Elizabeth Thiel
Elizabeth Thiel

Coletivo de mulheres negras busca visibilidade por meio da arte no RS

Criado na pandemia, grupo de artistas descobriu que unido poderia reduzir os efeitos da crise por meio de música, brechós e venda de acessórios

Victoria Netto, especial para o Estadão

08 de março de 2021 | 18h00

A Collab Bucepretas “chegou para comandar”, cantam as meninas do coletivo no single de estreia do grupo, lançado em 2020 em plena pandemia. O projeto, que tem o apoio da Natura Musical e vem conquistando milhares de seguidores em Porto Alegre/RS, reúne sete jovens artistas que buscam visibilidade por meio da música.

 

As artistas se uniram para fazer frente às dificuldades aprofundadas pelo coronavírus. E o que era para ser uma parceria pontual para o videoclipe de Bucepretas, canção gravada por duas delas, Agnes Mariá e Pretana, virou forma de resistência em meio à crise de covid-19. Hoje, além do projeto com música, as jovens trabalham com brechó e venda de acessórios que elas próprias confeccionam. 

“Nós nos unimos como Collab no início da pandemia justamente com o intuito de minimizar os impactos que nós sofremos como artistas'', explica a cantora e poetisa Agnes Mariá, uma das criadoras do coletivo.

O grupo também busca empoderar outras artistas no Rio Grande do Sul por meio de uma rede de apoio. “A nossa proposta, quando iniciamos a Collab, era poder dar visibilidade e potencializar o trabalho de artistas negras aqui da cena gaúcha”, diz Agnes.

O nome Bucepretas pode até causar impacto, mas é exatamente o que as artistas buscam: reafirmar suas identidades como mulheres negras. Ainda assim, elas enfatizam que a ideia do nome ultrapassa uma perspectiva “genitalista”.

“Para além do nome, queremos lembrar que as mulheres trans também precisam ser vistas com olhos mais carinhosos pela sociedade, porque não é um órgão genital que vai dizer quem tu és”, destaca a dançarina Laura Sancos, de 22 anos, mulher trans que integra o coletivo.

O nome, segundo elas, também remete a um grito de guerra que começaram a cantar umas para as outras em rodas de slam  — competições de poesia falada — como forma de empoderamento, já que esses círculos ainda têm predominância masculina.

“Falar em Bucepretas é reafirmar que outras mulheres pretas precisam de voz, é pensar em mulheres que sofrem feminicídio ou mulheres que chefiam famílias e estão batalhando na pandemia”, comenta a poetisa Gaya, de 23, outra  integrante do coletivo, que faz questão de dizer que é mãe solo de uma menina de 3 anos.

A pluralidade de corpos também é uma bandeira da Collab. “Mesmo que o preto não seja aceito, até para o não aceito existe um padrão”, afirma a cantora e compositora Pretana, de 22. “Quando fizemos o projeto, queríamos que as meninas pretas se sentissem representadas de alguma forma. Então, no videoclipe, trouxemos diversos corpos para que diversas pessoas pudessem se identificar, porque quando vemos grupos de pessoas pretas, a maioria traz mulheres cis, magras e estereotipadas.”

Tem Preto no Sul

Colonizado majoritariamente por italianos e alemães durante os séculos 18 e 19, o Rio Grande do Sul é conhecido no Brasil por ter uma população de pele alva, loira e de olhos claros. “Quando a gente fala de um lugar que foi colonizado por europeus e ainda tem muito disso na raiz, fincado, a gente está falando de não-visibilidade de outros povos, como indígenas e pretos”, afirma Pretana.

No Estado onde 81,5% da população se declara branca, segundo o último censo realizado pelo IBGE, em 2010, as pessoas negras (16,2%) se movimentam para reafirmar que também existem. “Ser artista aqui no Sul é entender que a gente tem de lutar muito mais para ter a nossa visibilidade”, complementa Pretana, que é mineira e mora no Rio Grande do Sul desde os 16 anos.

Nesse cenário, a Collab reverbera o movimento “Tem Preto no Sul”, cujo grito surgiu com o coletivo Poetas Vivos em torneios nacionais de slam realizados fora do Estado. 

“Já em 2017, quando Cristal Rocha, a primeira slammer (gaúcha) vai a São Paulo, cria-se o grito de guerra ‘Tava esperando um olho azul? Tem preto no sul, tem preto sul’, porque há essa ideia de que aqui no Sul só existem loiros dos olhos azuis”, conta Agnes Mariá, à frente da Collab Bucepretas e uma das idealizadoras, anos atrás, do coletivo Poetas Vivos.

A sub-representação negra no Rio Grande do Sul não acontece só para quem enxerga o Estado de fora. Dentro dos limites gaúchos, o racismo estrutural também se reflete no apagamento da contribuição negra para a cultura do Estado, aspecto recorrente na produção artística de diversos jovens e coletivos.

O próprio hino riograndense é alvo de críticas. Os versos “povo que não tem virtude acaba por ser escravo” carrega traços do período de escravização de africanos no Estado. Não à toa, em algumas solenidades, o hino já não é cantado e se discute, na Câmara Municipal de Porto Alegre, um Projeto de Lei proposto pela bancada negra para que se altere esse trecho da letra.

Para Agnes Mariá, é preciso desviar o olho do eixo. “Existe um apagamento que é histórico da população negra aqui no Rio Grande do Sul, tanto que lá fora vendem Porto Alegre como um pedaço da Europa, mas nós existimos e resistimos aqui.”

Tudo o que sabemos sobre:
mulhermúsicaPorto Alegre [RS]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.