Collor promete usar ''munheca justiceira''

Candidato retoma mote da campanha presidencial de 1989, período que o piloto e ex-aliado Jorge Bandeira quer esquecer

Vannildo Mendes, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2010 | 00h00

Candidato ao governo de Alagoas, o senador Fernando Collor (PTB) reeditou na campanha o discurso de caça aos corruptos que o levou a uma ascensão meteórica na política nacional em 1989, quando foi o primeiro presidente eleito após a redemocratização do Brasil. A volta do "caçador de marajás" é a última cartada de Collor para vencer uma eleição que chega indefinida na reta final.

No discurso de encerramento de campanha, na quinta-feira, Collor brandiu os punhos no ar, como nos velhos tempos, e prometeu usar sua "munheca" justiceira para varrer os corruptos do Estado. O povão foi ao delírio.

Mas o "caçador de marajás" chega hoje às urnas empatado tecnicamente nas pesquisas com o atual governador Teotônio Vilela Filho (PSDB). O ex-governador Ronaldo Lessa (PDT) aparece em terceiro lugar. Os 2 milhões de eleitores alagoanos estão tomados pela incerteza.

A corrida pelo Senado é liderada pelo senador Renan Calheiros (PMDB) e pelo deputado federal Benedito Lira (PP). Heloísa Helena (PSOL), que aparecia em segundo lugar nas pesquisas, agora está em terceiro.

Com tradição de violência e fraudes, o Estado é alvo de esquema especial de segurança montado pela Justiça Eleitoral. A Polícia Militar cancelou as férias na corporação e distribuiu seus 7.500 policiais pelos 102 municípios, com atenção redobrada para Maceió e 15 cidades mais problemáticas. Tropas federais reforçarão a segurança.

É nesse ambiente político que a "República de Alagoas" tenta ressurgir. Enquanto alguns de seus personagens ainda estão atuando na política - como é o caso de Renan Calheiros, que na época foi líder do governo no Congresso -, outros saíram de cena.

Símbolo. Quem vê a aparência sóbria do hoje maître Jorge Bandeira - cabelos grisalhos, modos finos - não imagina estar diante de um intrépido piloto de jato, capaz de passar a perna na Polícia Federal e na Interpol. Em 1992, ele cruzou vários países em uma fuga espetacular, tirando do Brasil o empresário Paulo César Farias, o PC.

Bandeira foi comandante do Morcego Negro, o jatinho em que PC percorreu o País arrecadando dinheiro antes e depois da eleição de Fernando Collor, de quem foi tesoureiro de campanha. O avião virou símbolo da pujança da chamada República de Alagoas, desmantelada por denúncias de corrupção e um processo de impeachment que tirou Collor do poder.

Atualmente, Bandeira pilota um restaurante, o Le Corbus, num bairro de luxo de Maceió. Alguns dos integrantes da tal república estão mortos, como o próprio PC. Outros deixaram a cena política por doença, velhice ou falta de oportunidade. Há até quem queira ver Collor pelas costas, como o major Dário César, ex-chefe da segurança presidencial, hoje coronel e comandante da PM alagoana. Mas uma ala resistente sonha, 20 anos depois, com um novo apogeu.

Não é o caso de Bandeira, que teve a vida destruída. Preso na Argentina, ele cumpriu dois anos. Solto em 1996, pouco antes da morte de PC, teve problemas para retomar a carreira e acabou montando o Le Corbus, na Praia de Pajuçara. Ele conta que a sugestão foi dada pelo amigo Claude Troisgros. "Ao me dedicar à cozinha, vi que a vida tem muitos encantos e o melhor é olhar para frente."

Bandeira casou pela segunda vez e leva uma vida confortável. Culto, gosta de arte, bebe bons vinhos e viaja com frequência para a Europa. "Pilotar, agora, só de vez em quando, por hobby."

Daquele período tumultuado, garante guardar boas lembranças apenas da convivência com PC. O resto, preferiu deletar.

Bandeira dá a entender que mantém alguma estima por Collor, a quem dedicou uma especialidade, o Filé Presidente: um bife alto, temperado com molho shoyu, sal, pimenta e manteiga e servido com cabelo de anjo. Está pensando em criar um prato em homenagem a PC Farias.

Sobre o esquema de corrupção articulado por PC, Bandeira divaga um pouco. A seguir, faz uma comparação: "A corrupção eleitoral e os métodos de arrecadação de hoje estão muito piores, mais escancarados."

/ COLABOROU RICARDO RODRIGUES

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