Coisa de amador

Celebrado como profissional no ramo da ocupação de espaços políticos e administrativos, o PMDB não tem feito jus à fama nessa fase de formação do ministério de Dilma Rousseff. Até agora tem perdido todas as tentativas de pressionar o governo e de impressionar o público com suas jogadas.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2010 | 00h00

A cúpula do partido deu-se conta disso e ontem já se movimentava nervosamente para recuperar os prejuízos provocados de um lado pela "dureza" dos petistas que formam o núcleo do poder e, de outro, pela fragilidade da propagada unidade do partido em torno da defesa de seus interesses.

Danos obviamente passageiros. Não obstante, suficientes para evidenciar que o partido não é assim tão competente nesse jogo nem está unido como quer fazer crer desde que conseguiu sentar na Vice-Presidência da República o presidente da legenda, Michel Temer, contra a vontade do presidente Luiz Inácio da Silva, que preferia ver Henrique Meirelles no posto.

O plano de atuação da direção partidária para essa fase era fazer de Temer o interlocutor junto à presidente eleita, que seria o único autorizado a levar a ela os nomes dos "eleitos" por consenso para ocupar as cinco pastas pretendidas.

Logo nos primeiros acordes, entretanto, a sinfonia desafinou: o líder da bancada da Câmara, Henrique Eduardo Alves, propagandeou a criação de um grande bloco de partidos ditos aliados, de repercussão bastante negativa no governo. Soou ao que efetivamente era: chantagem para negociar espaços na Esplanada e no Congresso.

Temer alegou que nada sabia, Alves confirmou que agira por iniciativa própria, mas continuou na mesma linha sem ser admoestado à altura do ato. Deixou o comandante "vendido" e ficou tudo por isso mesmo.

Em seguida, quando começaram de fato as negociações com a presidente, Temer esteve com Dilma, que, no entanto, no mesmo dia recebeu os senadores José Sarney e Renan Calheiros para negociar a parte que lhes cabia no latifúndio. O comandante, de novo, foi solapado em sua autoridade de interlocutor único.

No dia seguinte, um integrante de sua equipe de comando e candidato ao posto de ministro, Moreira Franco, deu entrevista ao jornal O Globo reclamando de que Temer estava sendo "enfraquecido" pelo governo. Se ele passou esse recibo com autorização, foi ruim. Se Moreira falou à revelia de Temer, foi pior: revelou desarticulação.

No caso do convite seguido de "desconvite" ao secretário de Saúde do Rio de Janeiro, Sergio Côrtes, para o Ministério da Saúde dividiu-se o desastre: entre o comando do partido, pois ficou patente a existência de mais uma interlocução à parte e o governador Sérgio Cabral pela precipitação do anúncio sem cumprir o ritual de articulação com o PMDB.

Ou talvez não tenha se precipitado, mas simplesmente dado margem ao fogo "amigo" de petistas e pemedebistas. Políticos de expressão regional, pouco afeitos aos códigos da capital federal, são vulneráveis a esses revezes.

Em maio de 2008, quando Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente, Carlos Minc - escolhido na "cota" de Cabral - também amargou uma suspensão temporária pelo mesmo motivo: o governador comemorou e o convidado saiu falando de seus planos como se autonomia tivesse.

No caso da direção do PMDB, não se pode alegar falta de intimidade com as regras não escritas. Ao contrário: o partido domina a linguagem como ninguém. Mas, desta vez e por ora, parece vítima de outro fenômeno: a voracidade ante a fartura do banquete.

Nem de graça. Se, numa hipótese remota, o DEM resolvesse mudar sua direção para entregar o comando ao prefeito de São Paulo, dificilmente Gilberto Kassab recuaria na decisão de se transferir para o PMDB no início do ano.

Conforme correligionários, não lhe apetece a administração de massa falida. Além de não ser politicamente vantajoso para nenhum dos dois dos gurus de Kassab - José Serra e Jorge Bornhausen - deixar o PMDB de São Paulo à deriva, disponível à influência do PT ou do governador eleito Geraldo Alckmin.

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