Co-piloto do acidente da Varig também culpa Legacy

O acidente com o avião da Gol não saiu da mente de Nilson de Souza Zille. É que ele conhece bem o que é um acidente aéreo na selva, já que foi co-piloto do vôo 254, em que um Boeing 737-200 caiu na mata em setembro de 1989, numa rota entre Belém e Marabá, no Pará, mas que adotou um outro plano de vôo por conta de um erro do comandante da aeronave, Cezar Augusto Pádula Garcez.Zille começou a acompanhar o acidente da Gol na noite da sexta-feira, dia 27, quando estava no BarraShopping, na Barra da Tijuca, no Rio, e recebeu um telefonema do irmão avisando que um avião da Gol havia sumido na mesma região em que o Boeing da Varig caiu. ´Pensei nos pilotos, no esforço desesperado que esses homens fizeram naqueles minutos finais. Sei realmente o que eles enfrentaram.´ Com o passar dos dias, com o olho pregado no noticiário, Zille fez suas associações entre os dois acidentes - na mesma região, no mesmo mês e com 18 anos de diferença - e arriscou suas conclusões:´Os pilotos americanos são os culpados. É comum avião desse porte mudar o plano de vôo para ir mais alto e mais rápido. Só acho bobagem essa história de que eles desligaram o transponder, porque não tinham motivo para colocar em risco a própria vida. Só voaram mais alto do que deveriam mesmo. Aí deu algum problema no equipamento deles e a base não avisou a tripulação da Gol também, como deveria ter feito. Mas esses pilotos vão morrer negando, culpando o sistema de controle aéreo brasileiro. É da natureza das pessoas que fazem barbeiragem no ar. Na cabeça deles, não são culpados. O piloto do meu último vôo fez assim. Matou aquelas pessoas todas e nunca assumiu sua culpa, disse que o problema foi o plano de vôo da Varig.´ElogiosDepois do acidente, o comandante Cezar Augusto Pádula Garcez ajudou a cuidar dos passageiros e teve sua perícia elogiada, porque, afinal de contas, conseguiu parar um Boeing em cima da copa de árvores, com visibilidade zero. Mas à medida que as responsabilidades pelo acidente eram apuradas, apareciam as evidências de que errou a rota e passou informações erradas para o controle aéreo para que o engano não fosse percebido.Garcez e Zille foram responsabilizados pelas mortes e condenados a 4 anos de detenção, convertidos em pena alternativa e pagamento de multa. Recorreram em todas as instâncias possíveis. O piloto alegou que a ação não poderia ter corrido na Justiça Federal do Mato Grosso, porque foi iniciada em São Paulo. O co-piloto alegou que não estava no comando da aeronave e tentou dissuadir o piloto do erro, depois entrou com embargos de declaração alegando que não poderia ter pena semelhante à dele. A ação chegou ao Superior Tribunal Federal - e a sentença só foi aplicada este ano: cumprirá pena alternativa na Colônia Juliano Moreira, instituição fluminense que cuida de pacientes com doenças mentais, uma vez por semana, pelos próximos quatro anos.Zille ainda tentou pilotar depois do acidente. Mandou currículos para a Vasp, Transbrasil, para uma empresa holandesa e para uma companhia de charters do Caribe. ´Meu nome era aprovado, mas voltava quando descobriam que eu era o co-piloto do acidente.´ Viu o comandante Garcez pela última vez em 1994, durante uma audiência. ´Perguntei a ele mais uma vez: Por que você não me ouviu? Ele disse que queria manter os nossos empregos. Nunca mais o vi, graças a Deus.´EstigmaPara não ´ser estigmatizado´, evita falar para as pessoas que era o co-piloto do Boeing 737-200 da Varig - mas, nos últimos dias, não resiste à tentação de acompanhar todos os detalhes do acidente de semanas atrás.´Se pudesse dizer algo a esses pilotos americanos, eu diria apenas: Vocês são sortudos pra cacete! Mais dez centímetros e estariam todos mortos.´

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