Colar cacos da nova fratura será o desafio

Os motivos podem até variar, mas a relação do deputado Ciro Gomes (PSB-CE) com seus partidos, ao longo dos anos, termina sendo turbulenta. Foi assim na ruptura com PSDB e PPS e já parece caminhar para outra situação de incompatibilidade de gênios com o PSB. Na prática, à medida em que foi conquistando espaço e prestígio político, Ciro passou a ter três características. A primeira: a migração gradual de legendas ideologicamente próximas da direita para a esquerda. A segunda: passou a cobrar cada vez mais protagonismo. A terceira é a que recebe mais reclamações. Ao mesmo tempo em que tem sua inteligência e carisma reconhecidos, é considerado uma pessoa de temperamento forte, de gênio difícil e que não gosta de ter suas posições contrariadas.

Cenário: Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Informalmente, alguns integrantes do PSB costumam ironizar essas atitudes, apelidando Ciro de "irmão mais velho de Deus". Essa figura pública começou a ser moldada pela imensa popularidade que adquiriu entre os eleitores do Ceará, onde sempre foi campeão de votos e pela aproximação cada vez maior com líderes políticos menos conservadores, que o atraíram para seus partidos.

Outro hábito que adquiriu e preservou foi o de não olhar para trás. Sua trajetória começou no PDS, descendente direto da Arena, onde conquistou em 1983 o mandato de deputado estadual. Em 1987, sua reeleição foi garantida após migração para o lado oposto, filiando-se ao PMDB, cuja origem remonta ao confronto direto com a Arena.

Ainda pelo PMDB, elegeu-se prefeito de Fortaleza, com apenas 30 anos. Deixou o partido, entrando no PSDB. Longe de manter relação de nostalgia com os peemedebistas, passou a criticar o comportamento de seu antigo partido até os dias de hoje, acusando-os constantemente de incompetência e de ligação com fisiologismo.

A passagem pelo PSDB lhe deu projeção, um governo de Estado e o Ministério da Fazenda, no governo de Itamar Franco. Foi alçado à categoria de maior promessa política do partido, mas rompeu com tucanos importantes, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra, disparando críticas públicas ao PSDB durante o afastamento.

Em busca desse protagonismo legítimo, Ciro entrou no PPS com promessa de encabeçar o projeto político da chamada "Esquerda 21", espécie de revisão do pensamento de esquerda voltado para as novas ideias do século 21. Foi candidato à Presidência em duas eleições, mas não obteve sucesso. Aproximou-se do presidente Lula e entrou no Ministério da Integração Nacional.

O PPS passou a discordar dos rumos do governo e o choque público com Ciro, cada vez mais admirador de Lula, foi inevitável. A consequência foram mais brigas com o partido e com seu presidente, Roberto Freire, deixando a legenda para se filiar ao PSB.

Agora, frustrado com a negativa do PSB em lhe dar legenda para concorrer e com a falta de ajuda de Lula para seu projeto, voltou a disparar contra os aliados. Por falta de opções, pode até não se desfiliar. Mas dificilmente colará os cacos dessa mais nova fratura política de sua carreira.

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