do Vaticano, o Papa disse que seus pensamentos se dirigem "primeiramente às vítimas, com grande tristeza, por suas feridas, e gratidão, por sua coragem em denunciar".

Sobre a Igreja na França, o Papa acrescentou o desejo de que, "consciente desta terrível realidade, unida ao sofrimento do Senhor por seus filhos mais vulneráveis, (a instituição) possa empreender um caminho de redenção". /COM INFORMAÇÕES DO VATICAN NEWS

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