Felipe Frazão/Estadão
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Clero espera decisão do papa sobre padres casados ainda neste ano

Exortação apostólica de Francisco foi interpretada como movimento estratégico de reconciliação, ainda que temporário. Bispos da Amazônia, majoritariamente entusiastas da ordenação de padres casados, vão pedir audiência

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2020 | 21h31

BRASÍLIA - A exortação apostólica do papa Francisco após o Sínodo da Amazônia foi interpretada como um movimento estratégico e positivo mesmo por quem desejava vê-lo avançar em decisões que foram, por ora, deixadas de lado, como o caso da ordenação como padres de homens já casados, desde que respeitados em suas comunidades.

Isso porque, em vez de adotar alguns dos pontos do documento final do Sínodo da Amazônia e ignorar outros, como ocorreu em sínodos passados, o papa Francisco não usou sua reflexão para rejeitar ou aceitar nenhuma das propostas dos bispos, deixando livre caminho para continuar a debater as sugestões internamente, sem imposição.

No Brasil e no Vaticano, cardeais reconheceram que Francisco adotou uma estratégia de reconciliação com o recuo - ainda que temporário - da proposta que gerou mais ruídos internos, a de ordenar sacerdotes que já tivessem família constituída - o que difere de um sinal verde para que o clero contraia matrimônio indiscriminadamente.

Os defensores da ideia, rechaçada pelos mais conservadores como uma "heresia", defendem a medida como forma de mitigar a escassez de sacerdotes nas áreas mais remotas do território amazônico e conter a perda de fieis para outras confissões cristãs - sobretudo as neopentecostais no Brasil.  

Estrategicamente, avalia um cardeal brasileiro, Francisco evitou um racha com a ala conservadora do alto clero, mais crítica a seu pontificado. É comum que internamente os cardeais e bispos divirjam entre si num choque de visões, mas os ruídos já ecoavam para além dos muros do Vaticano.

Os bispos da Amazônia brasileira, majoritariamente entusiastas da ideia, vão pedir uma audiência com o papa a fim de tratar como colocar em prática a ordenação de padres casados. Eles querem ter um papel nos debates que ocorrerão na Santa Sé nos próximos meses. Um cardeal ouvido pelo Estado prevê que a discussão seja retomada e solucionada ainda em 2020.

No vaticano, o alto clero se esforçou em explicar o fato de o papa não ter mencionado a ordenação dos padres casados de reputação ilibada, questão que permeou todas as esferas de debate do sínodo, desde as consultas às bases católicas nos países nove amazônicos. Esse era um dos pontos que dependia de uma decisão expressa e pessoal do papa, mas sobre o qual ele preferiu não se pronunciar. 

"Não houve aprovação expressa do documento final do Sínodo", disse o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário geral do Sínodo da Amazônia. "São perguntas em evolução, temas que não foram resolvidas pelo Santo Padre", disse o cardeal Michael Cherny, secretário especial do Sínodo da Amazônia, para quem que a proposta "fica sobre a mesa" e será "amadurecida".

O diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Matteo Bruni, ressaltou que a posição do papa sobre o celibato "já era conhecida" e que o Sinodo não se reduz a um confronto em torno da questão. Em janeiro, Bruni divulgou comunicado em que o papa rejeitava o celibato opcional, mas considerava que poderia não ser seguido em locais distantes, por necessidade pastoral.

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